Dia da Consciência Negra: o racismo só será destruído de forma coletiva, diz professora

18/11/2023 às 07:00
Divulgação
Trabalho realizado pelos alunos da Escola Estadual Maurílio Albanese

Matheus Valadares - Repórter Diário do Aço
“As identidades também se buscam no passado". Essa frase do teórico cultural e sociólogo britânico-jamaicano Stuart Hall ecoa constantemente na vida de Ana Paula Fraus, uma jovem negra, de 21 anos, estudante de Direito e militante da causa antirracista.

Segunda-feira, 20 de novembro, é celebrado o Dia da Consciência Negra. A data faz alusão ao dia em que Zumbi dos Palmares, figura emblemática da luta contra a escravatura, morreu. Um dos principais objetivos da data é convidar os brasileiros a refletirem sobre o racismo e a condição dos negros na sociedade. Tatiana Frinhani, professora de filosofia na Escola Estadual Maurílio Albanese, em Ipatinga, explica a relevância de ter um dia dedicado a uma reflexão sobre o racismo e suas consequências.

“A data se faz extremamente importante para trazer à tona uma realidade cruel do nosso país, que é o racismo estrutural. Ou seja, a luta do movimento negro assim como de toda sociedade contra o racismo se faz necessária”, afirma.

Ana Fraus enxerga a data como um “alarme”, que soa lembrando que a luta por igualdade ainda continua. “Ainda existe uma luta para que nos lembremos que este país nos deve. Nos deve mais de 400 anos de desenvolvimento econômico, uma vez que a economia do Brasil por esse período foi adquirida por trabalho escravocrata; que este país nos deve reconhecimento uma vez que foi construído não só por nossa força braçal, mas pelo ventre de mulheres negras que deu origem a essa nação”, desabafou.

A professora enfatiza que a não assistência do Estado após a abolição da escravatura, o que fez com que os escravizados ficassem à margem da sociedade. Situação que tem seus reflexos nos dias atuais.

“A maioria desses ex-escravos ficaram sem direito à educação, sujeito ao desemprego e às desigualdades. Isso gerou racismo e preconceito quanto à comunidade negra liberta. Essa realidade ainda se faz presente na estrutura da nossa sociedade. O que gera violência diária, física e verbal”, afirma.

Tatiana diz que uma das formas de se quebrar a “corrente” que ainda prende os negros e perpetua a desigualdade é a Lei de Cotas, que completou uma década de existência recentemente, e classificou-a como “política de reparo importantíssima”. 

“As cotas raciais fazem parte de uma política pública de inclusão, é uma forma de reparação histórica pelas consequências causadas pela falta de oportunidade na educação e no mercado de trabalho dado aos negros libertos com o fim da escravidão. Com objetivo de corrigir essa desigualdade entre negros e pardos, criou-se a política educacional das cotas raciais”. 

Uma luta contínua
Ana Fraus conta que o fato de se perceber como mulher negra teve um impacto positivo, visto que percebeu que não está sozinha, e que está “ligada a uma teia ancestral de inspiração”.

“Antes de mim vieram outras que resistiram e permanecem resistindo ocupando espaços, combatendo discursos racistas, servindo de inspiração e impactando outras mulheres”, afirma.

A professora de Filosofia acredita que a oportunidade de poder se inspirar e sentir representada no semelhante é algo que traz benefícios à causa. “Penso que a importância da representatividade é fundamental como uma forma de superar as barreiras do racismo e buscar construir uma sociedade justa onde as pessoas possam desfrutar de forma igualitária dos mesmos direitos e oportunidades. A representatividade também promove a inclusão e a diversidade”.

Trabalho com crianças e adolescentes
Em alusão ao próximo dia 20 de novembro, os alunos da Escola Maurílio Albanese construíram um mural com o tema: "Ubuntu - eu sou porque nós somos".

“Ubuntu é uma palavra de origem africana que se refere à coletividade. A ideia de que juntos somos mais fortes e apenas juntos podemos derrotar o racismo”, explicou Tatiana.

Para ela, tratar o tema com alunos é de suma importância para gerar reflexão e mudanças na sociedade brasileira. “A escola é uma instituição de educação, onde infelizmente ocorrem situações racistas, temos que trabalhar o tema, trazer os dados de violência que acomete a população negra do país, a falta de oportunidade e a desigualdade. Além de resgatar a nossa ancestralidade e a importância da cultura africana na construção social e cultural do Brasil”, concluiu. 

Crimes de racismo no Vale Do Aço
De acordo com o Observatório de Segurança Pública da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp-MG), até o mês de setembro deste ano, foram registradas seis ocorrências de crimes de racismo na Região Metropolitana do Vale do Aço, sendo duas em Coronel Fabriciano, em Timóteo e em Ipatinga.

Os números aumentaram em relação ao mesmo período de 2022, quando foi registrado apenas um caso, em Ipatinga.
Últimas notícias
Big Image
{{ modalData.legenda }}