Morre o ex-prefeito de Ipatinga, Chico Ferramenta

04/07/2023 às 12:34
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O exprefeito e ex-deputado federal Chico Ferramenta tinha 64 anos

O corpo do ex-prefeito de Ipatinga, Francisco Carlos Delfino, Chico Ferramenta, de 64 anos, será velado das 7h às 15h desta quarta-feira (5), no Ginásio do Centro Esportivo e Cultural 7 de Outubro, no bairro Veneza. Está agendada para as 13h uma celebração ecumênica. Já o sepultamento está programado para as 16h, no Cemitério Parque Senhora da Paz, no bairro Veneza II.

Chico morreu por volta de 12h de terça-feira (4), no Hospital Márcio Cunha, após quatro meses de idas e vindas de internações hospitalares.

Desde o mês de março, o ex-prefeito, ex-deputado estadual e ex-deputado federal lutava para viver. Internado inicialmente para tratar uma pneumonia, ele teve uma piora progressiva no padrão respiratório e da função renal e não resistiu mais ao tratamento a que era submetido.

A nota oficial do falecimento, assinada pela esposa, Cecília Ferramenta e os filhos Frederico, Lucas e Wladimir, foi divulgada às 12h47: “É com profunda tristeza e pesar, que comunicamos o falecimento do nosso Chico Ferramenta, ocorrido nesta terça-feira (4 de julho), às 12h04, no Hospital Márcio Cunha, em Ipatinga. Agradecemos a todos pelas orações e o eterno carinho. Chico foi, acima de tudo, um companheiro e amigo. Nossa eterna gratidão”.

Líder sindical histórico, Chico Ferramenta foi prefeito de Ipatinga por três mandatos, o primeiro entre 1989 e 1993 e os outros dois entre 1997 e 2005. Ele também foi deputado estadual, de 1987 e 1988, além de deputado federal, entre 1995 e 1996.
Divulgação
Chico Ferramenta faleceu às 12h04 desta terça-feira

Notas de pesar

O atual prefeito de Ipatinga, Gustavo Nunes (PL), lamentou a morte de Chico e decretou três dias de luto oficial. Já a administração municipal, em nota, destacou que “Chico deixa um legado bastante significativo, reconhecido por atos marcantes de luta e dedicação à causa pública, sendo personalidade importante na trajetória do desenvolvimento de nossa cidade. Neste momento de pesar, expressamos nossas condolências à família e amigos, compartilhando a dor pela perda deste homem público cujo protagonismo ajudou a escrever páginas de destaque de nossa história”.

O PT, partido de Chico ao longo de toda a vida, se solidarizou neste momento. “Dirigentes e militantes do PT manifestam a sua solidariedade à esposa Cecília Ferramenta, aos filhos Frederico, Lucas e Wladimir, demais familiares, aos amigos e companheiros de Chico Ferramenta neste momento de imensa tristeza e dor”.

Nas mídias sociais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva relembrou a história de Chico Ferramenta. “Foi um grande líder sindical [...], mas antes de tudo um exemplo de dedicação de uma vida ao povo brasileiro. Recebo com muita tristeza a notícia de sua morte. No ano passado, pudemos estar juntos no comício que fizemos em Ipatinga. Sua trajetória é um exemplo de força de vontade por um mundo mais justo e igualitário. Meu abraço fraterno aos familiares, companheiros do PT de Minas e amigos de Chico”.

Veja mais:
-Lula lamenta morte de Chico Ferramenta
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Trajetória política de Ferramenta em um momento de transformação do Brasil



Em 1979 o Brasil estava em plena transição política, da ditatura militar para a democracia. Foi nesse Brasil que começava a fervilhar que Francisco Carlos Delfino, nascido em 8 de janeiro de 1959, terminava na Escola Técnica Federal o curso de Técnico em Química e passou a cursar Matemática em uma faculdade particular. A grana era curta e, aconselhado por amigos, tomou uma decisão que mudaria o curso da sua vida: tentar vaga como estagiário na Usiminas, em Ipatinga. Passado o estágio, foi contratado como funcionário do Centro de Pesquisas da Usiminas. Nesse meio tempo casou-se e trouxe para Ipatinga a esposa, Maria Cecília Ferreira Delfino.

