11 de janeiro, de 2026 | 06:00
A escrita como lugar
Céu Pequeno”, novo romance de Paulo da Rocha Dias, reinscreve o interior mineiro em uma cartografia simbólica onde memória, exílio e linguagem se confundem
Jakson Goulart (*)O escritor mineiro Paulo da Rocha Dias, nascido em Engenheiro Caldas e criado entre Alto Rio Doce e Caratinga, com passagem marcante pelo Vale do Aço, acaba de publicar Céu Pequeno”, seu oitavo livro. A nova obra de ficção chega ao público em um momento de intensa produção intelectual. Paralelamente, o autor também coloca no mercado Os primeiros tratados sobre o Jornalismo - A contribuição dos pesquisadores alemães do século XVII”, volume de traduções diretas do alemão dedicado ao jornalismo, campo no qual construiu trajetória consistente como pesquisador, professor e tradutor.
Arquivo pessoal/PRD
A nova obra de ficção chega em momento de intensa produção intelectual do mineiro Paulo da Rocha Dias
Se o dado editorial situa o leitor no presente, o romance se desloca para outro regime de tempo e espaço. Céu Pequeno” não se organiza como narrativa linear nem como memorial ordenado. Desde as primeiras páginas, instaura-se uma atmosfera em que o céu parece descer até os telhados, cabe inteiro na janela, inclina-se sobre o cotidiano. Nada se anuncia como prodígio. O extraordinário se apresenta como hábito. O insólito não irrompe: infiltra-se.
A nova obra de ficção chega em momento de intensa produção intelectual do mineiro Paulo da Rocha DiasEssa redução aparente do mundo - o céu que se faz pequeno - não empobrece a experiência. Ao contrário, concentra-a. O romance se constrói por contenção e densidade, como se cada lembrança precisasse ser reescrita para continuar existindo. A memória, aqui, não é arquivo. É travessia. O tempo não avança em linha reta: retorna, hesita, se dobra.
Palavra escrita
O lugarejo que dá nome ao livro não se fixa em um ponto do mapa. Céu Pequeno pode ser Santa Bárbara do Tarumirim, Engenheiro Caldas, Caratinga ou qualquer cidade interiorana de Minas em que o mundo parece caber entre poucas ruas e muitas histórias. Em oposição, surge Peixe Seco, metrópole alegórica, espaço do deslocamento, do estranhamento e do exercício do ofício. Entre um ponto e outro, forma-se uma cartografia simbólica em que pertencer e partir não se anulam, mas se tensionam.
É nesse território instável que a narrativa acompanha José Geraldo Africano, personagem que decide deixar a casa materna para ganhar o mundo. A partida ocorre contra a vontade da mãe e contra a lógica da permanência que estrutura a vida comunitária. O deslocamento, contudo, não se converte em ascensão linear. Ao contrário, produz fraturas, perdas e a percepção de que o retorno pleno é inviável. Diante disso, Africano escolhe ditar sua história.
Essa escrita, compartilhada com Zé Tatão - figura que atua como escriba, mediador e comentador - converte-se no eixo do romance. A palavra escrita passa a reorganizar o vivido, rebatizar lugares, torcer destinos. A memória deixa de ser simples lembrança e se transforma em matéria narrativa. A escrita assume função de embarcação: não conduz à chegada definitiva, mas permite atravessar.
Sentidos simbólicos
A estrutura do novo livro de Paulo da Rocha Dias se organiza em três movimentos - Infância, Fuga e Exílio - que recompõem a história afetiva de Céu Pequeno e de seus habitantes. O percurso é atravessado pela presença de Beatriz, musa que conduz a memória narrada e aproxima o romance do dolce stil novo”, tradição literária que entendia o amor como força capaz de elevar a experiência humana. Em Céu Pequeno”, essa herança é deslocada para um registro popular e cotidiano, sem idealização, mas carregado de sentido simbólico.
Africano ocupa o lugar do sujeito da memória e do desterro, suspenso entre pertencimento e exílio. Vive o banzo” do retorno impossível, a nostalgia que não se resolve. Zé Tatão sustenta a dimensão erudito-popular do texto, introduz comentários, referências e desvios que confundem deliberadamente as fronteiras entre autor fictício e escriba. O romance assume, assim, caráter metalinguístico, configurando-se como escrita de memórias a quatro mãos.
Picaresco e mítico
O universo de Céu Pequeno é povoado por personagens que oscilam entre o picaresco e o mítico: Macrino, Dona Maria, Carolina, João Ferreira, Tião Arvilino, Antõe Araújo, Professora Marlene, entre outros. São figuras que reinventam lendas locais, atravessam pequenos épicos do cotidiano e compõem um retrato coletivo da comunidade. Curandeiros, professores, tipógrafos, beatas, santos e lobisomens circulam por uma narrativa em que o realismo fantástico se manifesta de forma contida, quase doméstica.
