07 de janeiro, de 2026 | 07:00
Venezuela no centro do tabuleiro global: Geopolítica, petróleo e um mundo em transformação
Alexandre Magno *
Escrever sobre fatos históricos enquanto eles ainda estão em andamento é sempre difícil. Sem o distanciamento do tempo, só conseguimos falar sobre possibilidades. O que realmente é - ou será - ainda não pode ser afirmado com segurança. O futuro, especialmente em momentos de guerra, é coberto por incerteza. É isso que o estrategista Carl von Clausewitz chamou de Névoa da Guerra”.No caso da Venezuela, essa incerteza é ainda maior. Há uma frase conhecida que resume bem a situação: ali, até o passado é incerto. As dúvidas são muitas. Houve apoio interno ou traições que levaram à captura de Maduro? Isso envolve acordos para um governo de transição? Se Delcy Rodríguez, figura importante do antigo regime, continuar no poder, esse governo será legítimo? E o que ocorre com Edmundo González, que se declarou presidente eleito? Essas são apenas algumas das muitas perguntas que surgem diante do cenário atual.
Manter diálogo com diferentes lados pode
ser vantajoso em um mundo cada vez mais polarizado”
Escrevo, portanto, em meio às incertezas, tentando evitar previsões sobre um futuro que ainda não pode ser claramente visto. Mesmo assim, alguns pontos já merecem atenção.
O primeiro é que a ordem mundial criada após a Segunda Guerra parece ter chegado ao fim. Um de seus pilares era o respeito às fronteiras dos países. Fora casos de legítima defesa ou autorização da ONU, invasões militares não deveriam ocorrer. Esse sistema trouxe estabilidade por décadas e ajudou a organizar as relações entre os Estados.
Ao longo do tempo, essas regras foram sendo relativizadas. Quando a China viola normas comerciais ou direitos de propriedade intelectual, muitos tratam o problema com certa tolerância. Quando a Rússia invade a Ucrânia, o episódio costuma ser visto como um desvio ligado a um líder específico. O ponto mais grave, porém, é quando os próprios Estados Unidos - principal defensor dessa ordem - passam a ignorar as regras que ajudaram a criar. Isso indica que o modelo antigo deixou de funcionar.
Com o enfraquecimento dessa ordem, cresce a insegurança global. Os países passam a se proteger mais, os investimentos ficam mais cautelosos e o risco geopolítico aumenta. Os mercados financeiros já refletem isso: o ouro e a prata sobem com força, e ações do setor de defesa na Europa se valorizam.
Esse ambiente de instabilidade também ajuda a explicar a volta de discursos políticos extremos. O historiador Niall Ferguson faz um paralelo com os anos 1920, quando o mundo foi levado a escolher entre ideologias radicais. Segundo ele, hoje vemos extremos tanto à direita quanto à esquerda, oferecendo soluções simplistas para problemas complexos. A história mostra que esse caminho costuma levar a resultados trágicos.
Outro ponto importante é a mudança na postura dos Estados Unidos em relação à América Latina. Após anos de pouco envolvimento, Washington volta a olhar a região com mais atenção. Em um mundo cada vez mais dividido entre Estados Unidos e China, a disputa por áreas de influência retorna. Dentro dessa lógica, a América Latina tende a se tornar um espaço estratégico: ou se aproxima mais dos EUA, ou da China.
A Venezuela entra nesse contexto principalmente por causa do petróleo. Hoje, o país produz cerca de 1 milhão de barris por dia, bem menos do que no passado. Ainda assim, possui as maiores reservas de petróleo do mundo, maiores até que as da Arábia Saudita, embora o petróleo venezuelano seja mais pesado e difícil de extrair.
A possibilidade de empresas americanas voltarem a explorar esse petróleo animou o mercado. A Chevron, que manteve operações no país, teve forte alta em suas ações. Outras empresas do setor também podem se beneficiar. Mais do que lucro, o interesse dos EUA é estratégico: reduzir a venda de petróleo venezuelano barato para a China, que depende muito de energia acessível.
Embora a Venezuela, sozinha, não mova o mercado global, os efeitos políticos se espalham por toda a região. Os títulos venezuelanos sobem, e há expectativa de que países como Cuba possam ser os próximos a passar por mudanças. Para a Guiana, por exemplo, o cenário é positivo, já que diminui o risco de conflitos após ameaças vindas de Caracas.
A grande questão será saber se o país fará
as escolhas certas para aproveitar essa posição”
Para a esquerda latino-americana, o impacto é negativo. Por muitos anos, o regime venezuelano apoiou movimentos políticos na região. No Brasil, a postura tolerante do governo Lula em relação à ditadura de Maduro agora gera desgaste político. Declarações antigas voltam a circular e devem ser exploradas nas eleições de 2026.
Se o direito internacional perde força e invasões passam a ser novamente consideradas, outros territórios sensíveis entram em alerta, como Panamá, Groenlândia, Ucrânia e Taiwan. O mundo se torna mais instável e imprevisível.
Nesse cenário, a posição diplomática do Brasil pode ser um trunfo. Manter diálogo com diferentes lados pode ser vantajoso em um mundo cada vez mais polarizado. Estar distante dos conflitos diretos, no centro do território brasileiro, não é algo ruim. A grande questão será saber se o país fará as escolhas certas para aproveitar essa posição.
* Advogado e empreendedor há 14 anos. Gestor do escritório Alexandre Magno Advogados Associados em Ipatinga.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]












