13 de janeiro, de 2026 | 15:08
Lembranças, Sonhos e Quase Mentiras...
*Nena de Castro
As manhãs eram douradas, e as tardes, azuis... O perfume dos pés de rosa branca, beijos, malvas e trepadeiras, adocicava o ar. Trinados e ruídos de rolinhas, juritis, bem-te-vis, sabiás, canários, melros e dezenas de outros pássaros coloridos enfeitavam os dias. As noites chegavam lentamente, sem apressar os últimos raios de sol que se despediam, preparando-se para outra jornada, lá beem longe, do outro lado da Terra, diziam os mais velhos. Canteiros de margaridas miúdas enfeitavam o jardim que ficava ao lado da casa e os tinhorões de toda cor exibiam as folhas maravilhentas”. Da rua, à esquerda da casa, acessava-se o jardim por um portãozinho de madeira amarrado com imbira; a cerca dos fundos impedia o ataque das galinhas e demais animais daquele quintal maior que o mundo”, logo depois da cozinha. Do terreiro vinha o aroma do doce de figo preparado no tacho de cobre no fogãozinho redondo, à lenha. Os bodes de Brás berravam, atrelados à carrocinha com a qual buscava lenha e esterco para a mãe. Tonho cego, filho de seu Damazim e dona Figena, balançava o corpo na rede e cantava.O corgo que passava depois do quintal, vinha da esquerda, murmurando doces cantigas e carregando coisas que lhe atiraram ao dorso, pedaços de madeira, uma coberta velha, algumas plantas. Estava calmo e dava água para os animais, para as lavadeiras, para as mulheres lavar vasilhas e conversar. Nem ligava para a molecada que lhe atirava pedras, sabia esperar o tempo das chuvas, quando seu dorso engrossaria com a força das águas e do vento e ele se tornaria um leão furioso, invadiria casas e ruas da baixada, levando destruição e às vezes, a morte. A uns 50 metros da pequena igreja na rua de cima, havia uma enorme gameleira e sob sua sombra uma fonte formada pela água que vinha do morro, de onde todos se serviam, buscando água fresca e limpa para cozinhar e encher as bilhas, as talhas, os potes de barro... Virando à esquerda, depois do campinho de futebol, andava-se um quilometro depois dos pés de lobrobô e alcançava-se a casa da viúva Donana Sinfrônia onde havia uma pequena lagoa com suas águas transparentes, deixando ver o fundo de tabatinga, ou seja, barro branco, usado para caiar os fogões à lenha e até as cozinhas.
Havia uma menina que amava as manhãs de sol, quando a mãe lhe permitia brincar fora de casa, tinha bronquite asmática e se tomasse friagem”, inchava os pés e chiava” a noite toda. Mato, matas, águas, gado nos pastos, fazendas, as casas do arraial, a igreja, as rezas, as benzeções, o milharal como uma onda verde bailando ao vento, as mangueiras e laranjeiras, o pé de limão... Os cantos do mês de maio, os festejos de S. João, leilões, o arroz plantado em latinhas para enfeitar o presépio de Natal, canções ao som de sanfonas e violões...
O medo ficava longe, a mula-sem-cabeça e o saci obedeciam à nossa mãe e corriam pra longe; a gente fazia a oração para o anjo da guarda e dormia feliz. As estrelas brilhavam intensamente no céu e tudo era tão lindo. Isso existiu, ou é um sonho ou conversa de cronista contadora de Histórias? Sei não. Era um mundo tão bonito, apesar das dificuldades do interior, que hoje, assentada sobre um barril de pólvora e bombas nucleares, quase acho que inventei tudo! O que acham os meus amados cinco leitores? Somente sonhos de uma velhinha/menina que gosta de brincar com as letras? Eita ferro! Nada mais ouso dizer!
*Escritora e Encantadora de Histórias.
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