06 de janeiro, de 2026 | 06:20

Em qual espaço queremos viver?

Pedro Montebello *

Há pensadores para os quais a Geografia é mais do que mapas, sendo compreendida como uma lente pela qual se enxerga o mundo. Para eles, o espaço não é apenas onde vivemos, mas como vivemos - uma dimensão que carrega memórias, decisões coletivas e a qualidade dos nossos encontros. Essa reflexão encontra base no trabalho do geógrafo britânico David Harvey, que propõe uma distinção fundamental entre o espaço absoluto e o espaço relacional.

O espaço absoluto é aquele que podemos medir, dividir e controlar com precisão. É o espaço do planejamento técnico, da eficiência econômica, em que o território é, antes de tudo, um recurso. Um lugar de domínio. Em contrapartida, o espaço relacional existe nas conexões invisíveis, nos afetos, na sensação de pertencimento e na história compartilhada por quem habita um lugar. É o espaço da experiência vivida, é o lugar do conforto, em seus aspectos psicológico e material.

Tomemos como exemplo nossa região, o querido Vale do Aço, marcada pela atividade siderúrgica. As usinas, em seu surgimento, no século XX, modelaram o território sob uma lógica clara: a produção em larga escala. Naturalmente, o arranjo urbano que se formou ao seu redor organizou-se conforme essa necessidade. Bairros surgiram em diferentes distâncias das fábricas, e as condições de vida - o ar que se respira, a paisagem que se vê, o acesso que garante o ir e vir - variaram de acordo com o arranjo estabelecido. Não se trata de um julgamento, mas de uma observação: grandes empreendimentos industriais têm, historicamente, o poder de definir certa ordem espacial. Eles atraem pessoas, criam empregos, mas também desenham, mesmo que sem intenção explícita, diferentes realidades dentro de uma mesma cidade.

Isso nos leva a uma questão profunda: esta é a única forma possível de organizar nosso meio? O geógrafo Harvey nos mostra que não. O espaço, para ele, não é um palco fixo, mas um processo em constante produção e transformação pelas relações sociais. A pergunta "Qual espaço queremos habitar?" deixa, portanto, de ser abstrata. Essa indagação se torna um convite para avaliarmos se a lógica predominante em nosso entorno prioriza a métrica pura do "progresso" ou se deixa espaço para a qualidade das relações humanas.

Quem dita essa lógica? Em escala global, forças econômicas, modelos de desenvolvimento e políticas públicas exercem uma influência considerável. Essas instâncias estabelecem as regras do jogo sobre como o chão é usado, e para quê. No entanto, essa narrativa não é imutável. Em pequena escala, nas escolhas cotidianas de uma comunidade ou organização de bairro, vemos a semente de um espaço relacional brotar. É na tensão entre essas duas escalas que o futuro dos lugares se define.


“A educação não serve apenas para criar o confronto,
mas para ampliar o repertório de possibilidades”


O que podemos fazer? O ponto de partida mais poderoso talvez seja a consciência. É aqui que a educação, especialmente na perspectiva histórico-geográfica, revela seu papel necessário. Ao estudarmos como diferentes sociedades, ao longo da história, organizaram seus territórios, compreendemos que o arranjo espacial que nos cerca não é natural ou inevitável, na medida em que há possibilidade de mudanças. E esse rearranjo, se houver, é resultado de escolhas, sejam estas conscientes ou inconscientes. Uma aula de geografia crítica pode ensinar a ler a cidade além de seus edifícios, uma aula de história regional pode contribuir na construção da identidade local do cidadão. O conhecimento sempre será o norte, no sentido norteador, esclarecedor. E assim voltamos ao ponto de partida: a consciência de quem somos e onde nos situamos.

E vale ressaltar que a educação não serve apenas para criar o confronto, mas para ampliar o repertório de possibilidades. Sobretudo de visão de mundo geral e local. Ela nos mostra que pensar o espaço é pensar a qualidade de vida, a saúde, a educação, a segurança, o lazer, a própria habitação e o convívio em sociedade. Permite que o jovem, ao observar sua cidade, possa imaginar alternativas e sonhar com um lugar melhor para se viver.

* Professor de História formado pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Geografia – Tratamento da Informação Espacial da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).

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