18 de janeiro, de 2026 | 07:00
Devoção a São Sebastião deu origem à data do aniversário de Coronel Fabriciano
A emancipação da cidade ocorreu em 27 de dezembro de 1948, com instalação em 1º de janeiro de 1949, mas o aniversário é comemorado em 20 de janeiro, devido ao santo padroeiro
Arquivo DA
Construída em 1949, a Igreja Matriz de São Sebastião é um dos patrimônios históricos do município fabricianense
Por Matheus Valadares - Repórter Diário do Aço
Construída em 1949, a Igreja Matriz de São Sebastião é um dos patrimônios históricos do município fabricianenseCelebrado em 20 de janeiro, o Dia de São Sebastião vai além do calendário religioso em Coronel Fabriciano. A data também marca o aniversário do município e simboliza uma relação histórica entre fé, território e identidade urbana. Foi em torno da devoção ao padroeiro e da instalação da Igreja de São Sebastião que o antigo povoado do Calado se estruturou, dando origem ao município emancipado.
A ligação entre o santo, a igreja e a cidade atravessa décadas e ajuda a compreender como Fabriciano se consolidou como um dos núcleos formadores do Vale do Aço. A devoção a São Sebastião existe desde o fim da década de 1920, quando foi construída a primeira igreja do então povoado do Calado.
Essa conexão permaneceu com o passar das décadas. O município foi desmembrado de Antônio Dias em 27 de dezembro de 1948, após mobilização liderada pelo padre Deolindo Coelho, então à frente da comissão pró-emancipação. A instalação oficial se deu no dia 1º de janeiro de 1949, em sessão presidida pelo juiz de paz José Anastácio Franco.
O aniversário da cidade é 1º de janeiro. Como você comemora o aniversário de uma cidade no atropelo das festas de Natal e Ano Novo? A prefeitura de Fabriciano, na época do governo de [Hélio] Arantes, instituiu o aniversário no dia 20 como dia de comemoração, aproveitando que já era um dia muito tradicional da cidade, que é o dia do padroeiro São Sebastião”, explica Amir José de Melo, historiador e professor de história natural de Coronel Fabriciano.
Existe toda uma relação da história da cidade com essa devoção e logicamente lembremos também que a Paróquia de São Sebastião foi a primeira instituição religiosa criada no Vale do Aço”, continuou.
A igreja e o Centro urbano
A construção da igreja teve início em 1946, quando o povoado já demonstrava crescimento populacional e importância regional. A presença dela contribuiu para a formação do núcleo urbano, funcionando como ponto de referência para moradias, comércio e serviços públicos.Divulgação
Padre José Cláudio pontuou a importância dos Missionários Redentoristas para o crescimento da cidade
Padre José Cláudio pontuou a importância dos Missionários Redentoristas para o crescimento da cidadeNós temos que entender que o Brasil era um país católico. O número de protestantes era mínimo e, logicamente, no Vale do Aço também. A igreja, durante o Império, foi responsável pelos registros de casamento, de batizado, de falecimento. Não havia cartórios no Brasil. Com o advento da República, vieram os cartórios. Mas mesmo assim, eles não atingiram todo o país”, conta Amir.
Vale lembrar que na então comunidade do Calado já havia sido instalada a Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM), que em 1924 teve a estação inaugurada; o escritório da Companhia Siderúrgica Belgo Mineira foi inaugurado em 1936, e como consequência da presença da empresa, foi construído o Hospital Siderúrgica para assistir os seus funcionários. Posteriormente veio a instalação da Companhia de Aços Especiais Itabira (Acesita) na região, em 1944. Tudo isso também culminou na emancipação do município.
Primeira paróquia
Em 15 de agosto de 1948, o Curato de São Sebastião é elevado à categoria de Paróquia, primeira instituição religiosa do Vale do Aço, data também da chegada dos primeiros missionários redentoristas, padres André Van Der Arendt e José Gonçalves da Costa. Esta mesma congregação foi, a partir de 1968, responsável pelo primeiro sistema de transmissão radiofônica do Vale do Aço, a Rádio Educadora.
Desde sua instalação, a paróquia passou a ser conduzida pela Congregação dos Missionários Redentoristas, responsáveis não apenas pela evangelização, mas também por ações sociais, educacionais e culturais que ajudaram a estruturar a região.
A Conexão Redentorista aqui no Vale do Arce fez um vínculo muito bonito com a sociedade, com a cultura, e criou esse elo que nos ajuda realmente a vivenciar essa presença de São Sebastião e fazer com que a área social, educacional e da comunicação fosse algo específico abraçado pela igreja”, detalha o padre José Cláudio, pároco da paróquia São Sebastião.
A paróquia integra hoje a Diocese de Itabira-Fabriciano, estando situada na Região Pastoral III.
