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23 de maio, de 2024 | 07:00

Gentileza e cortesia, obstinadas senhoras do dia a dia

Ana Rosa Vidigal *


Como na parábola judaica da Verdade e da Mentira, saíram para uma caminhada, Dona Gentileza e Comadre Cortesia. Não seguiram das primeiras a mesma toada. Sobrepondo a ‘roupagem’ da representatividade, Gentileza e Cortesia se entendiam equivalentes. E, por se saberem assim, resolveram dar uma volta para ver como uma e outra eram percebidas mundo afora.

Andaram, andaram. Procuravam, com atenção e cuidado, todo mínimo ato que pudesse revelá-las no dia a dia. Ainda assim, tomaram um certo tempo para identificá-las. Mas conseguiram.

Comadre Cortesia foi a primeira que se viu pelo caminho. Um motorista freou o carro para permitir que um pedestre atravessasse a rua. “Olha eu ali”, disse ela, pomposa. “Sim, é verdade”, confirmou Dona Gentileza. Mais adiante, alguém cumprimentou um desconhecido ao se cruzarem pelo caminho. Não pareciam íntimos. Havia sido mesmo um cumprimento casual, despretensioso e genuíno. “Eu de novo”, alegrou-se a Comadre. E Dona Gentileza assentiu.

E outras cenas se repetiram em que Comadre Cortesia se reconhecia. No ônibus, por exemplo, um senhor se levantou e deu seu lugar no assento para um outro com uma criança no colo. No saguão de um edifício, alguém, que saía do elevador, deu passagem a outra pessoa para que ela se deslocasse primeiro. Na calçada, um pote de água e ração deixados estrategicamente para animais.

Começaram, então, a se inquietar, as duas amigas: onde estaria Dona Gentileza no cotidiano das pessoas? “Como assim?” Poderia dizer você, leitora, leitor, com surpresa. “Veja quantos atos de cuidado são reconhecidos por aí afora?”. Certamente. Mas o que o leitor e a leitora já devem estar suspeitando, é sobre a sutil diferença entre Gentileza e Cortesia.

“E tem diferença?”. Se você considerar certas condicionantes nos atos de cuidado, a resposta é sim. E opto pela definição sugerida por Clóvis de Barros, em sua obra “Shinsetsu – O poder da gentileza” (2018), sobre a qual me inspirei, certa vez, em um projeto de discussão de leituras que criei chamado “Encontros Marcados”. A proposta era, sobretudo, interagir, por meio de obras que revelassem elementos de construção do vínculo nas relações humanas.

No capítulo 4 de “Shinsetsu”, Barros narra o seguinte episódio: estava em um voo de Tóquio a Pequim quando um jovem japonês, assentado a sua frente, se dirigiu a ele para saber se o incomodaria se recuasse o encosto de sua poltrona. Enquanto não ouvia a resposta, o moço continuou aguardando. Visivelmente estava condicionando a ação à opinião alheia. Ao “sim”, “angulou ligeiramente o encosto, menos do que poderia. Em poucos segundos, [o autor] tinha vivido experiência de grande valor”.
“Como tudo na vida, cada um escolhe o que recebe, o que pratica e do que desfruta”


Além do “O poder da gentileza”, outros livros também inspiram valores humanos importantes e em contextos variados de abordagem e de aplicação: a importância do fator confiança no ambiente organizacional; o aconchego da real amizade nas relações sociais; a noção de tempo ancestral quando pensamos na construção de um legado para as próximas gerações.

Voltando a nossa história, Dona Gentileza não perdeu as esperanças em se reencontrar por aí. E, desde o episódio narrado pelo autor de “Shinsetsu”, acreditou que era possível se ver em algum canto. Dessa feita, acabou se encontrando em um ato tão simples que poderia até passar despercebido.

Lá estava eu andando pela rua, quando avistei um estreitamento da calçada. Havia materiais de uma construção ‘estacionados’ ali. O movimento seguinte seria passar para o lado mais próximo ao muro. No sentido oposto, vinha um senhor, responsável pela limpeza urbana: como coletor, trazia nas mãos um saco pesado de detritos. Eis que o senhor me viu, e, num átimo, percebeu minha intenção de aguardar: ele tinha a prioridade absoluta na passagem – estava no sentido livre da calçada e carregava algo pesado. No entanto, ele parou. Recuou e me deu a vez.

Daí a compreensão da distinção entre ambas, Cortesia e Gentileza, no ponto de vista que reflete o que disse Barros em seu livro. O gesto do senhor coletor foi multiplicado – não havia apenas cortesia em sua atitude de dar a vez, mas, sobretudo, havia gentileza: ao me dar passagem, ele ‘abriu mão’, primeiramente, da condição de seu próprio direito, assim como fez o jovem japonês. Eles, sim, estavam em ‘sua razão’, mas não fizeram questão. Queriam ser gentis, e o foram profundamente.

“Experiência de grande valor, sim senhor. Também pelo aprendizado, que poderá se traduzir em práticas futuras. Diferentes e melhores”, completa o autor. E é isso mesmo: “gentileza gera gentileza”. Em princípio, a todos, uma oportunidade de uma “convivência aperfeiçoada”.

Percebemos isso nos gestos de solidariedade que ‘inundam’, de forma equivalente à tragédia, os que vivem atualmente no Rio Grande do Sul. Ocasiões de praticar o que o autor reproduz da sabedoria materna: “as outras pessoas estarão sempre por perto. A vida é com elas. Não têm felicidade sem elas. Tratar mal os outros machuca a alma”.

E, ao contrário disso, com a alma em festa, Comadre Cortesia e Dona Gentileza retornam do passeio radiantes. A bem-aventurança se traduz no dia a dia e isso é de grande alento nessa paridade de ambas: andando juntas, se potencializam, somam força, mesmo que nada garanta que todo o mundo as reverencie em sua conduta. Como tudo na vida, cada um escolhe o que recebe, o que pratica e do que desfruta.

* Professora, psicopedagoga e jornalista. Doutora em Língua Portuguesa pela PUC Minas e Université Grenoble III, França. Atua na formação de professores, gestores, líderes e equipes, ministrando palestras e cursos nos domínios da Educação, da Comunicação e do Socioemocional, suas interfaces nas relações humanas e na construção do vínculo. Publica às quintas-feiras, na Editoria Opinião do Jornal Diário do Aço, temáticas relacionadas ao desenvolvimento humano na vida cotidiana. Instagram:@saberescirculares, email: [email protected]

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