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25 de janeiro, de 2026 | 06:00

Coronel Fabriciano, uma história romântica e conectada com o mundo

Mário de Carvalho Neto *


Não é difícil encontrar pelas ruas de Coronel Fabriciano, fabricianenses natos, que testemunharam a emancipação da cidade, em 1948. Cid Morais, Hemétrio, sobrinho do então superintendente da Belgo Mineira, que trouxe a empresa para a região, o Abrão, ex-jogador do Social, Nelson Sena Filho, João Cassiano Damasceno, entre outros, que estão aí, comemorando os 77 anos da cidade.

Foi a partir da emancipação, entre a virada da primeira metade do século 20 para a segunda metade, que a sociedade fabricianense construiu seu destino e sua trajetória. E foi a partir daí também, que a juventude fabricianense teve seu protagonismo na construção da identidade fabricianense.

Se tem um ponto de partida, porque não ressaltar a efervescência cultural que acontecia no mundo, a chamada contracultura. Nesse período, a juventude mundial experimentava o pensamento livre e descobria a dicotomia entre o discurso e a realidade. E foi por este caminho, sob a influência da música, da arte, da cultura pop que a juventude fabricianense trilhou, para marcar na história um dos mais intensos capítulos de sua história, a vida noturna. De uma saudosista, apenas quem vivenciou é capaz de sentir sua intensidade, o contágio e o envolvimento.


“Vou ressaltar aqui um pouco do cenário e
dos fatos que aconteciam no mundo e
pelas ruas da cidade”


Se é impossível transcrever sentimentos e experiências, vou ressaltar aqui um pouco do cenário e dos fatos que aconteciam no mundo e pelas ruas da cidade.

Por aqui, a pauta das conversas entre os jovens era tema mundial, como a Guerra do Vietnã, a conquista do espaço, o sucesso estrondoso dos Beatles, o surgimento da pop arte, a febre das calças Lee importada, o movimento hippie, os festivais de Monterrey e Woodstock e as experiências alucinógenas, que surgiam competindo com o ascendente consumo de bebidas alcoólicas. Assuntos que se convergiam nas mesas dos bares, e consagrava uma vida noturna que alcançava dimensões e fama em toda a Minas Gerais.

O espírito jovem era doutrinado pelo romantismo, pela cultura e pela consciência de que a região prosperava entre dois empreendimentos industriais siderúrgicos de grande porte, a Acesita e a Usiminas. Fabriciano torna-se o centro de lazer e entretenimento de outros jovens forasteiros, que se interagiam com os fabricianenses formando uma espécie de nação, cuja linguagem era divertir e ouvir música boa.

Churrascaria Cabana - A antiga churrascaria era o ponto de encontro dessa nação jovem, onde se ouviam as mais belas e melodiosas canções que hoje são rotuladas como “Flashback”. O discotecário B.O, exibia a pilha de compact disc com os sucessos que também explodiam em cidades como Nova York e Londres. Ali, o mundo se conectava com Fabriciano em tempo real.

Uma grande rede de bancas de revistas e jornais pela cidade, alimentava os fabricianenses de informações gerais, trazendo as revistas nacionais, O Cruzeiro, Manchete e Fatos e Fotos, e jornais como, O Pasquim, o Flan e O Progresso.

Nessas bancas, eram lançados os primeiros gibis dos heróis da Marvel, simultaneamente com os EUA, pela editora EBAL. A rádio Educadora AM, durante o dia tocava Elvis Presley para os adultos, e à noite, o jovem ouvia a Rádio Mundial, também AM, do Rio de Janeiro. Com programação estilo as atuais FM, aos sábados à noite, na rádio carioca, o apresentador Big Boy apresentava um programa exclusivamente dos Beatles.


“A partir da emancipação, a juventude
fabricianense teve seu protagonismo na
construção da identidade fabricianense”


Os livros que inspiravam a intelectualidade dos introspectivos fabricianenses, eram A Erva do Diabo, de Carlos Castaneda; Sidarta, de Herman Hesse; Eram os Deuses Astronautas, de Erich Von Daniken, Love Story, de Erich Segal, o Profeta, de Khalil Gibran e outros de escritores indianos. No Cine Marrocos, os filmes do agente secreto OO7, Sem Destino e A Primeira Noite de um Homem, os faroestes, o Bom, o Feio e o Mal, Django e Ringo, os musicais, Woodstock e Aquarius, lotavam as seções do cinema. Os bailes eram embalados pelas bandas regionais The Lions, Tenebrosos, Pierre 5, Almeida Boys, que faziam vibrar com os ritmos do iê iê iê e da Jovem Guarda.

Arquivo histórico

Nessa época chegava a Universidade do Trabalho, atual Unileste, e com ela, um grande número de estudantes que ampliavam ainda mais a multidão de jovens que já se dividiam entre os bares Chicken in, Fernando´s Bar, Barril, Viegas, Barrilzinho, Barracão, Amarelinho, Armazém do Chope, Choça, Castelinho, Jambalaia, Cosmos, Zé Firmo, Sobradão, as Boates, Xodó, Flash Dance, Escritório, Saint Topez e Underground. Formava-se uma das maiores praças da boemia do interior mineiro, rivalizando apenas com Governador Valadares e Juiz de Fora.

Assim foi uma era, movida por uma multidão de jovens que fechava da esquina da José Cornélio com a Pedro Nolasco, até o fim da Maria Matos, notabilizada pela ordem e coletivismo.

Este recorte da história, com um enredo marcado por uma certa inocência, foi responsável por uma das mais famosas vida noturna do estado, por uma economia noturna pujante e por centenas de casais que se encontraram e formaram famílias, cujos filhos continuam ainda hoje, construindo uma nova história de Coronel Fabriciano.

* Jornalista, historiador, diretor da Revista Caminhos Gerais

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