07 de outubro, de 2022 | 14:00
O resgate do conceito de verdade como força normativa é crucial no combate às fake News
Ricardo Fabrino Mendonça * Viviane Gonçalves Freitas ** Camilo de Oliveira Aggio *** Nina Fernandes dos Santos ****
O fenômeno contemporâneo das fake news se tornou tema de interesse para pesquisadores de diversas áreas, que se debruçam sobre ele de forma a elaborar estratégias para combater a desinformação. O artigo Fake news and the contemporary repertoire of political action, publicado recentemente na revista Dados. No texto, os professores exploram o conceito de fake news sob a perspectiva do confronto, questionando por que as estratégias usadas para combatê-las não estão surtindo os efeitos desejados.O artigo é conceitual e abrange o tema por meio da revisão da literatura sobre desinformação, lançando a hipótese de que as fake news devem ser pensadas como práticas que compõem o repertório contemporâneo da política. Fabrino explica que as pessoas compartilham notícias falsas não apenas porque são enganadas pelas informações que recebem, mas porque o cenário político está tão radicalizado que o conceito de verdade perdeu força normativa.
As pessoas repassam as mensagens que recebem, muitas vezes, porque, para elas, tanto faz se aquilo é verdade ou mentira. A ideia de checar a informação tem poucos efeitos, e as pesquisas atuais sobre o tema mostram que rebater fake news faz pouca diferença, ou seja, não contribui efetivamente para que as pessoas parem de compartilhá-las.
O cenário político atual tem responsabilidade no enfraquecimento da ideia de verdade na medida em que transforma o compartilhamento sistemático de informações em parte de um jogo político deteriorado. As redes orgânicas de grupos de família nas redes sociais e nos aplicativos de troca de mensagens explicitam bem como isso ocorre. Nelas, há sujeitos que se comunicam cotidianamente em grupos que não discutem política naturalmente. Então, a informação chega, e eles simplesmente compartilham, sem nenhuma preocupação com a verificação dos fatos. Isso em um cenário em que a verdade perde força normativa e deixa de ser um valor fundamental que baliza a política e a informação.
O jornalismo caça-cliques muda os
critérios de validação do que é informação”
O jornalismo sempre teve papel de validação das informações, mas o cenário político radicalizado o torna cada vez mais desacreditado. A relativização da verdade faz as pessoas deixarem de acreditar no jornalismo e em outras fontes oficiais de informação. 'Informações' passam a ser legitimadas por sua capacidade de obter endossos e visibilidade.
Alguns antídotos poderiam ajudar a combater a circulação de desinformação nos âmbitos jornalístico, profissionalizante e educacional. As estratégias jornalísticas e profissionalizantes estão relacionadas aos institutos de checagem e fiscalização do que é divulgado. As educacionais, por sua vez, referem-se ao letramento digital: as pessoas precisam aprender que nem toda informação que recebem é verdadeira.
Há quem defenda que a educação midiática poderia ocorrer na escola. Há quem defenda soluções tecnológicas, como restringir a rapidez da circulação da informação e a criar mecanismos técnicos para constranger o espalhamento de fake news, como a limitação do número de compartilhamentos das mensagens nos aplicativos, por exemplo. Formas automatizadas para detectar a circulação de fake news estão sendo estudadas pelos pesquisadores da Ciência da Computação.
O professor acrescenta que o jornalismo também deve deixar de se preocupar com o número de cliques, pois isso muda a exigência de rigor para a construção da informação por parte dos profissionais. O jornalismo caça-cliques muda os critérios de validação do que é informação. A notícia passa a ser aquilo que circula mais e que tem mais gente compartilhando, independentemente dos critérios de validação vinculados às instituições.
A circulação de fake news em períodos
eleitorais ou de consultas populares está
vinculada ao descrédito de instituições”
Outro antídoto para as fake news diz respeito às medidas legais como a retirada, por ordem judicial, de conteúdos entendidos como desinformação, além da desmonetização de canais que divulgam esses conteúdos. É importante termos em mente que apenas a combinação das medidas legais, pedagógicas e técnicas será capaz de ajudar a reduzir a circulação de desinformação. Não se luta contra as fake news combatendo cada mentira isoladamente. Isso é enxugar gelo. É necessário mudar o cenário que possibilita o compartilhamento sistemático de desinformação.
Risco para a democracia - As reflexões que culminaram no artigo Fake news and the contemporary repertoire of political action tiveram início nas eleições presidenciais de 2018, quando o Brasil foi bombardeado por desinformação durante a campanha eleitoral. O fenômeno havia ocorrido anteriormente durante o pleito que elegeu Donald Trump, nos Estados Unidos, e na campanha que culminou no Brexit [saída da União Europeia], no Reino Unido.
A circulação de fake news em períodos eleitorais ou de consultas populares está vinculada ao descrédito de instituições e da própria democracia. É necessário um trabalho de valorização republicana das instituições e da própria democracia para que a circulação de desinformação seja entendida como um problema. Esse cenário de erosão da democracia e das instituições dá espaço para a desinformação, e isso acaba por erodir o terreno sobre o qual a democracia se sustenta. A desinformação é causa e consequência, alimentando um ciclo vicioso que torna a democracia extremamente frágil.
A mentira sempre atravessou a política, dados sempre foram usados intencionalmente para desinformar. Porém, a democracia precisa ser preservada, e, para isso, é necessário que a verdade volte a ser entendida como um valor a ser buscado. Tudo passou a ser transformado em questão de opinião e, quando isso ocorre, a capacidade da verdade de servir como horizonte perde força. O enfraquecimento da ideia de verdade como horizonte é terreno fértil para a circulação de desinformação e para o enfraquecimento da democracia.
* Professor do Departamento de Ciência Política DCP UFMG
** Professora do Departamento de Ciência Política DCP UFMG
*** Professor do Departamento de Comunicação Social
**** Pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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Tião Aranha
07 de outubro, 2022 | 15:09O estrago que fazem esses institutos de pesquisas que trabalham pros candidatos é bem maior. Aqui tudo é permitido: o errado no lugar do certo. A Política deveria ser levada mais a serio. Os institutos de pesquisas acabam manipulando o resultado da eleição com essa de falar que um tal candidato está na frente. São muitas as aberrações ao longo da história. Nada justifica os erros. Em terra de cego, quem tem um olho é rei. Risos.”