Silvia Miranda - Repórter do Diário do AçoA abertura de um loteamento em Coronel Fabriciano revela o cenário de uma antiga propriedade, antes escondida em volta de uma grande fazenda, localizada bem próxima ao centro urbano. O local agora é nostalgia para que o conheceu em seus tempos áureos e curiosidade a quem antes nunca tinha visto. Mas sua atual situação está longe da beleza, sofisticação e imponência da época em que foi construída, para ser residência de um importante pioneiro do Vale do Aço.
A casa no alto de um morro está localizada no loteamento Nova Fabriciano, próximo ao bairro JK, no distrito de Melo Viana. Boa parte de sua estrutura está em ruínas, em vários cômodos há portas e janelas arrancadas, paredes quebradas, muito lixo e vegetação invadindo os espaços. Mas ainda é possível perceber, nos detalhes, traços de sofisticação e elegância da época.
Arquivo Pessoal
Nilza Lentz, filha do pioneiro Joaquim Gomes, relembra os tempos de sofisticação do casarão
Origem da fazenda
O historiador Amir José de Melo conta à reportagem do Diário do Aço, que a casa foi construída para ser residência de Joaquim Gomes da Silveira Neto, à época, na década de 1940, superintendente da Companhia Belgo Mineira em Coronel Fabriciano. A importante empresa da época mantinha um serviço de exploração das matas para produção de carvão, para abastecer os fornos de sua siderúrgica de João Monlevade.
Ainda conforme Amir de Melo, a propriedade foi posteriormente vendida para a Arquidiocese de Mariana, que a revendeu para Fábio Pinheiro, seu último dono. Assim a propriedade ficou popularmente conhecida no município como “Fazenda do Fábio”.
Os tempos douradosNilza Maria Silveira Lentz Monteiro, de 85 anos, é filha do pioneiro Joaquim Gomes da Silveira Neto, responsável por desenhar e construir o casarão.
“O cume de um morro foi aplainado e ali foi construída a linda mansão que nos enchia de orgulho, com ampla visão para o colar de montanhas e para o Vale de Melo Viana. A mão de obra foi inteiramente local. A parte de carpintaria, uma obra de arte, foi realizada por um artesão espanhol que morava em Fabriciano, o ‘Seu Garrido’. O teto era forrado de madeira e tinha intricados desenhos que replicavam os tacos do assoalho”, detalha.
Roner Dawson Barbosa
Propriedade possui vários ambientes e detalhes que revelam sofisticação da época em que foi construída
Nilza Lentz, que teve outros seis irmãos, relata que a construção levou de dois a três anos, e foi inaugurada quando ela comemorou seu aniversário de seis anos, em agosto de 1944, na casa recém-construída. “A casa, linda, limpíssima e muito bem decorada com móveis da ‘Casa Confiança’, a melhor loja de Belo Horizonte. Era objeto de admiração e recebíamos muitos visitantes que pediam para conhecê-la. Ali foram recebidas figuras ilustres da Belgo Mineira e da alta sociedade de Belo Horizonte”, relembra.
A mudança de ManderleyA família de Joaquim Gomes teria residido por cerca de dez anos na fazenda e depois se mudou para Belo Horizonte. Por algum tempo eles visitavam a fazenda nas férias, até ser vendida para a Mitra de Mariana. A perda da casa deixou a família entristecida, mas eternizou os bons momentos ali vividos, na propriedade que eles chamavam de Manderley, nome inspirado em um livro.
Paulo Valadares
A casa está localizada no alto de um morro no loteamento Nova Fabriciano
O sonho de restauraçãoPara a antiga moradora, a decadência da fazenda é motivo de tristeza. Ela sonha com a restauração e transformação da estrutura em um centro cultural, levando o nome do pai. Na página do Facebook “Fabricianense Memória Viva”, vídeos e fotos publicados protestam contra o atual estado da propriedade. Um abaixo assinado foi organizado para solicitar a preservação do local.
Casarão será leiloado
Em nota enviado ao Diário do Aço, a administração municipal de Coronel Fabriciano informou que o imóvel atualmente pertence ao município. “A área entrou como contrapartida, em favor da prefeitura, durante a execução do empreendimento particular inserido na Operação Urbana Consorciada (OUC). O terreno em que se encontra a fazenda será leiloada. O valor arrecadado será investido na complementação do recurso para a obra de pavimentação da estrada que vai ligar o Distrito Industrial, passando pela Apa da Biquinha, no bairro Belvedere, à BR-381”, explica o governo.