Após duas curvas, o jipe estacionou defronte à velha casa. Desceu com cuidado. Seus acompanhantes entraram na morada, saudando quem lá estava. Ela se afastou devagar, caminhando pelo caminho que levava ao córrego. Passou pelo curral. O cheiro do esterco envolveu-a em lembranças de leite tirado na hora e bebido em canecas esmaltadas. Entrou à direita onde ficavam a horta e o pomar. Respirou profundamente e a viu de vestido azul-marinho, cuidando dos canteiros, arrancando ervas daninhas, afofando a terra com dedos experientes. Sob o sol da manhã, viu o cesto de figos recém-colhidos, verdes, firmes, lindos. Seriam lavados, raspados com a faca para retirar a lixa, furados com o garfo e deixados de molho por um dia, com troca de água diversas vezes, como faziam as avós. Ela lhe sorriu, abençoando seus passos. Continuou caminhando sob o sol que despontava, enquanto seus raios brincavam nas copas das árvores e nos arbustos rasteiros que margeavam o caminho. Chegou ao canavial onde as canas aguardavam: seriam cortadas, levadas para a área do engenho, aparadas por mãos experientes que as colocariam na moenda e os bois seriam acionados pela menina de sete anos que aguardava, ferrão na mão. Pachola e Desengano, sob a canga, aguardavam pacientemente a ordem de comando, usando a cauda para espantar os mosquitos. A enorme tacha transbordando de garapa já fervia ao fogo, havia um cheiro de melaço pelo ar e as abelhas agitadas faziam festa, zumbindo sobre o bagaço atirado ao solo. Continuou caminhando e a menina que parecia feliz guiando os bois, sentindo-se importante, olhou-a com espanto, como se a conhecesse. Sorriu para ela com ternura e continuou a caminhada, passou pelo bambuzal que estalava e sorriu ao se lembrar da lenda de que nasce um saci a cada estalo.
Virou à esquerda, caminhou um pouco mais e chegou ao pequeno córrego cujas águas cantavam docemente narrando o que tinham presenciado desde a nascente até chegar ali e continuar se movendo em busca de seu destino. O coradouro, o “batedor” de madeira onde a roupa era batida para clarear, o cheiro forte do sabão feito em casa, roupas brancas no varal... Fez a volta e saiu no terreiro da cozinha, onde galinhas alvoroçadas bicavam o milho que lhes era atirado, enquanto os porcos grunhiam no cercado, reclamando sua vez. Perto da bica d’agua, na varandinha, o pé de rosas brancas se alastrava até o telhado, espargindo um perfume que lembrava o mês de maio e as coroações. O forno de barro, feito à mão pela mãe camponesa, ardia em chamas, a lenha dando estalidos, o fogo crepitando para aquecer os tijolos no ponto certo e acolher as assadeiras onde os biscoitos aguardavam para ser assados. A mãe lhe sorriu, rosto com marcas de carvão e continuou a lida. Numa gamela, duas galinhas abatidas, já limpas, aguardavam o recheio de farofa de miúdos; seriam cozidas na tacha e depois fritas na gordura de porco; o cheiro de alho e sal socados com pimenta malagueta e pimenta do reino traziam um aroma irresistível ao ambiente e chegavam até ela pelo cone mágico do passado. Cheiros, delícias, cores, risos, fogão à lenha, milho verde assando nas brasas do fogão, vacas mugindo, galinhas cocoricando, pássaros entoando seus cantos celebrando o sol, a vida e uma Bugra andando por seu passado com gratas recordações de uma existência simples, contudo infinitamente bela e rica de amor que é o que vale mais nesse mundo de meu Deus! E nada mais digo, nem precisa.
*Escritora e contadora de histórias.
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