03 de agosto, de 2023 | 12:00
Opinião: A rebelião das massas e seus líderes
Marcos Paulo dos Reis Quadros *
Um povo de cordeiros sempre terá um governo de lobos”. Indigesta e realista, a frase por vezes atribuída ao poeta Victor Hugo vem à mente quando ouvimos os costumeiros protestos acerca da qualidade dos nossos líderes políticos. Mais conveniente do que apenas criticar seria notar que os políticos de algum modo espelham a sociedade que representam e surfam na onda das suas mazelas.São, os líderes de hoje, frutos do contexto que os rodeia. Quem com eles convive a ponto de superar a aura que sai dos formalismos palacianos rapidamente atesta que se trata de gente como a gente”, com méritos e defeitos que enxergamos a rodo no cotidiano das ruas. Não é à toa que ignoramos exemplos atuais de um Marco Aurélio, de um Carlos Magno, de um Pedro II. Nosso mundo já não é o deles.
Há mais do que isso, porém. As elites políticas historicamente se autorreproduziam em círculos quase impenetráveis, gerando sucessores que passavam por iniciações” que lhes conferiam formação baseada em cultura e hábitos fundamentais compartilhados. Essa espécie de aristocracia gerava bons e maus frutos, mas havia pouco espaço para surpresas. O líder de então se talhava desde cedo para conduzir os destinos da sociedade antes de propriamente representá-la. Logo, dela se diferenciava por biografia e dever de ofício.
As elites políticas historicamente se autorreproduziam
em círculos quase impenetráveis, gerando sucessores”
Isso está praticamente extinto. A Rebelião das Massas, o clássico livro de Ortega y Gasset, lança luz sobre a mudança. Segundo o espanhol, assistimos ao triunfo de uma hiperdemocracia em que a massa atua diretamente e sem lei, por meio de pressões materiais, impondo suas aspirações e seus gostos”. Já que o desejo da massa é uma ordem, os eleitos tratam de dizer exatamente o que ela quer ouvir e de se comportar do modo como ela se comporta. Tal é a explicação para que os temas de fato cruciais raramente sejam abordados em campanhas eleitorais. Tal é a justificativa para a ascensão das bancadas da selfie” e dos parlamentares que agem como alunos de ensino médio. Como nos dizia Gasset, o número de pessoas cuja mente está à altura dos problemas que temos é cada vez menor”.
Adicione-se óbice do recrutamento, que chamarei de lei da atração seletiva”. Dada a predominância de certos perfis culturais no ambiente político, as pessoas mais qualificadas tendem a buscar sucesso em áreas menos expostas às más influências. Para o mais, os medíocres cooptam seus iguais devido ao temor da competição ou a mera limitação da rede de contatos que dispõem. Assim, a política deixou de ser atraente e acessível para muitos daqueles que verdadeiramente poderiam produzir resultados para a sociedade.
Moral da história: no formato das democracias atuais só poderemos colher aquilo que plantamos. A qualidade dos nossos líderes reflete a sociedade que temos. Importa repensarmos a alimentação desse mecanismo, já que o cenário alternativo seria criar as condições para que as aristocracias de outrora renasçam. Há disposição para isso?
* Cientista político e gerente acadêmico da Estácio BH)
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Tião Aranha
03 de agosto, 2023 | 21:14Feliz citação a memória de Victor Hugo. Político e poeta. Já passou da hora de repensarmos a nossa Democracia. A França sempre foi o berço do iluminismo. O povão deveria participar mais do debate político. Nunca vi um vereador visitar uma escola deste país, e nem conversar em política com os jovens. Tudo que não renova, envelhece. Risos”