Religião e emancipação
O processo de emancipação de Coronel Fabriciano também teve participação decisiva da Igreja.Ela [Paróquia São Sebastião], apesar de ter sido instalada em 15 de agosto de 1948, meses antes da emancipação, o padre Deolindo Coelho, responsável pela criação da Paróquia, também já previa que a cidade ia emancipar, então ele mesmo procurou conjugar as coisas todas. E da mesma forma também, o padre Deolindo fez parte da comissão que lutou para separar o Coronel Fabriciano do município de Antônio Dias. Logicamente, o padre foi a pessoa que teve mais peso nesse processo, porque tinha uma oratória impecável. Então ele era uma pessoa que trabalhava muito no sentido de persuadir as pessoas nas suas pregações, nas suas falas, ele era muito contundente em tudo que ele expunha. Era muito difícil alguém contrapor o padre, porque ele era considerado um homem muito culto para a época”, revela o historiador fabricianense.
Coube ao religioso viajar de trem até Belo Horizonte para apresentar aos deputados as comprovações de que o distrito possuía o número mínimo de habitantes exigido por lei. Por sugestão do então deputado estadual Tancredo Neves, os registros de batismos da igreja foram incorporados à contagem populacional, evidenciando a relevância da instituição religiosa na vida civil da época. Ele conseguiu convencer os deputados que ainda estavam arredios”, relembrou Amir.
Memória
Poucos dias após a emancipação, em 10 de janeiro de 1949, a antiga Igreja de São Sebastião desabou em decorrência de uma forte chuva. Apesar do episódio, a imagem do padroeiro foi resgatada intacta por Rotildino Avelino, que havia doado a escultura original em 1929.A imagem permaneceu preservada pela família, e uma segunda escultura foi posteriormente doada para a nova igreja. Em agosto de 1949, foi inaugurada a atual Igreja Matriz de São Sebastião, consolidando novamente o templo como símbolo de resistência, fé e continuidade histórica.
A Igreja Matriz aqui em São Sebastião sempre ocupou um lugar primordial. A cidade cresceu, a matriz foi construída de uma forma menor, mas carrega um grande sentimento. A nossa matriz é um símbolo que faz parte do nosso patrimônio cultural, histórico e todos que vêm e chegam aqui na cidade sentem-se acolhidos. A Matriz de São Sebastião fez com que essa devoção religiosa ajudasse a criar também a alma de um povo que acolhe, que vive na alegria, que procura viver uma ética voltada para a alegria do amor do nosso Deus”, considera padre José Cláudio.
No local onde funcionava a antiga igreja, foi construído o Salão Paroquial, inaugurado em 26 de setembro de 1959. O espaço se tornou palco de atividades religiosas, culturais e eventos comunitários.
Em frente à Matriz e ao lado do Salão Paroquial, foi erguida a Casa Paroquial, residência dos Missionários Redentoristas, inaugurada em 1966 pelo então vigário padre Quintiliano Borges. O imóvel também abrigou a sede da Rádio Educadora até 1996, primeira emissora de rádio da região.
Ao longo de sua história, Coronel Fabriciano cresceu mantendo uma ligação direta com suas origens religiosas, e a celebração do Dia de São Sebastião e o aniversário da cidade na mesma data não se resume em uma mera coincidência.
Essa festa convida a estarmos vivenciando um ponto muito simbólico, na certeza que a mão de Deus conduz cada um de nós, o nosso pensamento e a nossa cidade e que São Sebastião e esse simbolismo forte que nos chama sempre a atenção, que não adianta estar celebrando e festejando sem ter uma razão mais profunda, uma razão mais qualitativa do que sentir a presença amorosa do nosso Deus de modo especial aqui, em Fabriciano, através de São Sebastião”, finaliza o pároco.
Museu histórico ajuda a contar a história da cidade
O Museu Municipal José Avelino Barbosa foi criado pela Lei nº 1799/84 e conta com mais de 200 peças, cerca de duas mil fotos e um arquivo textual que conta a história da região. Muitos objetos que se encontram no museu foram doados por moradores, dentre eles os familiares de José Avelino Barbosa. O museu está temporariamente fechado e passa por reforma.É um trabalho que nós fazemos no sentido de resgatar e preservar a nossa história, mas ao mesmo tempo recuperar um outro lado da história, porque até certo momento a história de Coronel Fabriciano é muito lembrada das pessoas que a gente chamaria de elite, e você pode observar no nome das ruas da cidade, são nomes mais elitizados, como é comum em muitos lugares. É muito interessante a gente fazer essas observações, porque às vezes colocam homenagem de nome de rua de pessoas que nem tanta relevância e nem tanto fizeram pela cidade ou às vezes nem nada fizeram pela cidade, mas que estão sendo lembrados. A gente precisa resgatar a história de um outro lado, o mais popular, o do trabalhador, o lado das pessoas que realmente puseram a mão na massa e construíram a cidade e que são esquecidas”, conclui o historiador Amir.
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