Divulgação
Operação da Polícia Militar resultou em prisões de suspeitos e apreensões de armas e munição
Silvia Miranda - Repórter Diário do Aço Os últimos registros de violência no município de Timóteo assustaram a região e despertam medo em parte da população desta cidade historicamente considerada tranquila para se viver. A professora do curso de Direito do Unileste, especialista em Ênfase em Direitos Humanos, Educação e Cidadania, Angélica Barroso Bastos, explica que a violência no Brasil é um fenômeno social, de natureza estrutural e sistêmica. E tem como exemplos as profundas desigualdades socioeconômicas, a falta de oportunidades à população mais pobre e a ausência ou ineficácia das políticas públicas sociais e de segurança promovidas pelo Estado.
Há cerca de dez dias, um atentado a tiros e bombas repercutiu em toda a região, diante dos vídeos feitos pelos moradores. Dois jovens morreram. As investigações apontam para a disputa entre gangues rivais dos bairros Alvorada e Bandeirantes, como principal motivação do ocorrido. Posteriormente, foram realizadas algumas operações policiais, resultando em prisões de suspeitos e apreensão de armas e munição.
“Deste modo, a violência costuma ser relacionada à pobreza, à exclusão social, à omissão do Estado, à ausência de serviços públicos urbanos e ao próprio processo de urbanização que cria os enclaves de pobreza e as periferias. A complexidade e o crescimento da violência nas cidades têm levado a considerá-la como o resultado da junção de todos esses fatores”, detalha.
Divulgação
Para Angélica Barroso, nova faceta ligada ao crime organizado interfere no território e se torna um poder paralelo ao Estado
Neste contexto de desigualdade, a professora reforça que há uma “territorialização” da violência. De um lado os locais mais elitizados, ondem moram as classes dominantes e, do outro lado, a periferia, onde predomina a cultura da pobreza e sua dinâmica para reduzir os efeitos devastadores do desemprego e das necessidades habitacionais imediatas.
“Cria-se assim o território da violência, porções do espaço urbano apropriadas pelas organizações criminosas (facções), que exercem seu poder sobre eles, transformando-os em redutos de poder do crime organizado”, ressalta.
Violência entre os jovens
A professora acrescenta que o número de crimes violentos aumenta, principalmente, nas faixas etárias mais jovens, entre 15 e 29 anos. “Historicamente, é a ausência do Estado o fator estimulador da violência criminal, especialmente entre os jovens. É a ausência do Estado na formulação de políticas públicas de geração de emprego e renda que levou o crime organizado a recrutar sua mão de obra entre jovens desempregados das periferias”, argumenta Angélica Barroso.
Números são alarmantesA professora explica também que esse aumento na taxa dos homicídios em Minas Gerais reflete o aumento do número de crimes violentos em cidades do interior, como Timóteo. Com pouco mais de 80.000 habitantes, Timóteo registrou apenas no primeiro semestre de 2021, o total de 11 homicídios, mantendo uma taxa de 12,15 homicídios para cada 100.000 habitantes (na proporção), conforme dados da Diretoria de Estatística e Análise Criminal da Polícia Civil de Minas Gerais repassados por Angélica Barroso.
“Para se ter uma ideia de como esse número é alto, comparamos com os dados da capital, Belo Horizonte, que é de 5,27 homicídios para cada 100.00 habitantes. As duas outras maiores cidades da Região Metropolitana do Vale do Aço também registram dados menores que do município de Timóteo, estando Ipatinga com 2,64 e Coronel Fabriciano com 8,16 mortes para cada grupo de 100.000 habitantes”, aponta.
Cidade dividida
Para a advogada, por se tratar da cidade menos habitada das três principais que compõem a Região Metropolitana do Vale do Aço, Timóteo apresenta a sensação de ser um município tranquilo, o que não corresponde aos atuais índices de criminalidade levantados pelos serviços de segurança pública de Minas Gerais. Além disso, deve ser observado que o município possui, historicamente, uma simbólica divisão geográfica, que separa a cidade em duas: “Timóteo”, correspondendo à parte mais antiga e periférica da cidade, e “Acesita”, correspondendo aos bairros criados no entorno da siderúrgica, antiga Acesita, atual Aperam South America.
E essa divisão no município define o nível de medo da população. A reportagem do Diário do Aço ouviu um morador do bairro João XXIII, que não enxerga nos ocorridos um motivo de medo, pois se trata de casos ocorridos em apenas algumas regiões do município.
Mas para uma moradora do bairro Alvorada, a situação é de muita preocupação. “Estas guerras e rixas com outros bairros acaba afetando todos os moradores. A minha indignação é principalmente por pessoas inocentes, que morreram vítimas de bala perdida. E nós agora vivemos com medo de sair de casa. Infelizmente, Timóteo não é mais aquela cidade tranquila de antes”, lamenta a entrevistada, que não quis se identificar.