16 de janeiro, de 2026 | 06:00
A cultura do Chorinho: entre a cortesia e a distorção do paladar
*Abner Benevenuto Araújo Paixão
Nos bares, botecos e casas de show, existe um ritual quase folclórico: o cliente olha o cardápio, analisa o preço, inclina o corpo para a frente e solta o pedido - faz um chorinho aí”. A frase, repetida há décadas, passa de mesa em mesa como uma senha tácita, sustentada pela crença de que o cliente sempre tem razão ou, ao menos, sempre tem direito a um pouco mais. Há quem conceda pelo hábito, há quem se curve pela pressão sutil, e há quem, mesmo contrariado, mantenha o sorriso profissional. É um gesto pequeno, mas não inofensivo: ele revela mais sobre nossas relações com o consumo do que parece.Quando falamos em hospitalidade, é impossível ignorar esse tipo de negociação invisível entre quem serve e quem bebe. A expectativa do chorinho” não é apenas sobre álcool - é sobre validação. Sobre a sensação de vantagem.
Sobre a ideia de que receber mais, mesmo que sem necessidade, representa algum tipo de vitória simbólica. No entanto, enquanto a coquetelaria evolui para propor bebidas mais equilibradas, técnicas mais precisas e experiências mais cuidadas, esse pedido permanece preso a outra lógica: a do excesso como demonstração de valor.
Mas o excesso não entrega experiência. Na verdade, faz o oposto. Nos últimos anos, o mundo da coquetelaria tem trabalhado com destilados mais equilibrados, diluições mais controladas e percepções sensoriais mais claras. Um drink não se sustenta pela quantidade de álcool, mas pela construção do copo. Acrescentar mais destilado sem critério não transforma o sabor apenas o distorce. É álcool gritando onde deveria haver diálogo. E, muitas vezes, esse grito não melhora nada: só mascara a intenção original da receita.
Há pessoas que buscam intensidade, e há drinks pensados justamente para isso Negroni, Manhattan, Boulevardier, Old Fashioned, todos estruturados para carregar presença alcoólica sem romper o equilíbrio. Mas pedir um Moscow Mule mais forte”, por exemplo, é quase sempre um contrassenso. A espuma ácida, o gengibre, o doce, o cítrico: tudo isso anula a percepção direta do álcool. A experiência não está no teor, mas na forma como os elementos se encontram. Quando a percepção não importa, a bebida perde o sentido e o copo vira apenas um veículo para o álcool, sem narrativa, sem intenção.
É nesse ponto que vale recordar a frase de Kafka, registrada em uma de suas cartas a Oskar Pollak: Um livro deve ser o machado que quebra o mar de gelo dentro de nós.” Não se trata de dramatizar o copo, mas de entender a associação: a percepção é esse machado. Quando ela se perde, nada mais se rompe, nada mais se revela. Tudo vira uma superfície lisa, indiferente. E, como Kafka lembraria, há pontos em que não existe retorno possível.
Na arte de servir - e de beber - esse ponto é justamente o da percepção: quando ela desaparece, tudo desaparece junto. A dose não conta nada. O copo conta tudo.
Assim como numa sala onde cada aluno ocupa a sua cadeira, também no copo cada elemento tem seu lugar. Álcool, diluição, aroma, textura - nenhum existe para substituir o outro, e sim para funcionar em conjunto. Quando um deles tenta ocupar o assento que não lhe pertence, a experiência se desorganiza. É nesse arranjo silencioso que o drink se explica. E, ainda que o cliente nem sempre perceba, o copo sabe quando algo está fora de lugar.
E talvez a reflexão esteja justamente aí. Não é sobre defender ou criticar o chorinho”, mas sobre notar o que ele diz sobre nós. Há comportamentos que repetimos sem pensar, como se o mundo fosse obrigado a caber na nossa preferência imediata. Mas a coquetelaria - como quase tudo que envolve percepção - funciona melhor quando escolhemos observar. Quando paramos de exigir que o álcool nos prove algo e começamos a escutar o que realmente está no copo. O excesso não acrescenta história. A atenção, sim.
Assim, no fim das contas, a discussão não é sobre generosidade ou rigidez, mas sobre o espaço que cada coisa ocupa. A percepção é o que organiza esse espaço. Quando ela se mantém presente, o drink ganha clareza. Quando desaparece, o ritual perde sentido. A experiência não está na dose a mais, mas no que conseguimos enxergar enquanto bebemos.
* Bartender da região do Vale do Aço, com experiência em bares e eventos.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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