10 de janeiro, de 2026 | 07:00

Efeitos colaterais do excesso de tempo nas telas: zumbis digita

Miguel dos Santos *

Enquanto adultos brasileiros se envolvem em discussões triviais nas redes sociais, crianças, adolescentes e jovens passam horas reproduzindo coreografias e tendências digitais em busca de curtidas e visibilidade, tentando imitar a influenciadora do momento. Nesse cenário, uma transformação silenciosa está em curso, ainda pouco percebida por parte da sociedade. Trata-se de uma disputa desigual pela formação intelectual e emocional das novas gerações.

Em países como a China, políticas públicas e culturais priorizam o uso controlado da tecnologia, com foco em educação, disciplina e desenvolvimento cognitivo desde a infância. Crianças passam parte significativa do tempo aprendendo matemática, música, ciência e programação. No Brasil, em contraste, grande parcela dos jovens é exposta precocemente a conteúdos rasos, repetitivos e altamente viciantes, cujo principal objetivo é manter a atenção capturada pelo maior tempo possível. Enquanto um chinês estuda, um, brasileiro dança ou joga online.

“Que tipo de futuro está sendo construído quando
uma geração cresce orientada pela validação
instantânea e pela lógica da viralização?”


Essa diferença de abordagem levanta uma questão inevitável: que tipo de futuro está sendo construído quando uma geração cresce orientada pela validação instantânea e pela lógica da viralização? O consumo excessivo de conteúdos de entretenimento rápido não é fruto do acaso, mas de um modelo conhecido como “engenharia da atenção”, projetado para estimular descargas constantes de dopamina e dificultar o foco em atividades que exigem esforço prolongado.

Desde cedo, o excesso de tempo em aplicativos cria um padrão de comportamento marcado pela comparação contínua, pela procrastinação e pela sensação permanente de inadequação. Em vez de produzir, refletir ou aprofundar conhecimentos, muitos jovens passam a apenas consumir conteúdos, rolando o feed de forma quase automática. O custo desse hábito é elevado: perda de concentração, cansaço mental e redução da capacidade de planejamento de longo prazo.

Os reflexos já são perceptíveis entre os jovens brasileiros, especialmente da chamada geração Z, formada por pessoas nascidas entre 1997 e 2010. Relatos frequentes indicam apatia, tristeza constante, falta de energia e desinteresse por atividades físicas, estudos estruturados e projetos pessoais. Em muitos casos, não se trata apenas de cansaço, mas de um comprometimento real das funções cognitivas.

“O debate sobre uso consciente da tecnologia
deixou de ser uma opção e tornou-se uma necessidade urgente”


A ciência tem denominado esse fenômeno de brain rot, termo eleito palavra do ano de 2024 pelo dicionário Oxford. A expressão descreve a deterioração do estado mental e intelectual causada pela superexposição a conteúdos digitais superficiais, repetitivos e altamente estimulantes. Pesquisas indicam que estudantes que passam mais de três horas diárias em redes sociais apresentam redução significativa da capacidade de foco em atividades acadêmicas.

Outro efeito observado é a diminuição da capacidade crítica e inovadora. O consumo predominante de memes e vídeos curtos compromete a habilidade de questionar, aprofundar ideias e desenvolver raciocínios complexos. Soma-se a isso a desintegração da criatividade: muitos jovens relatam bloqueio criativo e dificuldade de ter ideias próprias, resultado da incapacidade de se desconectar da poluição digital.

Esse quadro também impacta diretamente a saúde mental. Estudos associam o uso excessivo de telas ao aumento de ansiedade, depressão, distúrbios do sono e casos de cyberbullying. Estimativas apontam que cerca de 20% dos adolescentes relatam algum tipo de problema relacionado à saúde mental, um dado que deveria mobilizar famílias, educadores, gestores públicos e o setor produtivo.

As consequências não se limitam ao campo individual. Trata-se de um problema estrutural, com efeitos diretos sobre o futuro do mercado de trabalho, da administração pública e da própria economia. Uma geração com baixa capacidade de concentração, disciplina e planejamento terá dificuldades para ocupar funções estratégicas, inovar e sustentar o crescimento econômico.

Ignorar esse processo é aceitar passivamente a formação de uma sociedade cada vez mais distraída, improdutiva e dependente de estímulos imediatos. O debate sobre limites, educação digital e uso consciente da tecnologia deixou de ser uma opção e tornou-se uma necessidade urgente.

* Economista.

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