Foi no Centro de Pesquisas que Chico entrou em contato com militantes das Pastorais Operárias. Ali tinha contato com Ivo José e acabou se interessando pelas suas ideias. A presença dos padres operários no Vale do Aço já tinha sido alvo de inquérito policial. O bispo Marcos Noronha, os padres de Man, Cícero, Bertolo e Nazareno foram investigados pelos militares em função da pregação que faziam. Ao fim da década de 1970, uma nova geração de freis entra em cena – Jaime e Eduardo, firmes na luta para melhorar as condições de vida e trabalho do povo pobre. Eles foram decisivos na formação da consciência política naquela época.
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Primeira posse como prefeito de Ipatinga, em 1988

Nesse mesmo tempo surgiu um projeto ambicioso de Chico: disputar as eleições do Sindicato dos Metalúrgicos, o poderoso Sindipa, que sempre fora controlado de forma indireta pela Usiminas.

Chico tinha duas características que faziam com que se destacasse: era um grande jogador de xadrez – num torneio interno promovido pela Usiminas, sagrara-se campeão, vencendo engenheiros e chefes, que se consideravam superiores aos demais trabalhadores, naquele pequeno mundo – e um excelente orador, que sabia enredar as palavras e colocar emoção na sua fala. Impressionava a todos pelo seu discurso.

Em 1984, em plena campanha salarial, tomou a palavra na assembleia da categoria e fez um discurso que impressionou profundamente a todos os presentes. Logo, é escolhido por unanimidade presidente da chapa Ferramenta, disputando a eleição sindical do ano de 1985. Sua chapa venceu no primeiro turno, mas acabou derrotada ao fim, pela pressão da Usiminas, que unificou todos os oponentes.

Após as eleições, os componentes da chapa Ferramenta foram sumariamente demitidos pela Usiminas, o que causou uma revolta silenciosa entre os trabalhadores. Esse sentimento não podia ser expressado no ambiente sindical. Mas na política, no voto, era possível.

Da vida sindical ao PT foi um passo. Candidata-se a deputado estadual em 1986, recebendo votação consagradora, o segundo deputado mais votado em Minas Gerais. Logo em seguida, em 1988, vence as eleições para prefeito de Ipatinga, onde realizaria três administrações consagradoras. Ele ainda seria eleito, posteriormente, deputado federal.
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Época das grandes campanhas: Lula, Maria da Conceição Souza (mãe do desenhista, jornalista e escritor Henfil) e Chico Ferramenta


A gestão que alçou Chico Ferramenta à lendária carreira política



À frente da Prefeitura de Ipatinga a partir de 1989, Chico revolucionou a cidade, mesclando servidores competentes do corpo técnico da própria prefeitura com profissionais de ponta trazidos de diversas regiões do país. As finanças municipais, que eram caóticas, foram organizadas. As dividas, equacionadas; as obras que estavam paralisadas foram retomadas; os salários pagos em dia.

Foram colocados em prática mecanismos de gestão transparentes e participativos, que aproximaram a prefeitura da população e deram espaço para a opinião de todos. O orçamento municipal passou a ser discutido, aprovado e acompanhado pela população, que discutia também tarifas do transporte coletivo, de água e esgoto. A elaboração participativa do orçamento tornou-se uma marca registrada do PT em nível nacional, e foi replicada em praticamente por todas as prefeituras governadas pelo partido.

É dessa época a obra do “mergulhão”, que uniu os bairros Horto e Bom Retiro; a construção da Policlínica e do Pronto Socorro; a instalação do Parque Ipanema, sob os traços do paisagista Burle Marx; do Ginásio do Centro Esportivo e Cultural 7 de Outubro (onde seu corpo é velado); da revitalização do Estádio Ipatingão e muitas obras de pavimentação por toda a cidade.

Chico possuía um tino administrativo inigualável. E surpreendente, também, pois não tivera ainda nenhuma experiência administrativa. Sabia articular politicamente, recebendo vereadores de diversos partidos, ouvindo seus pleitos e traçando normas para construção de sua base política.

