01 de janeiro, de 2026 | 07:00
Crônica de Ano Novo
William Passos *
Roupa toda branca. Flores ao mar. Pulinhos para boa sorte. Amarelo para prosperidade... independentemente da fé, comungamos da crença que a vida é uma dádiva e que viver com saúde, conforto, segurança e rodeados por quem mais amamos é um privilégio. Mais 365 dias. Nova primavera, verão, outono, inverno. Nova oportunidade para sonhar, mas sobretudo realizar o que ainda não foi possível. Ainda somos os mesmos de quando éramos mais jovens? Nossos amigos continuam os mesmos? Tomara que nossos amigos essenciais tenham permanecido e que não sejamos mais os mesmos! Que sejamos como bom vinho armazenado em barril de carvalho, que envelhece se tornando melhor com o passar dos anos!
Que todas as nossas experiências de abandono tenham nos lapidado, qual diamante atravessado pelo fogo! Que toda nossa dor tenha nos curado de nós mesmos! E que todas as palavras infelizes - especialmente as mais infelizes - tenham nos ensinado outros jeitos - mais calorosos, amáveis e acolhedores de usar a boca! Com o ano novo que inicia, teremos nova oportunidade de contemplar o que o sol faz com as flores! Que, no germinar de cada flor, toda violência murche, todo abuso caia, todo o amor enraíze, cada perda nos faça crescer e que, ao final e acima de tudo, floresça o melhor da nossa humanidade!
Que o ano que chega nos presenteie com uma caixa cheia de tempo. Para distribuí-lo para nossos familiares e amigos para quem ainda os têm por perto! E para a nossa própria fruição! Que esse novo tempo nos permita mais pé na areia da praia, água do mar escorrendo pelos dedos dos pés e banhos de mar para dormir com a profundidade de quem mergulha no mais profundo de um sono restaurador.
Independentemente da fé, comungamos da crença que a vida é uma dádiva e que viver com saúde, conforto, segurança e rodeados por quem amamos é um privilégio”
Se não for pedir muito, que o ano que inicia restaure os sonhos do passado os projetos do papel, as viagens para depois, os cafés que sempre puderam esperar e, especialmente, os livros que ainda não lemos. Nesse ponto, confesso que falo em causa própria porque penso em livros de literatura. Da contemporânea poetisa progressista indiana-cadadense Rupi Kaur ao clássico e conservador romancista russo Fiódor Dostoiévski. Até porque, como dogmático defensor da liberdade religiosa, comungo da crença que "a beleza salvará o mundo", exatamente como personificada no Príncipe Myshkin, de "O Idiota".
E por falar em literatura, amante que sou da quinta arte, devo argumentar que, de todos os idiomas com alfabeto e sistema de escrita estruturado, para mim, pessoalmente, nenhum se iguala ao pentagrama musical com clave de sol na segunda linha - muito embora, interiormente, a memória afetiva da clave de fá na quarta linha seja de um grito arrebatador, haja vista ter sido o trombone meu primeiro instrumento e grande responsável pela minha segunda reabilitação pulmonar, na adolescência. Assim, se o ano novo permitir, que também seja de reabilitação para as músicas que mais gostamos de ouvir e para aquelas que já não ouvimos há muito tempo. Do clássico ao popular.
Por fim, para que, de fato, a beleza "salve" o mundo, é fundamental que o mundo seja "salvo" pela boa educação. Por isso, que o ano novo que inicia também seja o da convergência das forças capazes de oferecer um sistema educacional de melhor qualidade a todos os povos, especialmente àqueles em situação de maior desigualdade e vulnerabilidade.
Sistemas educacionais de melhor qualidade, por sua vez, implicam não apenas alfabetização plena em matemática e nas línguas oficiais e maternas, mas acesso, com qualidade, tanto ao saber historicamente acumulado o que inclui a literatura de Kaur e Dostoiévski e a educação musical com base no sistema de notação das partituras quanto aquele alijado dos currículos oficiais a exemplo do que propõe, no caso brasileiro, a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola.
Num planeta cada vez mais envelhecido e com cada vez menos nascimentos, construir, no presente, um futuro melhor talvez seja o maior legado da nossa geração. A todos, um ano novo com muita paz, muita luz e muita saúde e prosperidade. Ao Diário do Aço, grato pela deferência do espaço privilegiado! A você, obrigado pelo prestígio da sua leitura!
* Colaborador estatístico, jornalístico e literário do Diário do Aço desde 2019.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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