28 de fevereiro, de 2024 | 13:00

Opinião: Pessimismo e ativismo jovem

Beto Oliveira *

No ano retrasado a Unicef publicou uma pesquisa apontando que os jovens se apresentam bastante pessimistas com o futuro. A pesquisa entrevistou pessoas entre 15 e 24 anos, dos quais apenas 31% disseram crer que o mundo está melhorando. O Brasil apresentou um índice ainda pior que a média, sendo seus jovens apenas mais otimistas do que os jovens do Mali, na África Ocidental.

Tais resultados vão ao encontro do relato de muitos profissionais que atendem ao público jovem. Adolescentes cada vez mais adoecidos, deprimidos e desesperançosos buscam psicoterapias e remédios em busca de alívio ou adaptação ao cenário catastrófico que enxergam. É difícil negar a dose de realismo dessa perspectiva e, para alguns, talvez espante mais os 31% que acreditam na melhora do mundo do que os demais que duvidam de tal fato.

Na verdade, não é preciso muito esforço para levantar, de pronto, alguns motivos que dão razão a esse suposto “pessimismo”. Comecemos pelo cenário pandêmico, que serviu de justificativa para muitos comentadores da pesquisa – afinal, ela foi realizada próximo ao auge da pandemia. Na pandemia muitos jovens perderam entes queridos, tiveram seus estudos atrasados e muitos aspectos da vida afetados. Mas não se trata apenas de um luto momentâneo. A pandemia escancarou o fato de que pequeníssimos seres, como vírus, bactérias e vermes que hospedam outros animais, podem passar a hospedar o ser humano de forma relativamente rápida. Justamente em 2022, ano da pesquisa da Unicef, a Fiocruz fez um alerta de como novas pandemias devem surgir com a devastação da Amazônia, identificando, em estudo, ao menos 173 patógenos que podem causar dezenas de doenças que ameaçam a sociedade.

Tal preocupação já nos leva a outra fonte de preocupação dos jovens, talvez uma das mais inquietantes, que é a questão ambiental. A pesquisa da Unicef aponta que 75% dos jovens entrevistados (no Brasil foram 73%) estão cientes das mudanças climáticas e dos riscos ambientais que corremos.

“A esperança, portanto, não está em os jovens serem menos
pessimista ou realistas, mas o que eles irão fazer com essa percepção”


Mas a pandemia não apenas acendeu o alerta do risco de outras pandemias e chamou a atenção para os problemas ambientais; ela também provocou mudanças no mundo do trabalho, agravando uma precarização de empregos que já estava em marcha desde a crise de 2008. Como alerta o sociólogo Ricardo Antunes, o estímulo que a pandemia deu aos trabalhos remotos, ao home office, ao trabalho via plataformas digitais, etc., serviu como laboratório para mudanças na organização do trabalho que tendem a contar cada vez mais com o trabalhador por conta própria, com a diminuição dos assalariados, com a informalidade, com o trabalho sob demanda e com a lógica da chamada “uberização” do trabalho. Sem perspectivas de se aposentar, de ter férias remuneradas, de ascender socialmente via estudos ou mesmo de ter um salário, não é estranho que o jovem olhe para o futuro com desconfiança. Soma-se a isso os progressos da chamada Inteligência Artificial, que se não substituirá o trabalhador, provavelmente o empurrará para empregos ainda mais precários.

É necessário ainda acrescentar os conflitos bélicos, que, de acordo com um estudo recente do Instituto de Paz de Oslo, chega atualmente a mais de 50 guerras no mundo, envolvendo 38 países. Coloque ainda na lista uma série de crises econômicas, políticas, institucionais e outras que não cabem nesse texto.

No entanto, se os adultos são vistos, tradicionalmente, como resignados, que já aderiram demasiadamente aos sistemas em que vivem, os jovens muitas vezes foram aqueles que desviaram o trem da história e agitaram seus trilhos. A esperança, portanto, não está em os jovens serem menos pessimista ou realistas, mas o que eles irão fazer com essa percepção. O vencedor do Prêmio Jabuti de 2023, na categoria Ciências, foi o livro “Emergência climática: o aquecimento global, o ativismo jovem e a luta por um mundo melhor”. Se prevalecerá o “pessimismo jovem” ou o “ativismo jovem” (ou se um depende do outro), é algo que pode mudar definitivamente nosso futuro.

* Psicólogo e Psicanalista. Mestre em Estudos Psicanalíticos pela UFMG. Coordenador do CEPP (Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise do Vale do Aço). Autor dos livros “O dia em que conheci Sophia”, “As Cornucópias da Fortuna” e “O Chiste”

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Comentários

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Gildázio Garcia Vitor

28 de fevereiro, 2024 | 14:38

“Estes jovens precisam conhecer e estudar Nietzsche e Schopenhauer.”

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