Sua primeira gestão foi marcada também por um encontro inusitado. De um lado, a Diretoria da Usiminas, liderada por Rinaldo Campos Soares e, do outro, Chico e sua equipe. Apesar dos conflitos anteriores, foi construído um clima de respeito entre as partes, e a cidade, colocada em primeiro lugar.

Deputado federal

Ao deixar a prefeitura, Chico foi conduzido à Presidência do PT mineiro, onde dedicou-se a construir a unidade do partido, para que este se fortalecesse e conquistasse mais espaço político no estado. Nesse momento, torna-se um líder estadual, reconhecido em toda Minas Gerais, sendo sua experiência administrativa discutida e aproveitada pelo Partido em todo o estado.

O passo seguinte seria sua candidatura vitoriosa a deputado federal, quando foi eleito em 1994. Na Câmara Federal, tem sua visão do mundo político e do país amadurecida. Entretanto, seu destino era governar Ipatinga e entre os anos 1996 e 2004 Chico foi novamente eleito e, posteriormente, reeleito prefeito. Deu continuidade ao projeto Novo Centro, iniciado nos anos anteriores pelo prefeito João Magno. A antiga “Rua do Buraco”, que abrigava famílias em áreas de risco na área central, foi inteiramente reurbanizada, e as famílias reassentadas no bairro Planalto, de forma humana e participativa.

O Morro do Sossego foi também urbanizado, e ainda tivemos a construção da avenida Londrina, articulando a área central com outros eixos rodoviários. As partes altas da cidade receberam obras de infraestrutura, iniciando o “conserto” de cima pra baixo.

O Pronto Socorro transformou-se em Hospital Municipal e a qualidade de vida dos ipatinguenses aumentou de forma significativa.

O último ano de Chico Ferramenta na prefeitura coincidiu com a chegada de Lula à Presidência da República. Prefeitos como ele contribuíram para consolidar a imagem do PT como um partido capaz de conduzir o Brasil para o desenvolvimento socioeconômico equilibrado, justiça e equidade.
Wôlmer Ezequiel/Arquivo DA
Carreata na campanha eleitoral de 2008

Processos

Ao fim do seu terceiro mandato, Chico já apresentava sinais evidentes de cansaço. Os anos de poder, com viagens, reuniões, articulações, vitórias e derrotas, acabaram deixando feridas e marcas que se abririam com o passar dos anos. Mesmo esgotado pelo peso dos 12 anos à frente do município, Chico ainda disputaria a prefeitura no ano de 2008, concorrendo com Sebastião Quintão. Venceria o pleito. Mas não tomaria posse, impedido pela Justiça.

Com o passar dos anos, avolumaram-se os processos judiciais contra ele e sua equipe. Tais processos não se referem à corrupção ou a desvio de recursos públicos. São relacionados a falhas administrativas, daquelas que podem ocorrer em qualquer administração. O maior deles refere-se a convênio realizado com o governo federal, em 1991, para execução de obras no município.

Todas as obras previstas nesse convênio foram executadas. E a preço de mercado. Não houve desvio de recursos ou superfaturamento. A Justiça alegou que o contrato que abrigou a execução das obras já tinha perdido a validade e, por isso, considerou que as obras foram feitas sem licitação. Porém, a decisão de utilizar o contrato para fazer as obras foi amparada em pareceres de diversos advogados, entre os quais o escritório de Paulo Neves de Carvalho, uma lenda no Direito Administrativo. Mas nada adiantou.

O peso recaiu sobre seus ombros e da sua equipe.
Contribuíram para isso seu ceticismo e indiferença em relação aos resultados das ações judiciais que lhe foram movidas, pois tinha certeza que fizera a coisa certa. Seus inimigos souberam articular ações bem pensadas, que lhe retiraram o ânimo para o combate.

Sua mulher, Cecília Ferramenta, foi quem deu continuidade à sua carreira, defendendo seu legado. Com isso, o PT chegou novamente à Prefeitura de Ipatinga em 2012. Hoje vereadora, acompanha a administração municipal.

* O resumo da história política de Chico Ferramenta foi feito pelo economista e empresário e ex-secretário municipal, Antônio Nahas Júnior, a pedido do Diário do Aço
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