03 de julho, de 2024 | 12:00

A luta contra a ''fome'' é uma vergonhosa realidade brasileira

Gregório José *


No cenário vasto e diverso do Brasil, onde o brilho do sol e a fecundidade da terra deveriam garantir a todos o direito básico de se alimentar, a cruel realidade de milhões de brasileiros sem acesso adequado à comida revela-se um escândalo social que não podemos ignorar. O mais recente levantamento do IBGE traz à tona uma radiografia perturbadora de nosso país: enquanto a proporção de domicílios em segurança alimentar cresceu, 21,6 milhões de lares ainda convivem com a fome e a insegurança alimentar.

Os números do quarto trimestre de 2023 são um misto agridoce. De um lado, 72,4% dos domicílios têm acesso regular a alimentos, um avanço significativo se comparado aos 63,3% da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018. Por outro, a fome e a insegurança alimentar, em suas várias formas, ainda assolam 27,6% das casas brasileiras, um total de 21,6 milhões de lares. Desses, 4,1% — cerca de 3,2 milhões de domicílios — enfrentam insegurança alimentar grave, onde a fome é uma realidade presente e assustadora.

As disparidades regionais são chocantes e clamam por uma reflexão profunda e ações efetivas. No Norte e Nordeste, respectivamente, apenas 60,3% e 61,2% dos domicílios estão em segurança alimentar, contrastando fortemente com os mais de 75% das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Nessas regiões menos favorecidas, o espectro da insegurança alimentar grave atinge proporções alarmantes — 7,7% no Norte e 6,2% no Nordeste. Essa situação é um grito de socorro, uma evidência irrefutável de que o Brasil não é um país homogêneo e que a fome tem endereço certo: as regiões mais pobres e menos assistidas.

O Pará, por exemplo, lidera o ranking de estados com maior proporção de domicílios em insegurança alimentar moderada ou grave, com 20,3%. Isso significa que um em cada cinco lares paraenses não tem acesso adequado ao alimento. Em contrapartida, estados como Santa Catarina (3,1%) e Paraná (4,8%) apresentam os menores percentuais, revelando um abismo de desigualdade que deve ser endereçado urgentemente.
“Em um país que se orgulha de ser um dos maiores produtores de alimentos do mundo, é uma vergonha que milhões ainda vivam a incerteza da próxima refeição”


Mulheres e Negros são os rostos da insegurança alimentar - Os dados revelam ainda uma face trágica da insegurança alimentar: o seu impacto desproporcional sobre mulheres e negros. Em 2023, 59,4% dos domicílios em situação de insegurança alimentar eram chefiados por mulheres. A disparidade é ainda mais evidente quando observamos que a maioria dos lares afetados tem como responsáveis pessoas pretas ou pardas, representando 69,7% dos casos. Essas estatísticas não são meros números; são reflexos de uma sociedade profundamente desigual, onde a cor da pele e o gênero ainda determinam, de forma brutal, o acesso a direitos básicos.

Em um país que se orgulha de ser um dos maiores produtores de alimentos do mundo, é uma vergonha nacional que milhões ainda vivam sem a certeza de sua próxima refeição. A insegurança alimentar não é apenas uma questão de falta de comida; é um reflexo de políticas falhas, de uma economia que não consegue distribuir sua riqueza de forma justa, e de um Estado que vira as costas para os mais vulneráveis.

O aumento da segurança alimentar desde 2018 é um alento, sim, mas não pode ser motivo de complacência. Enquanto houver brasileiros que vão dormir com fome, nossa missão como nação está longe de ser cumprida. Precisamos de políticas públicas eficazes, que combatam a desigualdade e garantam o direito básico à alimentação para todos. O Brasil tem todas as condições para ser uma nação onde ninguém passa fome. Mas para isso, é essencial coragem política, compromisso social e uma mobilização que vá além dos discursos. É preciso ação. Urgentemente. Porque cada dia sem comida é um dia a mais de indignidade e sofrimento que nenhum cidadão brasileiro merece suportar.

* Jornalista/Radialista/Filósofo, pós-graduado em Gestão Escolar, Ciências Políticas e em Mediação e Conciliação, MBA em Gestão Pública

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Comentários

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Tião Aranha

03 de julho, 2024 | 13:24

“Bom texto, parece que a fome material é oriunda da fome espiritual. Enquanto falta pros pobres, sobra pra classe política.”

Gildázio Garcia Vitor

03 de julho, 2024 | 13:07

“Muito interessante e parcial, escrever um artigo sobre segurança alimentar e não citar a elevada concentração de terras nas mãos de poucos e as plantations, que produzem para o mercado externo e para as indústrias de transformação, sem considerar as lavouras energéticas e as de eucaliptos para a produção de celulose, que estão em expansão a todo vapor.
Ainda tem um fake news no artigo: "O aumento da segurança alimentar desde 2018 é um alento ...", tá bão! Acredita quem quer e é mal-informado e/ou mal-intencionado.”

Graça Lima

03 de julho, 2024 | 12:57

“Veja bem quando falamos em fome num país tão gigante , a primeira coisa que devia ser questionada e: porque moramos num país tão grande, e até hoje uma tivemos uma política publica de distribuição de terras? porque até hoje não fizemos uma Reforma Agrária descente? o artigo mesmo descreve o estado do Pará como o estado onde mais pessoas sofrem com a insegurança alimentar. como diria aquele detetive inglêz Sherlock Holmes, elementar meu caro watson, O Para detém uma das maiores áreas de terras da União, e é também o estado onde mais se mata trabalhadores rurais, assim como também matam seus defensores,Irmã Doroty , é uma entre tantas. Nosso país só será soberano com políticas públicas sociais e principalmente, com uma Reforma Agrária justa e inclusa.”

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