02 de julho, de 2024 | 11:00

Café com pão, manteiga não/ Café com pão, manteiga não

Nena de Castro *


E a locomotiva ganha velocidade, enquanto, desconfiada, espero a multidão que vai de pé, e o vendedor de pão com mortadela e guaraná Foquinha, num cesto de taquara igual aos da padaria de meu pai. Que viagem de trem besta essa sô, nada de gente em pé, nada de sanduba de pão murcho com salame, nada de janela aberta onde a gente enfiava a cabeça e ganhava um banho de pó de minério... Cadeiras estofadas, ar-condicionado, menu com as opções de almoço...

Ah, nada de franguim com farofa feito por dona Inês... Vou visitar meu irmão que está enfermo em Vitória, dói o ovo que tenho no ombro esquerdo, dói a coluna, dói o joelho esquerdo, doem as nádegas da bunda de ficar sentada e ainda estamos em Valadares! Muito caminho pra viajar, eita! Aqui comigo o livro de Chico Buarque que me dei de presente, "O Irmão Alemão"; começo a ler e descubro que o título é baseado em fatos reais, o pai dele viveu em Berlim quando solteiro, teve um romance por lá e há correspondências "secretas", cartas que falam sobre o menino, inclusive uma do nefando estado nazista inquirindo se o mesmo não tinha ascendência judaica, podendo ser dado em adoção. Nessa parte meu estômago se contrai, suo frio e me vejo em um vagão de gado, de pé, espremida entre outros seres, sem esperança que irão desembarcar em AUSCHWITZ! Sede, pavor indizível, alguém me toca, vou gritar, então percebo que foi um desvario, é o atendente com o cardápio, para de delirar, Bugra doida! Afe, t'sconjuro, sai capeta e leve consigo todos os idiotas que apoiam o totalitarismo! Quem contou ao Chico sobre o irmão foi o poeta Manuel Bandeira e nesse livro ele mistura a verdade com fantasia e quero ver no que vai dar.

Chego, visito meu irmão, que está melhor, e conversarmos sobre a família, casos engraçados, e ele lembra quando me apelidou de "bode", fazendo questão de lembrar que era um apelido carinhoso. Sei... Então vou pra Jacaraípe, visitar minha irmã Gigi; onde ela mora é um sossego, tem galinha no quintal e acordei com o canto feliz de um galo, coisa que não ouço há tempos. E as lembranças e os causos nos fazem rir, e feliz, curto minha família e do fundo do coração desejo paz e prosperidade para nosso povo tão sofrido levado pelas ondas cruéis da politiquice. Vou voltar de trem, vou levar farofa, ki suco, e biscoito barulhento, e que ninguém se atreva a me repreender, senão canto: vou danado pra Catende, vou danado pra Catende". Pensando bem, vou feliz pra Ipatinga, piuuiiiiiii!
E nada mais digo!

(*) Escritora e contadora de histórias.

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Comentários

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Gildázio Garcia Vitor

02 de julho, 2024 | 13:02

“Maravilhoso! Parabéns!
Temos que combater os nazifascistas com toda às nossas armas de forma ininterrupta e sem perder as oportunidades, como nessa pequena crônica.
Querida Bugra Velha, um "poeminha do contra" para nós:

"Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão ...
Eu passarinho!"”

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