OAB entregará Comenda da Diversidade Religiosa para dirigente espiritual de terreiro de Umbanda de Ipatinga

19/09/2024 às 08:00
Isabelly Quintão
Maria de Fátima é dirigente espiritual da Comunidade Tradicional Terreiro de Umbanda Ilê Axé de Ogum
Por Isabelly Quintão - Repórter Diário do Aço
A presidente da Comissão de Direito Público da 72ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Ipatinga, Regiane Bergami, convidou a dirigente espiritual, mãe Fátima de Ogum, Maria de Fátima Pimentel Silva, da Comunidade Tradicional Terreiro de Umbanda Ilê Axé de Ogum, para receber a Comenda da Diversidade Religiosa da Subseção da OAB no 14 de outubro. O convite foi formalizado nesta terça-feira (17), no próprio terreiro, situado no bairro Canaã.

Em entrevista à reportagem do Diário do Aço, Regiane destacou que o objetivo consiste em mostrar a diversidade religiosa que existe no Brasil e, inclusive, na localidade.

“Nenhuma religião quer o mal para as pessoas. A Umbanda é uma religião maravilhosa, que guarda raízes históricas importantíssimas para o país. Esse tipo de ação vem sendo uma pauta para a sociedade na agenda política. A OAB tem como dever preservar o estado democrático e o pluralismo religioso. Nós faremos isso com todas as religiões que tiverem e quiserem ter a oportunidade de demonstrar os seus credos. O direito público está na constituição e o Estado é laico”, afirmou.

Intolerância religiosa
A dirigente espiritual contou ao jornal como enfrenta os preconceitos religiosos. “Tem muitas coisas que a gente não pode dar muito ouvido. Graças a Deus e aos meus Orixás, comigo ninguém bate de frente. Já fiz minhas caminhadas, mas tive que parar com elas porque estava muito violento. Eu vejo uma luz muito importante pela frente. Casos de entrarem em terreiros, quebrar imagens e assentamentos, aqui nunca aconteceu, mas fora daqui já. Na Bahia, quebraram um terreiro e a Mãe de Santo faleceu. Ao contrário, agora, o que vem ocorrendo é uma luz para quem é de matriz africana. Eu posso gritar, eu posso ser eu. Se eu respeito a todos, também pedimos respeito. Eu não quero que me amem, eu só quero que me respeitem”, apontou.
''Nenhuma religião quer o mal para as pessoas. A Umbanda é uma religião maravilhosa, que guarda raízes históricas importantíssimas para o país. Esse tipo de ação vem sendo uma pauta para a sociedade na agenda política'', afirma advogada


Umbanda
Mãe Fátima de Ogum também salientou que a Umbanda, assim como outras religiões, atua pelo bem. “O significado dela é cura. Mexemos com muitas ervas, de onde a cura vem. A Umbanda é pé no chão, é brasileira. Ela foi criada no Brasil e busca raízes para poder se fortalecer. A maior parte é a proteção, é uma casa de guardiã. Tem muitas vertentes da nossa religião, mas de qualquer forma ela traz segurança para o filho da casa. Para muitas pessoas que moram fora também”, explicou.

“Para mim, Umbanda é, abaixo de Deus, a cura, a guardiã, a segurança e a abertura de caminhos. E pode ajudar as outras pessoas na oração. É a parte que mais fazemos. Amanhecemos rezando, passamos o dia rezando e recolhemos rezando. A Umbanda vem para ajudar por meio de reza. Já rezei para pessoas dos Estados Unidos até pelo celular. Eu acendo a vela e falo com Jesus para segurar na mão da pessoa para mim e fazer a cura”.
Ela ainda detalhou como começou na religião. “Meus pais eram do terreiro e eu era legionária. Eu não queria mexer com espiritismo, tinha medo. Mas cresci na mistura entre espiritismo e catolicismo. Eu queria ser freira e me jogaram dentro de um balaio de flor, que é a Umbanda. Hoje, posso enxergar além, porque Deus me deu essa visão”, enfatizou.

Visões distorcidas
A dirigente espiritual afirmou que muitas pessoas têm visões distorcidas a respeito da religião. “Muitas pessoas dizem que a macumba só faz maldade. Então, se você cresce com o pensamento de que o espiritismo só faz maldade, o que você diria hoje? Você iria acreditar. Para a pessoa ter certeza, ela teria que, pelo menos, tentar aproximar e ter um diálogo com uma pessoa que tem bagagem de conhecimento sobre”.
Isabelly Quintão
Maria de Fátima Pimentel Silva e seu marido Antônio Pereira da Silva


Detalhando que a Umbanda acredita em Deus, Maria de Fátima reforçou a sua fé e a de outras pessoas que seguem religiões de matrizes africanas. “Como faremos uma coisa sem acreditar em Deus? Não tem jeito. Ele é o supremo. É a lei que dirige a terra e a natureza. Não tem como você fazer nada sem crer, por mais pequenininho que seja, nada se realiza, nem uma vela queima. Quem vem primeiro é o criador de todas as coisas. Tudo meu é isso: se Deus permitir”, destacou.

Isabelly Quintão
Membro da Comissão de Direito Público, Hélio Cimini, junto a Maria de Fátima


“Passei na Igreja Católica e eu continuo. Tomo minha comunhão todo domingo. Eu vou rezar para uma pessoa, então vou doar a minha energia, mas quem vai doar a energia para mim? Só Deus. É por meio da comunhão que recebo minha energia de volta e passo minha semana em segurança. Na minha primeira comunhão, estava todo mundo calçado e eu tirei o sapato na hora de recebê-la. O padre me questionou e eu disse que respeitava assim, acreditando que meu pé no chão tinha mais força para receber o corpo de Cristo. Quando fiz pela primeira vez, tinha sete anos. Essa força, essa fé em Deus, na Virgem Maria, minha mãezinha, é muito grande. Conscientizo meus filhos a se batizarem, a tomarem a primeira comunhão e a crismar. Dentro do espiritismo você não pode ser pagão, você precisa estar em comunhão com o criador. Sem isso, nada é feito”, complementou.

Como denunciar casos de intolerância religiosa?


Regiane Bergami afirmou que, em casos de intolerância religiosa, a OAB atua ativamente. “Nas ações judiciais, por exemplo, ela pode atuar como amicus curiae. E pode atuar nos processos. Também acompanha no sentido de combater qualquer intolerância religiosa. É inadmissível, dentro da OAB, qualquer intolerância de ordem religiosa em relação a qualquer religião”.

Ela ainda destacou que é possível fazer denúncias de uma forma prática. “Há como denunciar na própria OAB, no site do Ministério Público ou no da Defensoria Pública. Intolerância religiosa é crime, então, qualquer pessoa que se sentir menosprezada tem o direito de buscar instituições. A OAB não tem o poder de punir, mas encaminha para as autoridades responsáveis”, finalizou.
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