A intertextualidade atravessa todo o romance do professor Paulo da Rocha. Referências à história da imprensa, à política brasileira, à Bíblia, à poesia e à música popular compõem uma topografia simbólica marcada por pertencimento, exílio e ofício. O léxico inventivo, permeado por hibridismos e jogos linguísticos, reforça a oralidade do texto e sua filiação a uma tradição barroca de fabulação.
Nesse movimento, Céu Pequeno” articula memória individual e memória coletiva, configurando um romance de formação às avessas. Não é a chegada que forma o sujeito, mas o exílio. A incorporação de figuras históricas e da imprensa brasileira ao espaço ficcional transforma o livro também em romance de ideias, em diálogo direto com os campos de pesquisa do autor.
Biblioteca literária
A narrativa dialoga com uma ampla biblioteca literária. O narrador Africano evoca o autoexame rigoroso de Graciliano Ramos, a arqueologia afetiva de Pedro Nava e os assombros comunitários de Juan Rulfo. Zé Tatão remete à autoconsciência narrativa machadiana. Beatriz estabelece uma ponte com Dante, em chave popular e deslocada. A comunidade de Céu Pequeno aproxima-se das aldeias míticas de Gabriel García Márquez e dos vilarejos armoriais de Ariano Suassuna, com tempo espiralado, hipérbole picaresca e milagres cotidianos.
Diferentemente do realismo fantástico explosivo de García Márquez, o insólito em Céu Pequeno” se manifesta de forma sussurrada e íntima. O impossível não invade o mundo. Insinua-se como dobra da experiência cotidiana, quase sempre sem romper a superfície do real.
O resultado é uma fabulação de alta densidade verbal, em que a oralidade popular convive com rigor intelectual e repertório erudito. Cada personagem parece emergir do próprio chão, e cada nome funciona como elemento estrutural da narrativa. Céu Pequeno” se afirma, assim, como romance de memórias e ideias, centrado nas tensões entre partir e pertencer, no trabalho do tempo e no ofício da palavra.
Sobre o autor
Paulo da Rocha Dias atravessou cidades, países e continentes, fazendo do deslocamento um método de escuta e da permanência provisória uma forma de compreender o mundo. Nascido em Engenheiro Caldas, em 3 de junho de 1960, aprendeu cedo a observar o cotidiano miúdo, aquele que, como escreve em seu novo livro, não cabe nos mapas grandes, mas sustenta o mundo”.
A infância no interior mineiro foi o primeiro exercício de atenção ao detalhe, ao gesto simples, à palavra dita sem pressa. Depois vieram Caratinga, Florianópolis (SC), Estados Unidos, Filipinas, Irlanda, México, São Paulo, Santana do Paraíso - com um breve período na China - e Cuiabá (MT), nessa ordem. Cada cidade, uma língua; cada país, uma escuta; cada tempo, um aprendizado.
Padre por vocação, jornalista por ofício e escritor por necessidade interior, Paulo da Rocha nunca separou a missão evangelizadora da tarefa de narrar o cotidiano. Sua formação acadêmica acompanha essa amplitude. Passou pelo seminário em Caratinga, estudou Letras em Florianópolis, aprofundou-se em Teologia, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero (SP), construiu mestrado e doutorado em Comunicação Social na UMESP, estudou Linguística em Chicago (EUA).
No exercício profissional, atuou como repórter, colunista e colaborador em diversos veículos, de O Estado, de Florianópolis, ao Diário do Aço e à Rádio Itatiaia, passando por outros jornais impressos e portais digitais. Sempre com a marca de quem prefere a crônica reflexiva ao comentário apressado, a observação sensível ao juízo ruidoso.
Aos 65 anos de idade, sua trajetória não se organiza como currículo, mas como narrativa. Céu Pequeno” sintetiza esse caminho: um livro de memórias sutis, onde o mundo cabe em cenas breves e a viagem é menos geográfica do que humana. Paulo da Rocha segue viajante, com a mesma disposição de quem acredita que contar histórias é, no fundo, uma forma de permanecer.
(*) Jornalista, ex-aluno de Paulo da Rocha Dias.
Livros publicados pelo autor
- Comunicação, cultura, mediações - O percurso intelectual de Jesús Martin-Barbero;
- O amigo do rei: Carlos Rizzini, Assis Chateaubriand e os Diários Associados (2004);
- Um chapéu, um cavalo branco e uma lanterna;
- Gênese do ensino de jornalismo no Brasil: influências norte-americanas - 1908/1958 (2018);
- O obituário no jornalismo (2020);
- Jornalismo e notícias falsas: relações cordiais (2022);
- Os primeiros tratados sobre o jornalismo: a contribuição dos pesquisadores alemães do século XVII (2025);
- Céu Pequeno (2025).
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