25 de janeiro, de 2026 | 06:00
Atual sucesso do cinema brasileiro reflete anos de investimento no setor
Alile Dara Onawale-Sony Pictures
''Ainda Estou Aqui'', de Walter Salles, venceu o Oscar 2025 de Melhor Filme Internacional: momento não é por acaso
O cinema brasileiro atravessa um de seus períodos mais visíveis e simbólicos no cenário internacional, impulsionado por uma combinação de políticas públicas, continuidade institucional e reconhecimento em grandes festivais. Para especialistas do setor, o atual momento, marcado por prêmios, presença em vitrines globais e renovação de talentos, não é fruto do acaso, mas resultado de décadas de investimento e construção de uma política de Estado para o audiovisual.
''Ainda Estou Aqui'', de Walter Salles, venceu o Oscar 2025 de Melhor Filme Internacional: momento não é por acasoA avaliação é do presidente da RioFilme, Leonardo Edde, que destaca a importância de transformar o bom momento em um ciclo duradouro. O momento do cinema brasileiro é realmente fantástico. É um momentum, como outros que já tivemos ao longo das décadas, sempre com altos e baixos. O que a gente tenta agora é que esse momentum seja o mais extenso possível”, afirmou.
Segundo ele, a recente sequência de destaques - que vai de produções consagradas no Oscar e no Globo de Ouro a filmes selecionados em Cannes e, agora, no Festival de Berlim - revela a diversidade regional e criativa do país. Você tem o Rio, com Ainda Estou Aqui, Pernambuco, com O Agente Secreto, e agora o Brasil chegando a Berlim com projetos de jovens cineastas. É o Brasil aparecendo”, disse.
Para Leonardo Edde, a chave para sustentar esse crescimento está na continuidade das políticas públicas. O que a gente está estruturando é uma política pública perene, com ciclos longos, sem interrupções como vimos em outros momentos da história”, argumentou. Se não houver interrupção, o cinema brasileiro vai estar sempre em alta, porque a gente tem realizadores, artistas, produtores e empresas incríveis”, sustentou.
Ele lembrou que o reconhecimento internacional dialoga diretamente com a economia criativa e outros setores. Isso anda junto com turismo, PIB, indústria. O audiovisual é indústria”, afirmou. Na avaliação do presidente da RioFilme, o Brasil avança no caminho de uma indústria audiovisual mais sólida, mas ainda enfrenta desafios estruturais. A gente está numa crescente. O Brasil é a bola da vez, mas precisa ser a bola da vez com mais recorrência. Temos um mercado interno forte, mas precisamos nos internacionalizar mais”, disse.
Paulo Pinto/Agência Brasil
Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho fazem parceria premiada em ''O Agente Secreto'': combinação de políticas
Leonardo Edde reforçou também que o papel do Poder Público vai além do financiamento da produção. Não é só fomento. É distribuição, promoção e salas de cinema. A sala ainda é o ambiente mais nobre para o filme, e é nossa responsabilidade cuidar desse ecossistema”, justificou.
Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho fazem parceria premiada em ''O Agente Secreto'': combinação de políticasPolíticas de incentivo
Nesse sentido, políticas públicas como o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e a Lei Federal de Incentivo à Cultura, conhecida como Lei Rouanet, cumprem papéis complementares: a Rouanet estabelece segmentos específicos que podem receber apoio por meio de incentivo fiscal, como produções audiovisuais de curta e média-metragem e a construção e manutenção de salas de cinema, enquanto os longas-metragens recorrem majoritariamente ao FSA.
Nos casos de O Agente Secreto” e Ainda Estou Aqui”, as obras premiadas não utilizaram recursos da Rouanet, já que a lei não financia longas. Em declarações recentes, neste mês de janeiro, o ator Wagner Moura defendeu enfaticamente a Lei Rouanet e outros mecanismos de fomento, reagindo a críticas e desinformação sobre o tema. Eu não posso explicar a Lei Rouanet para quem ainda não assimilou a Lei Áurea”, afirmou o artista, sugerindo que a resistência às políticas culturais reflete uma incompreensão histórica sobre o papel do Estado.
Já o FSA, administrado pela Ancine, é hoje um dos principais instrumentos do setor, investindo em todas as etapas da cadeia produtiva: que vai do desenvolvimento à distribuição e sendo amplamente utilizado por grande parte dos longas-metragens brasileiros de maior repercussão.
