08 de janeiro, de 2026 | 06:00
O trem noturno do vale: memória, concessão e os limites da experiência atual
João Costa Aguiar Filho *
Viajar de trem pelo Vale do Rio Doce sempre foi mais do que um simples deslocamento. Para quem viveu os anos em que a ferrovia era parte viva do cotidiano, o trem representava liberdade, expectativa, encontro e integração regional. Minha recente experiência de viajar no Trem Noturno da Vale, que volta a circular em períodos específicos como as férias, reacende lembranças profundas - mas também impõe uma reflexão crítica sobre o presente e o papel que esse serviço pode (e deve) cumprir.Uma memória dos anos 1970: quando o trem era caminho
Guardo com nitidez as lembranças da minha juventude na segunda metade dos anos de 1970, quando eu embarcava no trem noturno que passava pela então Estação de Coronel Fabriciano, hoje inexistente, por volta das 23 horas, com destino a Belo Horizonte. Naquela época existiam regularmente dois trens diários, e seus nomes eram sugestivos, Rápido e Expresso.
As minhas viagens tinham objetivo simples, mas carregados de emoção: por um lado, cumprir alguns compromissos pessoais e familiares, mas também, passear pelas alterosas, visitar o parque municipal, conhecer edifícios imponentes, monumentos e locais históricos importantes e assistir aos jogos do Cruzeiro no Mineirão.
Guardo com nitidez as lembranças da minha juventude,
quando embarcava no trem noturno na Estação de Coronel Fabriciano”
Naquele tempo, eu trabalhava na Farmácia Nossa Senhora Aparecida, em Coronel Fabriciano. Geralmente aos sábados, o expediente era longo, até às 21 horas, e eu saía literalmente correndo para não perder o trem, mas tranquilo, porque o horário era adequado, a estação era próxima e o trem cumpria uma função essencial de conexão entre o Vale do Aço e a capital.
O Trem Noturno hoje: concessão cumprida, mas insuficiente
Décadas depois, a Vale retorna com o Trem Noturno - não mais como rotina, mas como experiência eventual, viabilizada porque o Termo de Concessão da Estrada de Ferro Vitória a Minas estabelece a obrigação de oferta do transporte ferroviário de passageiros, inclusive com serviços especiais, como o Trem Noturno em períodos de maior demanda, entre eles as férias. Resolvi pegar esse trem”, para avivar a memória de outros tempos, mas também para avaliar os possíveis progressos que esse serviço pode proporcionar à população usuária.
Do ponto de vista formal e contratual, a concessão é cumprida: o trem existe, circula e transporta passageiros, confortável, seguro, limpo, mas é preciso ter mais. O Trem Noturno não pode ser um serviço eventual; precisa se consolidar como opção regular e efetiva para os usuários do transporte de passageiros do interior de Minas Gerais com destino à capital.
Ressalte-se que o valor da passagem, por si só, já é um predicado extremamente relevante, uma vez que corresponde a cerca da metade do custo do transporte rodoviário por ônibus, o que amplia significativamente seu potencial social.
O trajeto efetivo: quem fica de fora da ferrovia -O Trem Noturno parte da Grande Vitória, na Estação Pedro Nolasco em Cariacica às 18h00. Após deixar a região metropolitana da capital capixaba, uma das paradas é Governador Valadares e, depois, apenas em Ipatinga, às 2h00, seguindo então diretamente para Nova Era, onde ocorre a baldeação para Itabira e a continuidade da viagem até Belo Horizonte.
Esse arranjo operacional explicita um problema central: nenhuma das demais cidades da Região Metropolitana do Vale do Aço pode se servir do Trem Noturno.
Ficam excluídos municípios historicamente ligados à ferrovia, como Naque, Belo Oriente, Coronel Fabriciano, Timóteo e Antônio Dias.
