22 de maio, de 2023 | 08:00
A dor e as marcas de uma vítima abusada pelo avô
(Silvia Miranda - Repórter do Diário do Aço)O mês de maio é dedicado à campanha de abuso e exploração sexual. E nesta matéria especial, o Diário do Aço traz a entrevista de uma vítima que foi abusada por quase seis anos por um membro da própria família. Na maior parte dos casos registrados Brasil afora, a vítima é abusada por um parente próximo ou por uma pessoa muito ligada à família, quem tem acesso livre à residência. Por motivos óbvios e para a segurança da vítima, não iremos revelar sua identidade e cidade em que ocorreu o crime.
Ao começar a entrevista, eu, como repórter, pedi desculpas por fazê-la lembrar do assunto, mas expliquei como a matéria é importante para alertar outros pais e jovens. Por um tempo eu pensei em não falar mais sobre isso, deixar pra trás e tentar esquecer, mas no momento que faço isso eu permito que pessoas como ele continue fazendo outras vítimas, por mais que no fundo seja muito doloroso falar, eu serei cúmplice (se não o fizer). Claro que não é errado não querer falar, eu também não gosto de falar, mas mesmo não querendo eu preciso ajudar outras pessoas”, diz a vítima.
Como os abusos começam
A jovem, hoje com mais de 20 anos, conta que os abusos começaram por volta dos sete anos de idade, quando a família precisou morar um tempo na casa dos avós. O avô, chefe de uma família modelo tradicional, era policial exemplar, admirado, acima de qualquer suspeita. E o crime ainda perdurou até os 12 anos da menina, quando então, devido às mudanças no corpo, ela passa a ter vergonha de ser tocada e começa a impedir, mas nesta época começaram então os abusos psicológicos.
Ele me dizia sempre: não conta pros seus pais porque eles não vão entender, vão achar que eu estou fazendo coisa de adulto, mas eu estou fazendo uma coisa que é boa pra você. E depois ele ficava comentando pra eu ouvir, que não poderia ser preso porque era velho, era advogado e policial, falava das armas que tinha. E eu não podia demonstrar medo, mas por dentro eu tinha muito medo”, relembra.
O medo do avô fazer outras vítimas
E quando o avô começou a se aproximar de outras primas, a vítima tentava impedir por medo que elas passassem pela mesma situação, mas ele a ameaçava com olhares fortes, demonstrando superioridade e poder. Então ela encontrou uma outra forma de alertar a tia e primas, sem contar o que realmente tinha acontecido. Eu não queria fazer isso, porque eu tinha uma admiração pelo meu avô, mas eu precisava proteger as minhas primas. Então eu fiz uma coisa que me doeu muito, eu comecei a falar mal do meu avô pra elas. Eu não queria fazer isso, eu gostava dele e dentro de mim eu ficava pensando que talvez o que ele fez comigo não era tão errado, mas eu não queria que as minhas primas passassem pela mesma coisa que eu sofri”, conta.
Tentou contar de várias formas
A menina conta como tentou falar sobre o crime praticado pelo avô para a família por diversas vezes e as pessoas não entendiam e ela se sentia culpada por tentar descontruir a imagem bonita e exemplar que todos tinha do ancião. Porém, anos mais tarde, surgiram revelações sobre outras vítimas do policial. E foi então que os irmãos da menina foram até ela para contar e perguntar se ela também tinha sido abusada pelo avô.
A revelação para família
A exposição total para a família ocorreu aos 20 anos, quando o irmão da vítima conversou com ela e perguntou sobre os abusos, a menina então confirmou tudo e o irmão procurou a todos para relatar toda a situação e enfrentar o avô. A partir deste momento, a vítima foi procurada pelos tios, alguns comovidos e pedindo desculpas pelos erros do pai, outros dizendo que pensavam não ter sido muito grave ou ter acontecido só uma vez.
Mas foram quase seis anos de abusos sofridos e cicatrizes deixadas para sempre. No entanto, a menina só encontrou a libertação depois de se abrir. E desde que resolvi falar a minha vida tem sido muito melhor, tem sido incrível e eu vejo como toda a dor que sentia era justificável. Tirou essa confusão da minha cabeça, hoje tenho certeza que não foi pouca coisa e principalmente que não foi culpa minha. Antes a minha essência estava presa numa bola de ferro, eu não tinha vida, não tinha alma de verdade”, conta.
A decisão da denúncia
Depois da revelação à família, a menina também tomou coragem pra denunciar o caso à Justiça, juntamente com testemunhas e outras vítimas. Ela conta como esta decisão foi importante para dar forças e continuar seguindo a sua vida. Porque ele não fez só comigo, tinha várias outras vítimas e eu precisava fazer alguma coisa. Eu era a única pessoa que tinha respaldo pra enfrentá-lo. Por mais que eu não quisesse, que eu tinha medo, não era justo deixar impune. No momento que entendi que ele realmente estava errado, não podia deixar as coisas ficarem do mesmo jeito. Eu estava me sentindo fraca, pequena, pois estava deixando que um criminoso ficasse impune. O medo é algo natural, mas a coragem é uma escolha”, conclui.
Psicóloga explica como identificar sinais de abuso
Márcio Duarte/Departamento de Comunicação PMCF
Luciene Silva de Souza alerta que a violência pode trazer vários prejuízos no comportamento
Luciene Silva de Souza alerta que a violência pode trazer vários prejuízos no comportamentoLuciene Silva de Souza, psicóloga e coordenadora do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), explica que a violência sexual pode trazer vários prejuízos no comportamento e nas relações interpessoais a longo prazo. Compromete inclusive o desenvolvimento da criança ou adolescente abusado. A curto prazo as principais consequências são: comportamento de automutilação, depressão, ansiedade, dentre outros transtornos, caso a vítima não receba o acompanhamento adequado”, detalha.
Ainda conforme a especialista, para proteger os filhos, os pais devem estar atentos a mudanças bruscas de comportamento, como apresentar medos que não tinham anteriormente. Se a criança passa a ficar mais quieta, tristonha ou agressiva de repente. Existem também mudanças no sono ou na alimentação, passando a comer ou dormir mais ou menos do que de costume, sem ter ocorrido nenhuma mudança na rotina diária. Outros sinais importantes e muito presentes nestes casos são as regressões de comportamentos, como, por exemplo, voltar a fazer xixi na cama e ter crises de choro sem motivo aparente”, alerta.
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Ana Lúcia
21 de maio, 2023 | 21:16Nossa luciene quanta saudade vc e um ser humano incrível vc foi minha professora de educação infantil nossa saudade fiquei muito feliz em ver uma matéria sua isso alerta muitas famílias parabéns”
Sérgio Antônio Dias
21 de maio, 2023 | 13:51Excelente matéria, parabéns pela reportagem que certamente vai ajudar muito outras vítimas.”