Desafio de atrair o público
Para a crítica de cinema Flávia Guerra, o atual reconhecimento do cinema brasileiro, impulsionado por títulos como O Agente Secreto”, tem um impacto que vai além da bilheteria imediata. Toda vez que a gente vive uma boa fase como essa, iniciada no ano passado e que continua agora, é importante lembrar que isso é fruto de décadas de trabalho e de política pública de Estado para o audiovisual”, afirmou.
Flávia ponderou que o prestígio internacional não se converte automaticamente em público nas salas, um desafio ampliado pela pandemia e pelo avanço do streaming. Ainda enfrentamos dificuldades para levar os filmes brasileiros ao cinema, para conquistar o público e para se manter em cartaz. Mas há um ganho imenso de prestígio. O público começa a ver o filme brasileiro como algo natural no multiplex”, avaliou.
Nesse contexto, ela destacou a fala de Kleber Mendonça Filho no Globo de Ouro, dirigida especialmente aos jovens. Esse clima de Copa do Mundo da cultura é muito importante. Assim como no esporte ou na música, ver nossos artistas lá fora inspira jovens a enxergar o audiovisual como profissão, como carreira possível”, disse o diretor de O Agente Secreto” e Bacurau”.
Para a crítica, a mensagem de Kleber dialoga com um momento global de crise, mas também de oportunidade. Não desistam do audiovisual. Ele emprega uma cadeia inteira, do motorista da van ao catering, da pousada ao mercadinho. É indústria. A Coreia do Sul está dando aula nesse sentido há anos”, comparou.
Nova geração
A presença brasileira no Festival de Berlim 2026 se consolida com produções selecionadas em diferentes mostras: Feito Pipa” (Gugus World), de Allan Deberton, integra a Generation Kplus; Papaya”, de Priscilla Kellen, primeiro longa brasileiro de animação selecionado na história do festival, também está na Generation Kplus; A Fabulosa Máquina do Tempo”, documentário de Eliza Capai, completa a presença brasileira na mesma mostra; e Se Eu Fosse Vivo Vivia”, de André Novais Oliveira, foi escolhido para a mostra Panorama, uma das vitrines centrais da Berlinale.
Para Flávia Guerra, o destaque de filmes de jovens cineastas em Berlim exemplifica o efeito positivo da atual fase. Ver filmes brasileiros ocupando esses espaços é fundamental para garantir continuidade. Não é ser o país de um filme só, mas de uma cinematografia”, argumentou.
Para os especialistas, o desafio agora é transformar reconhecimento em política duradoura e presença constante nas salas e nos festivais. Quando um filme como O Agente Secreto abre a cabeça do público internacional, ele leva todo o cinema brasileiro junto”, resumiu Flávia Guerra. As indicações e os prêmios dependem de muitos fatores, mas o mais importante é garantir que o Brasil seja reconhecido não por um título isolado, e sim por uma cinematografia diversa, contínua e viva”, concluiu.
Oscar 2026 e Festival de Berlim
O cinema brasileiro segue em evidência no circuito internacional em 2026. Na disputa do Oscar, O Agente Secreto” foi indicado a Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Direção Elenco (nova categoria), enquanto Wagner Moura recebeu indicação a Melhor Ator por sua atuação no longa. Com essas quatro indicações, o filme de Kleber Mendonça Filho chega ao mesmo número recorde de indicações de Cidade de Deus”, em 2004.
Em outra frente, o país também aparece entre os destaques técnicos na 98ª edição do Oscar: Adolpho Veloso concorre a Melhor Fotografia por Sonhos de Trem”, filme norte-americano também indicado a Melhor Filme, Roteiro Adaptado e Canção Original. A lista anunciada pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences confirma um momento histórico para o cinema brasileiro. A cerimônia do Oscar 2026 será realizada em 15 de março.
Na semana que passou, também, a organização do Festival Internacional de Cinema de Berlim, chamado de Berlinale, anunciou a seleção de Rosebush Pruning”, novo longa-metragem do diretor cearense Karim Aïnouz, para a competição oficial da 76ª edição do festival, que ocorre entre 12 e 22 de fevereiro, na capital alemã. A escolha reforça a presença do Brasil entre os principais eventos do calendário audiovisual mundial.
Com trajetória frequente na Berlinale, Aïnouz retorna à competição com um projeto de alcance internacional, após passagens marcantes por grandes vitrines do cinema autoral. Em 2019, o cineasta venceu o prêmio Un Certain Regard, no Festival de Cannes, com A Vida Invisível”, consolidando seu nome entre os realizadores brasileiros de maior projeção no exterior. (Com Agência Brasil)
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