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29 de fevereiro, de 2024 | 12:00

Opinião: Ouvir, dizer e escolher

Ana Rosa Vidigal *

“Você escolhe como fala, mas não escolhe como ouve”. Já ouviu essa frase antes? Eu, não; ou talvez eu não me lembre ao certo. O que sei é que, ao escutar isso recentemente, quando meu professor de inglês ressaltava os percalços que surgem na comunicação em uma língua estrangeira, a frase me pareceu instigante e muito sábia.
Assim como os provérbios, que minha avó adorava – e, aliás, tinha uma coleção deles na ponta da língua para cada situação em que ela se encontrava – há frases que nos fazem refletir pela simplicidade e pela sensatez de sua mensagem.

Embora os ditos populares se fortaleçam nos contrapontos e nas rimas – como no jogo verbal que instigam as parlendas, o que torna mais fácil a memorização – frases reflexivas fazem apelo à complementaridade, como nesse exemplo, do dizer e do ouvir nesta daqui: "Você escolhe o que fala, mas não escolhe o que ouve"

Como você "traduziria" essa frase? Talvez como um alerta para a necessidade de treinar sua adaptabilidade ao humor de seu interlocutor? Ou como um aviso para instaurar um caráter flexível às circunstâncias de uma comunicação, que pode não ser lá tão de acordo com expectativas de acolhida? De toda forma, uma precaução, não? Acredito que sim.

Seja sobre a fala ou sobre a escuta, a ideia é se precaver de que não haverá, necessariamente, uma reciprocidade das formas escolhidas de comunicação, ao se dirigirem mutuamente falante e ouvinte em uma interlocução.

Esse é o preceito fundamental da CNV – a Comunicação Não Violenta, idealizada por Marshall Rosenberg. Basicamente, entende-se que, em toda comunicação, você não precisa esperar uma atitude empática do outro para reagir desse modo. A decisão, ou melhor, o conjunto de decisões que você toma na intencionalidade comunicativa, por sua conta e risco, se referem unicamente a você: como escolhe as palavras, o modo de dizer, o que não dizer, quando dizer.

“Há ritos e riscos na comunicação e lidar com esse emaranhado
de condições, variáveis e condutas constitui-se num permanente desafio”



Escolher é uma palavra perigosa. Engendra muita responsabilidade. Escolhas são sempre desafiadoras. E como já anunciou Cecília Meireles em Isto ou Aquilo, escolher é uma imersão no desapego, que é abrir mão da importância de tudo, inclusive do propósito de escolher.

Se não escolho como vou ouvir, isso pressupõe, no caso, a escolha do outro, como falante, e como o outro decide o que e como ele tem a dizer. Há um descompromisso confortável de seu interlocutor com a comunicação alheia. Mas se sou eu o falante, e escolho como vou dizer, isso pressupõe decidir o que e como dizer, e lidar com suas consequências. Que ficam, invariavelmente, por minha conta, e não do meu ouvinte.

Daí uma outra referência relevante para esta discussão, que trata dos Quatro Compromissos Toltecas. O livro, do mesmo nome, apresenta quatro 'posturas comunicativas', baseadas em uma tradição de povos antigos da América, e que busca prevenir que você não prejudique a si mesmo (e ao outro) no processo de interlocução.

Desde a atenção com suas próprias palavras – a "impecabilidade da palavra" – como o cuidado com as suposições que podem não se verificar e que acarretam tantos mal-entendidos - "nunca tire conclusões". Quem nunca?

No fim das contas, comunicar é sempre arriscado. Mas, não somente, é também ritualístico. Há ritos e riscos na comunicação e lidar com esse emaranhado de condições, variáveis e condutas - esperadas ou não - constitui-se num permanente desafio.

Nada que não possa ser aprendido, treinado e desenvolvido. Afinal, em uma conversa, na rua ou no trabalho, e até mesmo com os amigos, familiares e conhecidos, você pode não escolher como ouve, mas pode, sim, escolher o efeito discursivo que você poderá imprimir com sua marca nas palavras que usar. Porque a palavra, como sentenciou alguém, é um superpoder que todos nós temos e que todos nós precisamos dominar.

* Professora, educadora, psicopedagoga e jornalista. Doutora em Língua Portuguesa pela PUC Minas e Université Grenoble III, França. Atua na formação de professores da Educação Básica e do Ensino Superior, e de gestores, líderes e equipes, ministrando palestras e cursos nos domínios da Educação, da Comunicação e do Socioemocional, suas interfaces nas relações humanas e na construção do vínculo.
Instagram:@saberescirculares email: [email protected]

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Comentários

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Maria Jose Vidigal

02 de março, 2024 | 09:33

“? muito bom refletir sobre a importância da nossa comunicação.
Ela pode despertar no outro as mais variadas respostas. Um ditado antigo diz:
?Quem fala o que quer, ouve o que não quer.?
Obrigada!”

Maycon Veloso

29 de fevereiro, 2024 | 12:20

“? uma honra ser seu professor de inglês! Que possamos sempre usar a boa vibração das nossas palavras para atingir, de forma positiva, o outro. Ótimo texto!”

Maycon Veloso

29 de fevereiro, 2024 | 12:14

“? uma honra ser seu professor de inglês! Que possamos sempre usar a boa vibração das nossas palavras para atingir, de forma positiva, o outro. Ótimo texto!”

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