Dificuldades de acesso e custos adicionais - Para quem mora em variadas cidades do Vale, como Santana do Paraíso, Ipaba, Jaguaraçu, Marliéria, Pingo DÁgua, entre outras, e precisa se deslocar até Belo Horizonte para trabalhar, resolver afazeres ou mesmo viajar nas férias, o uso do Trem Noturno torna-se inviável.
Não há horários de ônibus urbanos que cheguem a Estação Ferroviária de Ipatinga próximos das 2 horas da madrugada, nem mesmo partindo de Coronel Fabriciano, Santana do Paraíso ou Timóteo.
No meu caso específico, como moro em Marliéria, a alternativa encontrada foi ir de carro até Timóteo e, de lá, utilizar um táxi, no valor de R$ 120. Esse custo adicional, somado ao horário extremamente desfavorável, descaracteriza o trem como alternativa econômica, acessível e socialmente justa.
O Trem Noturno não pode ser um serviço eventual;
precisa se consolidar como opção regular”
O inusitado da experiência: dificuldade de compra e vagões vazios
A viagem revelou ainda um aspecto inusitado e contraditório. Apesar da grande dificuldade para adquirir passagens, os trens circulam praticamente vazios. Foi o que ocorreu na viagem de Ipatinga para Belo Horizonte, no dia 04 de janeiro de 2026. Consegui comprar a passagem no mês de novembro de 2025, no dia 20, quando foram liberadas as aquisições.
Esperando que não haja intencionalidade subjetiva demonstrada pela dificuldade de compra versus baixa ocupação real, para supostamente demonstrar inviabilidade do projeto do Trem Noturno, acreditamos que a empresa consiga justificar esse fato, e o mesmo decorra de problemas no sistema de vendas, na gestão da oferta ou na comunicação com os usuários, tratando-se de situações que podem perfeita e rapidamente ser solucionadas.
Tempo de viagem e gargalos operacionais - Outro ponto relevante é o tempo total da viagem. O trem tinha previsão de chegada às 7h50 em BH, mas chegou efetivamente às 8h58, após permanecer cerca de 1h20 parado na troca do sistema de comando, na transição operacional envolvendo a estação de Pedro Nolasco e Belo Horizonte. Além disto, se não há integração com os sistemas locais de transporte coletivo urbano na região do Vale do Aço, para que os usuários possam se deslocar com segurança e sem custos adicionais às estações ferroviárias, em BH a situação é bem pior. Não há no Trem Noturno e nem mesmo no trem diurno diário, articulação com a BHtrans (Empresa Pública Municipal de Transporte), para organizar e fiscalizar serviços de taxi e outras alternativas para a população que está chegando. Na viagem do dia 4 de Janeiro de 2026, chovia e não havia um taxi sequer aguardando na Estação Ferroviária de Belo Horizonte.
Memória, história e território - Como contraponto, merece registro a linda paisagem que o amanhecer revela na região montanhosa. Destaque-se também o cuidado do locutor de bordo, que mencionou e valorizou o caráter histórico da Mina de Gongo Soco, ao passarmos ao lado da mesma, considerada no século XIX a maior mina de ouro do mundo, misto de riqueza, cobiça, esbanjamento, arrogância, escravidão e miséria, que marcou parte significativa da sociedade mineira” da época.
Segurança ferroviária e responsabilidade pública - O trem é reconhecidamente o meio de transporte de passageiros mais seguro. Em um país marcado por rodovias longas e perigosas como é o caso da BR 381, ampliar a oferta do transporte ferroviário de passageiros não é apenas opção logística, mas uma escolha de proteção à vida.
Cumprir o Termo de Concessão é fundamental, mas não basta. O trem ainda carrega histórias, sonhos e memórias. A questão que se impõe é direta e necessária: queremos que ele seja apenas lembrança ou, novamente, caminho?
* Advogado. Diretor da Santa Casa de Belo Horizonte. Professor licenciado do Unileste. Membro da Coordenação da Rede Colaborativa do Rio Doce. Ex-membro do Conselho Deliberativo da Região Metropolitana do Vale do Aço, representando entidades da sociedade civil.
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