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18 de junho, de 2024 | 11:00

A ARMADILHA...

NENA DE CASTRO *


Numa casa humilde da periferia em Juiz de Fora, a moça chorava. Cheia de olheiras, manchas roxas, e picadas nos braços, estava trancada no quarto. O homem saíra de carro, devia ter ido comprar comida. Lembrava-se da mãe, do pai, dos irmãos menores, a casa linda, o quarto dos sonhos onde dormia, feliz. De como conhecera o “marido”, alto, lindo, elegante, em um barzinho da pequena cidade histórica, perto de Belo Horizonte. Ele lhe enviara recado, através do garçom e viera para mesa onde estava com as amigas. Delicioso sotaque português, modos refinados. Logo começou o namoro, sua família adorou o engenheiro português, respeitoso e gentil. Após seis meses ele a pediu em casamento. Os pais viviam em Portugal, a mãe era paraplégica, tinham um vinhedo famoso cujo vinho era exportado para diversos países. Conheceu os sogros por conversas telefônicas, viu as fotos. Perfeito cavalheiro, fino e elegante, fazia a futura sogra suspirar, dizendo às amigas que o rapaz bonito, alto, educado, de família rica de Portugal, parecia um príncipe e era tudo que sonhava pra filha! E preparou um enxoval digno de uma princesa, com lençóis de algodão egípcio, toalhas de linho e camisolas italianas, tudo muito chique. O casamento e a recepção, impecáveis. Viajariam de carro até o Rio de Janeiro e tomariam o avião para Lisboa, iam morar na capital portuguesa por dois anos e depois se mudariam para Dubai. Na viagem de carro houve risos e comentários, mas teve a impressão de que era olhada com olhos frios. Devia ser o cansaço, pensou. Depois de algum tempo de viagem ele avisou que iriam passar em Juiz de Fora por exigência da firma e logo seguiriam. Ela adormeceu e acordou quando entravam na cidade e para seu espanto foi conduzida para a periferia, de casas pobres e ruas mal cuidadas. Ele parou defronte a uma casa pequena, mandou que descesse, ela nada entendendo, perguntou o que faziam ali. E ficou sabendo então que ele era engenheiro, sim, mas não português, que pertencia a uma quadrilha que traficava drogas e mulheres para muitos países, que fora escolhida para ser vendida a um nobre árabe, por uma quantia fabulosa. Mas por enquanto ficariam ali, até novas ordens! Atordoada, não compreendendo bem a situação, começou a chorar, a gritar, ele a sacudiu e lhe deu um copo d’água com um gosto estranho. Acordou pela manhã. Estava trancada no quarto e pelas vozes diferentes, percebeu que havia mais homens ali. Um disse: “deu trabalho, mas conseguimos”! Você brilhou!” E o “marido” respondeu – “sim, mas estava farto de bancar o bom moço! Vamos ficar aqui, aguardando ordens até podermos viajar com ela. Podem se divertir mas não lhe machuquem o rosto!”

E o pesadelo começou, na maior parte do tempo ela estava drogada, os homens vinham, entravam em seu quarto...
Pela manhã antes de ser drogada, ficava quase lúcida, podia andar pela casa. E resolveu lutar. Começou a recolher discretamente papel de pão, sacolas de papel, folhas de anotação dos jogos... Escrevia pedidos de socorro, pedindo que avisassem a mãe, na sua cidade. Treinou jogar pela janela em forma de aviõezinhos em direção ao muro, que não era alto.
“Estranhíssimas armadilhas preparadas pela maldade e ganância humanas”


Um dia, ouviu vozes alteradas, movimento, gritos: polícia! E ouviu a voz de sua mãe chamando por ela: uma porta arrebentada e ela foi envolvida pelos braços maternos e suas lágrimas se misturaram.

Alguém encontrou a mensagem, enviou-a para uma prima que morava na sua cidade, essa procurou a mãe e lhe contou a história, mostrando o papel. O pai, doente, não pôde ir, mas a mãe foi até Juiz de Fora com fotos da moça, do noivo bandido e procurou a polícia; contatado o informante, pelo local onde ele achou o papel, começou a investigação sob sigilo, em busca de uma casa pequena, mal pintada de branco, com duas janelas na frente, entrada lateral, sem vizinhos na frente e nos lados, um muro não muito alto... E assim dois malfeitores foram presos e ela, recuperada pela mãe, foi se tratar para superar os traumas e seguir vivendo. Estranhíssimas armadilhas preparadas pela maldade e ganância humanas.

E, infelizmente, meus amados cinco leitores, é uma história verdadeira! Afeeee! Au Revoir.

*Escritora e encantadora de histórias.

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