10 de julho, de 2024 | 12:00

No meio do caos, o plantio da mentira

Carlos Alberto Costa *

Bruno Peres/Agência Brasil
O tema da regulação das mídias sociais tem ganhado corpo e não é à toa. Essa discussão chegou tarde. E a prova disso nós vimos durante os dias do desastre climático no Rio Grande do Sul, no mês de junho. Você já se perguntou, por que alguém inventaria mentiras no meio de um desastre daquela proporção? Recentemente recebi um vídeo da jornalista, professora e roteirista Aline Dauriz, que passo a transcrever com a resposta a essa pergunta. Faz algum sentido pra você alguém querer deliberadamente espalhar boatos no meio de uma tragédia? Pois por incrível que pareça, faz sentido. Isso se chama desinformação. A desinformação não é só fake news, só boato, falta de checagem, erro de informação, zoeira, fofoca, mentirinha boba. A desinformação é um método muito inteligente, por sinal, que está por trás de um negócio. E esse negócio é comandado por organizações muito bem organizadas e financiadas, com interesses políticos e econômicos. E o principal produto desse negócio é justamente a invenção de mentiras, estratégicas criadas com técnicas específicas para fazer “viralizar” com muita, muita rapidez. Tudo com o objetivo de manipular um grande grupo social, manipular a massa. Essa manipulação geralmente tem três objetivos: O poder político, ou seja, conseguir ganhar voto no futuro; Lucro: te apresentam um problema para vender uma solução ou então para aplicar um golpe.

O ocorrido no Rio Grande do Sul mostra bem como o mercado da desinformação funciona. Para que o povo acredite nas mentiras, é preciso destruir as instituições que as pessoas tinham como pilar. É preciso descredibilizar o trabalho da imprensa profissional, fazer o povo desconfiar das ações dos governos, desconfiar do IBGE, do INPE, dos pesquisadores, da ciência e da tecnologia, enfim, fazer o povo se revoltar.

Não é à toa que as mentiras inventadas sejam tão revoltantes. Elas são feitas de uma maneira bem alarmista para causar emoção nas pessoas: raiva, incredulidade, indignação, sede de justiça. Sem emoção, uma pessoa não teria motivação para passar a mentira adiante, para compartilhar o post no grupo da família, do condomínio, do bairro e assim por diante. Por isso a notícia falsa vem sempre com uma súplica: “Repasse sem dó”.
“Para que o povo acredite nas mentiras, é preciso destruir as instituições que as pessoas tinham como pilar”


Quem lê ou assiste um vídeo com uma desinformação é tomado por um senso de urgência tremendo e também por uma sensação de “privilégio” por estar recebendo uma informação que ainda ninguém tem, ou pior, de uma situação que estão querendo esconder. Isso impulsiona a pessoa a repassar, na melhor das intenções. A maioria é de pessoas boas, que quer um mundo melhor e acabam vítimas dos manipuladores. Não entra na cabeça de uma pessoa do bem que existam outras querendo tirar proveito de uma tragédia, que existe gente inventando notícia falsa, e é justamente da bondade das pessoas que organizações estão se aproveitando. Por isso, desconfie de informações que chegam até você. Pelo WhatsApp, pelas mídias sociais, por relatos da sua vizinha, por um áudio que um amigo mandou.

Você viu uma informação chocante, revoltante, urgente? Dá uma checada nos portais de notícia dos jornais profissionais de sua cidade, de seu estado. Se algo tão grave ocorreu, até mesmo pra ganhar clique, a imprensa séria vai ser a primeira a querer noticiar isso. Coloca a informação no Google que você viu e escreve boato do lado para ver se alguma agência de checagem já desmentiu aquilo ali. Combater a desinformação é um dever de cidadania. As pessoas têm tanto medo de serem manipuladas pela mídia ou pelo governo que acaba caindo em manipulações ainda mais sórdidas, ainda mais perigosas. A verdadeira conspiração é a própria desinformação.

* Professor aposentado

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Comentários

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Gildázio Garcia Vitor

10 de julho, 2024 | 12:23

“Excelente artigo! Parabéns!
Segundo Humberto Eco, "As redes sociais deram voz a uma legiões de imbecis que, antes, só falavam nos bares, após um copo de vinho e não causavam nenhum mal para a coletividade. Nós os fazíamos calar imediatamente, enquanto hoje eles têm o mesmo direito de palavra de um Prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis."
O problema, é que no Brasil, muitos desses "imbecis" têm graduação, inclusive em Ciências Humanas e Ciências Sociais, para os dás Ciências Exatas, dou desconto.”

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