19 de abril, de 2023 | 14:45

Livro busca vacinar o Brasil contra a sanha do negacionismo

“Memórias de um tempo obscuro” (Editora Contexto), novo livro do jornalista e escritor Ricardo Viveiros, que já contribuiu com artigos para o Diário do Aço, reúne textos publicados originalmente pelo autor, de 2018 a 2022, na Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo (Estadão) e depois em outros veículos da mídia impressa e digital de todo o Brasil e de países como Argentina, Colômbia, Estados Unidos, Portugal, Áustria, Itália, Rússia, Paquistão e China.

Os textos retratam e fazem firme análise do processo comportamental e eleitoral que levou Jair Bolsonaro à Presidência da República e do período no qual seu governo negou a ciência, negligenciou a covid-19, fez pouco caso da cultura e da educação, envolveu-se em escândalos, conspirou contra a democracia e provocou imensa e turbulenta polarização.

O conteúdo contribui para que o leitor entenda de modo mais amplo e didático o cenário no qual a população brasileira dividiu-se entre os “contra” e os “a favor”. Como observa Viveiros, na introdução da obra, “tomaram força temas relevantes que, sob radical confronto e não salutar debate, permitiram surgir e aumentar uma ‘Cultura do ódio’, título de um dos artigos. A moderna tecnologia da comunicação tornou-se arma poderosa nesse embate, dando espaço às fake news que comprometem a verdade”, indica.

O autor avalia que o período entre 2018 e 2022 pode ser denominado bizarro. “Foi difícil esclarecer aos colegas da imprensa internacional o que significam expressões como mimimi, tchutchuca e, o mais constrangedor, imbrochável”, recorda. Tal desafio semântico mostrou-se ainda mais penoso se considerado o fato de que os estranhos termos foram pronunciados em um país que não pode ser engraçado no contexto de seus problemas, pondera Viveiros, enumerando: cerca de 700 mil mortos pela covid-19, mais de 30 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, forte desemprego, violência urbana e rural, incluindo preconceitos e discriminações contra negros, mulheres, LGBTQIAP+, indígenas e outros grupos, bem como baixa cobertura e qualidade no ensino e incentivo à cultura, muitos ataques à natureza, elevada carga tributária e altos índices de corrupção.

Lembrando que acompanha de perto os últimos 50 anos do Brasil e os problemas culturais e educacionais que levam a sociedade a buscar sempre um salvador da pátria, o jornalista enfatiza que “o país sobrevive na coragem e resiliência de um povo único, que mescla dor e alegria como algo natural”. O livro ressalta as peculiaridades nacionais, defende a democracia participativa, preconiza a liberdade e responsabilidade de expressão, condena o populismo e afirma que “a imprensa existe para governados, não para governantes”.

O desabafo de Viveiros
No prefácio do livro, o cientista social José de Souza Martins, mestre, doutor e livre-docente em Sociologia pela USP, vencedor por três vezes do prêmio Jabuti e que já ocupou a Cátedra Simón Bolivar da Universidade de Cambridge (Inglaterra), ressalta que Viveiros cumpre a função crítica própria desse tipo de literatura, que é a de estranhar.

“Reúne uma extensa coleção de estranhamentos para que, por meio deles, nos estranhemos e, também, estranhemos esse cotidiano sufocante, cansativo, desanimador que nos esteriliza a consciência, a capacidade de perceber os absurdos disfarçados nas dobras da irresponsabilidade política e da alienação social”, menciona.

O texto, destaca Martins, flui como uma conversa casual, bem brasileira. “Viveiros desabafa, expõe seu desconforto com o estapafúrdio, o ilógico, o descabido, o que não chega a lugar nenhum. Traduz em palavras certas e em sequência correta o desdizer que diz e revela episódios da nossa perdição, dos nossos silêncios”, reforça. E conclui: “Coisa do inconformista que ele é, o inconformismo como missão e como chamamento. Esperança de quem sabe que cada dia e todos os dias começam com a luz da aurora para que o discernimento possa vencer a escuridão”.

Sobre o autor
Em uma das orelhas do livro, a Editora Contexto publica alguns relatos de personalidades sobre a atuação de Ricardo Viveiros ao longo de sua extensa carreira: “É raro, entre muitos, os que - como você - conseguem prender a atenção do leitor” (Carlos Drummond de Andrade); “Ricardo, você é meu companheiro de poesia e de esperança” (Thiago de Mello); “Viveiros conta, os fatos se abrem” (Ignácio de Loyola Brandão).

Ricardo Viveiros é jornalista e escritor, com passagem por jornais, revistas, emissoras de rádio e TV. Foi repórter, editor, diretor de redação, âncora, comentarista político e econômico, articulista e correspondente internacional. É autor de mais de 50 livros em diferentes gêneros (poesia, história, artes, biografias, infantojuvenis e reportagem), lecionou por 25 anos e tem vários prêmios nacionais e internacionais. A Editora Contexto está presente desde 1987 no mercado editorial brasileiro. Publica obras voltadas para a universidade e o público em geral. Mais informações no portal: www.editoracontexto.com.br.

Divulgação
A capa do livro foi criada pelo designer Gustavo Vilas Boas sobre imagem do advogado, escritor e fotógrafo Eduardo MuylaertA capa do livro foi criada pelo designer Gustavo Vilas Boas sobre imagem do advogado, escritor e fotógrafo Eduardo Muylaert
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