06 de fevereiro, de 2024 | 11:00

Opinião: Para quebrar a polarização

Gaudêncio Torquato *


Fato um: é do interesse de Jair Bolsonaro ter Lula como alvo no pleito eleitoral deste ano.

Fato dois: é também do interesse de Luiz Inácio Lula da Silva ter Bolsonaro como alvo, puxando a campanha para a arena da polarização.

Fato três: é do interesse de ambos transformar a campanha deste ano em um terceiro turno, com Lula esperando derrotar Bolsonaro por margem maior do que alcançou no segundo turno de outubro 2022 (teve 60,3 milhões de votos contra 58,2 milhões, uma diferença de 2,13 milhões), e este pensando em manter o racha no país, garantindo para sua banda amplas vitórias municipais.

Fato quatro: a depender do perfil e do discurso de candidatos sediados no meio do arco ideológico, é possível quebrar a polarização nos médios e grandes centros.

“Nunca o país esteve tão amarrado aos eixos da participação social no processo decisório”

Vamos à análise: A campanha tende a ser polarizada nas médias e grandes cidades, essas que abrigam contingentes eleitorais de todas as classes. Os blocos radicais costumam se posicionar de modo contundente, usando, principalmente, as mídias sociais. Lembro que os eleitores da esquerda se dispersaram ao longo dos anos, sob um amontoado de decepções, gestões malsucedidas, corrupção escancarada e continuidade do populismo.

Ademais, padecemos com a ausência de novas lideranças capazes de levar adiante mudanças nos edifícios da política.
Já o eleitorado da direita tem crescido na onda da indignação social contra o status quo, deixando de se envergonhar pela defesa de temáticas conservadoras, afirmando e confirmando suas identidades, ou seja, tirando o véu que cobria suas caras. Até que apareceu na paisagem a figura do capitão reformado do Exército, Jair Bolsonaro, o logradouro por onde desaguaram águas da contrariedade, cujas fontes adentraram terrenos do lulopetismo. Portanto, a direita tomou corpo, saiu da toca, mostrou a cara, e espera aumentar o som de suas trombetas. A radicalização se encaixa em seus interesses nesse momento de nossa vivência social.

Explico. Nunca o país esteve tão amarrado aos eixos da participação social no processo decisório. A decepção com obsoletos métodos de fazer política leva a comunidade a dar as costas aos políticos e a criar ferramentas e escudos de proteção. Entre tais instrumentos, se inserem as organizações não-governamentais, a miríade de entidades que passam a exercer funções de representação de interesses: sindicatos, associações, federações, grupos, núcleos, institutos, blocos etc. Passam a agir como novos polos de poder. Agregam categorias profissionais, gêneros, causas do ambientalismo. Formam um discurso forte, com voz difundida pelas mídias de massa e pelas redes, levando-o até as casas congressuais.

“A decepção com obsoletos métodos de fazer política leva a comunidade a dar as costas aos políticos e a criar ferramentas e escudos de proteção”

Pois bem, na campanha deste ano, essa malha de interesses difusos quer se fazer presente na mesa de debates. Deseja escapulir do ramerrame da adjetivação radical entre contendores e suas plateias. Há, portanto, no meio do arco ideológico, um aglomerado de massas eleitorais dispostas a se engajar nas campanhas de candidatos que expressem o apelo do bom senso, mostrando que o Brasil carece de harmonia, equilíbrio e compromisso com as reais necessidades do povo.

Nas pequenas localidades, o discurso pragmático será entoado. A micropolítica dará o tom. O alimento barato; a escola com ferramentas adequadas de ensino e perto de casa; o transporte fácil, rápido e barato; a saúde bem tratada e com bom atendimento; enfim, a realidade local ganhará prioridade. Para quebrar a polarização nas médias e grandes cidades, os candidatos, quaisquer que sejam seus partidos, haverão de produzir um pacote de ideias e programas. Condição: que sejam críveis. Haverão de dizer como e com quais recursos executarão as promessas feitas.

O voto sai, cada vez mais, do coração para subir à cabeça. Principalmente o sufrágio de grupos do centro da pirâmide social. Observa-se um cansaço das massas. Um sentimento de saturação da velha política. A percepção de que estamos condenados ao eterno retorno. Daí a conveniência de dar uma virada de mesa. Como diria Zaratrusta, “novos caminhos sigo, uma nova fala me empolga; estou cansado de velhas linguas; não quer mais o meu espírito caminhar com solas gastas”.

* Escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político.

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