09 de janeiro, de 2026 | 06:00
Verdades que você não lê por aí sobre a Venezuela
Carlos Alberto Costa *
A Venezuela foi, durante décadas, uma colônia petroleira dos Estados Unidos. É a essa condição que os estadunidenses, movidos por uma demanda incessante por energia, desejam que o país retorne. Até o início dos anos 1990, três empresas estadunidenses controlavam a maior parte da produção de petróleo venezuelana. A riqueza gerada permanecia concentrada nas mãos dessas corporações e do topo da pirâmide social local, sem retorno efetivo para a população. Era um país de poucos ricos e muitos pobres.Esse cenário começou a mudar com a chegada de Hugo Chávez à presidência. É importante destacar que o tenente-coronel Hugo Chaves chegou ao poder na Venezuela por meio de eleições democráticas em 1998, após um longo processo de instabilidade política e social no país. Ele até tentou tomar o poder em uma intervenção militar, mas fracassou, foi preso, tornou-se popular depois de solto, foi escolhido pelo povo.
A crise venezuelana não decorre de falta
de democracia ou de honestidade administrativa,
mas de um cerco econômico deliberado”
Seu governo fortaleceu a PDVSA, empresa estatal de petróleo, estruturou uma rede nacional de produção e passou a cobrar royalties das companhias estrangeiras. As empresas estadunidenses não concordaram e acabaram sendo convidadas” a deixar a Venezuela. As receitas do petróleo passaram a financiar políticas públicas e investimentos sociais. A partir daí, teve início a reação dos Estados Unidos.
Os resultados dessas políticas foram expressivos. Milhões de pessoas deixaram a extrema pobreza, o acesso à alimentação melhorou e cerca de cinco milhões de moradias populares foram construídas. O país ampliou a educação pública integral, com oferta de alimentação e atendimento médico. Em 2005, a Unesco declarou a Venezuela livre do analfabetismo. A renda do petróleo foi direcionada à construção de pontes, ferrovias, hidrelétricas e até satélites, convertendo recursos naturais em infraestrutura e soberania.
Em 2014, contudo, Estados Unidos e União Europeia passaram a impor um conjunto de cerca de 900 sanções econômicas, além de confiscar reservas venezuelanas mantidas em dólares. O objetivo era sufocar a economia. A população enfrentou inflação elevada, desabastecimento e dificuldades prolongadas. Medicamentos essenciais, como insulina e remédios contra o câncer, chegaram a ser bloqueados.
Apesar disso, o governo de Nicolás Maduro buscou alternativas, ampliando parcerias com Rússia, China e outros países. No período pós-pandemia, a inflação recuou e o câmbio se estabilizou. Em 2024, o PIB venezuelano cresceu 6,5%, e, entre 2022 e 2024, cerca de três milhões de pessoas saíram da fome. Mesmo sem poder vender petróleo livremente por quase uma década, o país dava sinais de recuperação.
Essa retomada, porém, foi considerada intolerável pelos Estados Unidos. Na lógica do imperialismo, países que escolhem caminhos fora da subserviência não podem prosperar, sob pena de se tornarem exemplos de soberania e dignidade. O crime” da Venezuela, assim como de outros países da América Latina, foi tentar ser soberana.
Diante desse quadro, surgem questionamentos recorrentes: se a Venezuela é democrática, por que parte da população passou fome e deixou o país? E por que há venezuelanos que apoiam iniciativas golpistas associadas ao governo de Donald Trump? A resposta, nem sempre apresentada pela mídia hegemônica, está na guerra econômica.
Na lógica do imperialismo, países que escolhem
caminhos fora da subserviência não podem prosperar,
sob pena de se tornarem exemplos”
A crise venezuelana não decorre de falta de democracia ou de honestidade administrativa, mas de um cerco econômico deliberado. A decisão de comercializar petróleo com Rússia, China e outras potências foi vista como inaceitável por Washington. Internamente, setores da burguesia sabotaram a produção e a distribuição de alimentos e medicamentos, escondendo produtos e criando desabastecimento artificial. A estratégia era clara: provocar fome e revolta popular para derrubar o governo.
Paralelamente, houve um ataque midiático sistemático. Veículos de comunicação no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos passaram a retratar Hugo Chávez e, depois, Nicolás Maduro como ditadores corruptos, omitindo os efeitos dos embargos, a sabotagem econômica e os avanços sociais obtidos. Trata-se de uma guerra de narrativas destinada a legitimar intervenções, como a ofensiva registrada em 2026.
O elemento mais cruel desse processo foram os embargos econômicos impostos a partir de 2014. Ao cortar o acesso da Venezuela ao sistema financeiro internacional, os Estados Unidos impediram o país de comprar medicamentos, peças para a indústria petrolífera e até alimentos. Não se trata apenas de restringir vendas, mas de bloquear a capacidade de sobrevivência de toda uma economia.
É nesse contexto que se explica a miséria e a imigração. Não se trata de um governo ruim”, mas de um governo atacado por todos os lados por ter optado por políticas voltadas ao povo. O apoio interno a tentativas de golpe resulta da combinação entre desinformação midiática e a ação de uma elite que perdeu privilégios e tenta restaurar o passado, prometendo soluções para uma crise que ajudou a criar.
A miséria e o êxodo tornam-se, assim, armas de guerra. Servem para desestabilizar um país que ousou distribuir riqueza e afirmar sua soberania. Como escreveu Eduardo Galeano, todas as vezes que os Estados Unidos tentaram salvar” uma nação, acabaram por transformá-la em um hospício ou em um cemitério.
* Professor aposentado
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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