18 de janeiro, de 2026 | 06:00

Imagens que falam da ferrovia Vitória a Minas

Até 2028, moradores de Minas Gerais e Espírito Santo participam de projeto de memórias, fotografias e audiovisual

Fotos: Estúdio Estilingue/Divulgação
Linhas férreas serão visitadas, até 2028, sob as lentes de moradores de Minas e Espírito SantoLinhas férreas serão visitadas, até 2028, sob as lentes de moradores de Minas e Espírito Santo
Datada do século XX, a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) escreve um novo capítulo em seu traçado ferroviário. Até o ano de 2028, moradores de Minas Gerais e do Espírito Santo poderão atravessar um percurso de 905 km, “a fim de ressignificar memórias e histórias do imaginário popular da região”, pelas imagens coletadas no “Projeto Estação”.

“Utilizando a fotografia e o audiovisual como guardiões da memória ferroviária, a iniciativa propõe a preservação das histórias e da cultura local, que cercam as 30 estações da EFVM”, propõe os organizadores da empresa Horus Planejamento e Gestão, idealizadora do projeto com o apoio da Vale e da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Pela descrição, em menos de um ano, “o programa se destacou por impulsionar 80 jovens mineiros a redescobrirem histórias, paisagens, marcos arquitetônicos”, além de destacar personagens comuns das cidades que atuaram na linha férrea.

Nesse mapeamento inicial, Belo Horizonte, Barão de Cocais, Rio Piracicaba, João Monlevade, Itabira, Nova Era e Antônio Dias são os sete municípios contemplados, totalizando o percurso de 172 km somente no primeiro ano da ação. Em paralelo, a organização visitou outros 44 “lugares-espaços” em território mineiro.

Lugares-espaços
Desde a montagem dos trilhos, em 1904, o traçado Vitória-Minas tem sido um campus de estudos e intersecção no resgate da memória ferroviária nacional, ressalta a assessoria. Para valorizar e retratar a identidade local, o projeto apresentou 240 fotografias captadas por jovens entre 16 e 25 anos, que utilizaram câmeras de smartphones na produção das imagens.

Essas obras resultaram em sete instalações artísticas na paisagem urbana de escolas, palcos, praças e estações da Estrada de Ferro Vitória a Minas, conforme menciona a assessoria: o interior da Estação Ferroviária de BH; o muro da Escola Estadual Cel. Fabriciano; a Escola Municipal Estação Crescer; a arquibancada da Praça Vereador José Máximo e o fundo do palco da Praça do Povo, além dos muros na Escola Estadual Prof. Antônio F. Pinto e na praça ao lado do Posto São Geraldo, em Barão de Cocais.

Pelos próximos três anos, até 2028, o objetivo é “expandir e democratizar a fotografia pelo eixo sudeste brasileiro”, anuncia o produtor cultural Preto Filho. “Esta é uma iniciativa rara no cenário cultural brasileiro. Promover uma rede de afetos e saberes entre comunidades ligadas pela ferrovia é um desafio. A extensão férrea se tornou um ponto de conexão e de partida entre arte, território, memória e patrimônio imaterial. Além de dar voz às comunidades no entorno ferroviário, o projeto é uma das maneiras de incentivar o jovem em suas sensibilidades, seu olhar para o mundo e também no mundo das artes, de maneira totalmente gratuita”, explica.

Entender a ferrovia para além da estrutura, observando a poética e a sensibilidade nas histórias comunitárias ao derredor do trem, é parte do processo observado pelo diretor-geral da ANTT, Guilherme Theo Sampaio. “A preservação da memória ferroviária é parte fundamental do compromisso com um transporte mais humano, integrado e conectado às realidades locais. O ‘Projeto Estação’ mostra que a ferrovia não é apenas infraestrutura - ela é território vivo, onde histórias, afetos e identidades se encontram. Ver comunidades transformarem a sua própria memória em arte reforça o nosso papel de garantir que o desenvolvimento do setor caminhe junto com a valorização cultural e social dos territórios que atravessamos”, argumenta.

Trajeto do trem em Antônio Dias: município está contemplado nas atividadesTrajeto do trem em Antônio Dias: município está contemplado nas atividades
Histórias reais e conexões

“O trem, que sai de Belo Horizonte (MG) e se estende até Porto de Tubarão, litoral de Vitória (ES), libera cerca de três mil tickets diários e já transportou mais de oito milhões de passageiros somente na última década”, conforme a produção do projeto. Entre tantos personagens dessa viagem, são apresentadas fotografias do ex-maquinista Agostinho dos Santos; da ferroviária Valdete Gomes da Silva, figura conhecida na estação de BH; até a pose orgulhosa que o ex-ferroviário Leonardo Roque carrega no peito.

“Eu tenho muitas lembranças boas, trabalhei quase 30 anos na ferrovia. Eu praticamente morei dentro dos trens. Tudo o que quis aprender dentro da ferrovia, eu aprendi, tinha o prazer de fazer. De vez em quando, eu olho daqui lá longe o trem passando e falo: saudade dos colegas, das paisagens que eu fui, dos lugares que eu trabalhei”, revela Seu Agostinho, ex-ferroviário da EFVM.

A proposta do Projeto Estação, até 2028, é dar ainda mais visibilidade às histórias, aos sorrisos e sonhos de milhares de mineiros e capixabas. A iniciativa propõe eternizar, pelas lentes de jovens moradores locais, uma aproximação com o território natal e as memórias de pessoas que cruzam a ferrovia. “Cada cidade que o trem atravessa tem morador, tem funcionário. A cidade cresce ao lado dela (da ferrovia)”, conta o itabirano e ex-ferroviário Antônio Magalhães.

Diversidade na linha férrea
Os dados divulgados pelo Projeto Estação revelam que, das 384 inscrições em 2025, o grupo de mulheres representou 69% dos interessados, enquanto os que se autodeclararam negros compunham 67% da amostragem. Totalizando 80 selecionados, com mais de 192 horas de atividades formativas, incluindo 250 m² de arte produzida e exposta a céu aberto, o projeto finalizou a temporada 2025 com uma exposição em Belo Horizonte e o lançamento da galeria virtual: www.estacao.art.br. A mostra no espaço cultural da Escola de Design da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) reuniu 72 obras fotográficas e oito peças audiovisuais.
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