Uma das passagens mais lindas da literatura brasileira, a meu ver, é esta da descoberta do mundo por uma criança, chamada Miguilim, que põe os óculos pela primeira vez e se vê encantada com tudo ao seu redor. Narrada por Guimarães Rosa, com grande simplicidade e profundidade, como o olhar mesmo de uma criança, esse trecho nos diz muito sobre o maravilhamento que pode ser notado no que parece ser o mais comum no nosso cotidiano.
Para quem não conhece o trecho, conto aqui em poucas e singelas palavras: Miguilim era um menino que vivia com sua família em um interior isolado do sertão. Cresceu ali, junto aos pais, tio, avó e irmãos, além de trabalhadores do sítio. Entre montanhas, um lugar distante, sem avistar na estrada por semanas um outro viajante.
Um belo dia, passa por ali um senhor que descobre em Miguilim sua limitação de visão. Faz o convite para o menino colocar os óculos que ele mesmo estava usando. Tira-os do rosto, e os põe no menino. Miguilim fica deslumbrado, claro, com tamanha nitidez de tudo. Vê, então, até “a pele da terra”. O coração bate descompassado, há uma escolha a ser feita: ficar ali com a família, na condição de sua limitação, ou fazer a sua própria travessia, enxergando as coisas ‘com outros olhos’.
Fico pensando sobre a capacidade que temos de enxergar coisas com a amplitude simbolizada pelos óculos de Miguilim. Mas também, pelo lado oposto, nossa dificuldade em fazer isso. E em escolher, muitas vezes, a limitação. Acredito que seja um aprendizado constante, esse ‘aprender a ver’, a observar, a mirar, a fitar e a apreciar as coisas mais comuns do nosso dia a dia. E ver muita beleza ou potencialidade nelas.
Talvez, como Miguilim, precisamos de um incentivo para isso. Pessoas que nos impulsionam a ver coisas que antes passavam despercebidas. Sobretudo aquelas coisas que nos edificam, nos acrescentam e nos enriquecem a vida de alguma forma. O entusiasmo é partilhado: tanto de quem dá a oportunidade de observar por um novo olhar, quanto de quem recebe a oportunidade de descobrir essa nova visão.
Da ocasião inspirada pelos ‘óculos’ oferecidos e gentilmente ‘emprestados’ por alguém, vêm junto as possíveis ‘lentes’ de que podemos dispor a nosso favor. Lentes de generosidade. Lentes de coletividade. Lentes de amor.
“O entusiasmo é partilhado: tanto de quem dá a oportunidade de observar por um novo olhar, quanto de quem recebe a oportunidade de descobrir essa nova visão”
Na calçada, ouço um senhor idoso, à minha frente, cantarolando uma música antiga, cuja letra é uma poesia em si. Ouço por alguns segundos e sou embalada pela melodia. Permiti ‘ver’ a canção ali, na voz de alguém de um tempo saudoso, em que serenatas eram comuns e permitiam encontros diferentes de hoje em dia. Lentes de intergeracionalidade.
Mais adiante, um coletor de lixo transbordando, espalhando objetos e detritos para a rua e passeio, impossibilitando a passagem segura de pessoas, veículos, bicicletas. Quais lentes nos faltam, nesses momentos, para que nossa urbanidade seja ‘vista’ e entendida, por nós mesmos, como contribuição de cada um para o bem coletivo?
Ainda, no mesmo dia, quantas oportunidades podem surgir se acionamos as lentes da prosperidade, e observarmos, em muitas situações, ocasiões de novas conexões para alavancar projetos e criar novas parcerias? E, para o céu imenso sobre nós, sol, aves, árvores, jardins que podemos cultivar com o olhar, pelas lentes da abundância, e perceber que tudo isso está pleno de lições de generosidade e comunhão?
Tal como disse a mãe do menino “que carregava água na peneira”, em Manoel de Barros, prevendo, com ternura, no amor que ele emana, a sua manifestação em ser quem é, assim também o menino de Guimarães Rosa, ouviu da mãe a permissão para escolher ver mais além, e viver profundamente quem se é: “Vai, meu filho”.
Um empurrãozinho afetuoso de que necessitamos todos, uns pelos outros, para nos reabrirmos continuamente ao mundo: “é a luz dos teus olhos” que precisa ser acesa e assim permanecer, iluminando desde as pequenas às grandes coisas, para que possamos caminhar, com e como humanidade, ainda mais adiante.
* Professora, consultora pedagógica, psicopedagoga e jornalista. Doutora em Língua Portuguesa pela PUC Minas e Université Grenoble III, França. Atua na formação de gestores, professores, líderes e equipes, ministrando palestras e cursos nos domínios da Educação, da Comunicação e do Socioemocional, suas interfaces nas relações humanas e na construção do vínculo. Publica às quintas-feiras, na Editoria Opinião do Jornal Diário do Aço, temáticas relacionadas ao desenvolvimento humano na vida cotidiana. Instagram:
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