01 de janeiro, de 2026 | 07:30
O dilema estético da coquetelaria em 2026 - Entre o silêncio e o espetáculo
Abner Benevenuto Araújo Paixão *
Do lado de cá do balcão, vejo como a coquetelaria vive momentos de contraste e diálogo constante. De um lado, coquetéis que chegam com espuma, flores comestíveis e cores vibrantes, quase como pequenas obras de arte que convidam o olhar antes do primeiro gole. Do outro, a simplicidade de uma caipirinha bem-feita, gelo transparente, limão fresco, açúcar na medida, que fala por si mesma sem precisar de nada além do sabor. Esses dois mundos coexistem e me fazem perceber que o que está em jogo não é apenas estética, mas estado de espírito - e que essas diferenças vão gerar grandes discussões entre profissionais da coquetelaria em 2026.
Na minha visão, o minimalismo e o maximalismo não competem, mas se complementam. O minimalismo fala de precisão, clareza e autenticidade. Um drink simples, quando bem feito, carrega identidade e respeito pelo paladar do cliente. Já o maximalismo é lúdico, ousado, quase teatral, e se propõe a contar histórias através de cores, aromas e texturas. Cada bar ou casa pode desenvolver sua própria linguagem: um bistrô pode optar pelo minimalismo, priorizando drinks refinados e silenciosos; uma casa de shows ou bares temáticos podem explorar o maximalismo, criando copos que geram interação, surpresa e memória.
Em eventos como casamentos e festas de 15 anos, o bar pode equilibrar minimalismo e maximalismo de forma prática: drinks simples, como caipirinhas ou outros coquetéis bem equilibrados, servidos com precisão, garantem eficiência e elegância, enquanto coquetéis maximalistas, com espuma, flores comestíveis, camadas de frutas ou mesmo a clássica régua no shot com toques brasileiros, criam momentos de encantamento e interação entre os convidados. A chave está em adaptar cada drink ao momento e ao público, permitindo que a celebração seja ao mesmo tempo refinada, lúdica e memorável.
O minimalismo e o maximalismo não competem, mas se complementam. O minimalismo fala de precisão, o maximalismo é lúdico, ousado”
Drinks minimalistas funcionam para agilidade e consistência, garantindo que o serviço seja eficiente sem perder qualidade: caipirinhas clássicas, coquetéis simples e o cantinho da cachaça são certezas de sucesso. Ao mesmo tempo, o maximalismo permite criar momentos de surpresa: um coquetel autoral da casa ou uma soda italiana podem ser o momento de espetáculo” de cada casa, marcando identidade e experiência do evento.
O que define um bom profissional na minha opinião, é a consciência da proposta. Não existe certo ou errado, mas sim identidade e equilíbrio. É preciso cuidado para que o maximalismo não se torne exagero vazio e que o minimalismo não vire um desleixo obsoleto. Cada espaço pode explorar a própria narrativa. O ideal é sentir o pulso do público e do evento, oferecendo experiências coerentes.
Em 2026, acredito que a coquetelaria vai se fragmentar ainda mais, se adaptando a diferentes estados de espírito, horários do dia e tipos de convidados. Cada copo será uma oportunidade de contar uma história seja no silêncio de um gole preciso ou na teatralidade de uma criação maximalista. É nesse equilíbrio, entre precisão e imaginação, que cada bar encontrará sua voz própria, sua identidade e a chance de transformar a bebida em experiência.
* Bartender da região do Vale do Aço, com experiência em bares e eventos.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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