10 de fevereiro, de 2023 | 15:00
Crônica: Sai, desgraça!
Nena de Castro *
Ao chegarem ao campo de concentração em Auschwitz, Alemanha, depois de uma tormentosa viagem de trem sem receber água, trancados como animais os prisioneiros, empurrados pelo guardas, são separados: homens em uma fila, mulheres e crianças em outra. Um homem de olhos frios e dominadores, o médico Joseph Mengele, espera. Ele pergunta quem está doente e indica o lado esquerdo. Um oficial avisa: quem tem mais de 14 anos e menos de 40, fique aqui. Acima de 40, vá para a esquerda.Idosos, mães com bebês, crianças... Edith segue a mãe. Mengele segura seu ombro e diz: você verá sua mãe em breve. Ela vai apenas tomar um banho”. Impelidas para a direita, as mulheres chegam a uns barracões baixos e são rodeadas por mulheres com vestidos listrados mal cortados.
Aprendem que elas são as fiscais dos alojamentos. - Quando verei minha mãe? Me disseram que a veria logo - pergunta Edith a uma fiscal. A outra aponta para a fumaça subindo de uma das chaminés visíveis do campo e diz: - Sua mãe está queimando lá dentro. Fale dela no passado.
Edith nasceu na Hungria, numa pequena cidade chamada Kassa. Seus pais e mais duas irmãs eram o seu universo familiar. Eram judeus. Por isso a prisão, a viagem como gado até a Alemanha, a entrada no campo de concentração. A fome, as humilhações, o trabalho forçado, os fornos que funcionavam ininterruptamente queimando seres humanos, tudo isso causado pelo ódio da dita raça superior”.
Os idiotas que se intitulam neonazistas deviam ler (se é que
sabem), as histórias horripilantes dos campos de concentração”
Então á noite Mengele entra no alojamento, para escolher prisioneiras talentosas para diverti-lo. As garotas de perto, que sabiam que ela era ginasta e bailarina, a empurram para a frente. E Mengele ordena que dance. Havia prisioneiros músicos que tocam Danúbio Azul” e depois, Romeu e Julieta” e ela dança. Ao fim, Mengele lhe atira um pedaço de pão. Certo dia, escapou de ser estuprada por Mengele, por que o telefone toca e ela corre para o barracão das prisioneiras e por milagre não foi mais procurada.
Pois é, passou junto com a irmã Magda por tantas coisas terríveis, foram levadas a outros lugares, e finalmente libertadas pelos americanos. Osso e pele, com a coluna vertebral quebrada, quase estuprada por um soldado ianque bêbado que depois lhe pediu perdão e tornou-se uma espécie de protetor, conseguem voltar de trem para casa, na cidade que agora pertencia à Tchecoslováquia. Cumpre dizer que ainda eram consideradas vermes, parasitas, enfim o inimigo, e tiveram que viajar em cima do vagão com outros sobreviventes, todos esqueléticos e cheios de feridas, num espetáculo dantesco. Encontram a irmã Klara, que era violonista. Ela ficara na casa de seu professor, disfarçada como não judia. Depois fora para um convento, como freira, até ser descoberta e fugir. Conseguiu, em troca de um recital, que os russos a levassem até a terra natal, limpou a casa semidestruída e lá ficou, vivendo de apresentações musicais, até a chegada das irmãs.
Edith se casou com um rico eslovaco, fugiram dos comunistas e foram para os Estados Unidos sem nada, onde comeram o pão que o diabo amassou até conseguirem se estabelecer. Depois de criar os filhos, ela entrou para a faculdade e se tornou doutora em Psicologia sempre com as melhores notas; passou a atender pessoas com estresse pós-traumático e ajudou milhares de ex-combatentes, prisioneiros e afins. Essa história, ela conta em seu livro A Bailarina de Auschvitz”.
Há muito mais para ser dito, mas paro por aqui, respondendo a você que quer saber a causa dessa crônica. Eu poderia escrever sobre flores, estrelas, alegria. Mas sempre é preciso recordar essa merda que foi o terceiro Reich, com Hitler e seus asseclas fazendo misérias com seres humanos. Lembrar Joseph Mengele, o Anjo da Morte”, fazendo experiências cruéis com mulheres grávidas e cerca de 3.000 gêmeos. Sem contar que o desgraçado escapou de Nuremberg e chegou a morar aqui no Brasil, via Argentina, por 17 anos. Morreu de ataque cardíaco numa praia em Bertioga e depois os exames feitos por especialistas confirmaram que era ele.
Então, os idiotas que se intitulam neonazistas deviam ler (se é que sabem), as histórias horripilantes de Auschvitz, Treblinka, Sobibor Belzec, Madjalnek e outros, onde milhões de judeus, ciganos e outras minorias foram exterminados. Aprendam pelo amor de DEUS, que ódio só resulta em violência, dor e morte. E aprenderam que o Brasil quer paz. Afeeeee! E nada mais digo.
* Contadora e encantadora de histórias
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