Bruna Lage
No supermercado, consumidor precisa pensar e calcular o que levar para casa
(Bruna Lage - Repórter do Diário do Aço)Dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgados pelo Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), evidenciam um cenário de terror para o brasileiro. A inflação teve alta de 1,06% em abril, após ter alcançado 1,62% em março. Esse foi o maior resultado para o mês de abril desde 1996 (1,26%). Os dados foram publicados na última quarta-feira, dia 11. Se a compreensão sobre os efeitos da inflação nem sempre é clara para a população, o resultado é sentido na hora de comprar ou consumir, seja no supermercado, padaria, ou para abastecer o veículo.
No ano, o indicador acumula alta de 4,29% e, nos últimos 12 meses, de 12,13%, acima dos 11,30% observados nos 12 meses imediatamente anteriores. Em abril de 2021, a variação havia sido de 0,31%. Em abril, os principais impactos vieram de alimentação e bebidas. O economista que atua em Ipatinga, Amaury Gonçalves, explica que a inflação no país, na casa de dois dígitos, tem corroído o poder de compra, principalmente da classe trabalhadora, que sente o reflexo nos alimentos.
“Os preços estão subindo mais do que a correção do salário mínimo e essa correção não está sendo suficiente para fazer frente ao aumento da cesta básica do trabalhador. A gente percebe que o preço dos alimentos está subindo enormemente. Isso se deve a alguns fatores, a guerra da Ucrânia é um deles, aumentando o preço do trigo no mercado mundial, já que o país é grande exportador. Por outro lado, também, o preço do milho está alto, da soja, e isso aumenta o custo da ração para aves e para o gado”, contextualiza.
Amaury avalia que é preciso paz mundial e serenidade na economia. “Exatamente porque a inflação não é só aqui. Os países de economias mais fortes também estão enfrentando inflações altas, em função dessa escalada na guerra e aumentos dos preços das commodities (matéria-prima básica, que é exportada). A boa notícia é que ainda há espaço para pesquisa, algumas empresas têm estoque, estão fazendo liquidação e conseguem fazer um preço mais em conta para nós consumidores. A velha pesquisa é ainda um bom remédio”, aconselha.
Menos luxo, mais equilíbrioO Diário do Aço conversou com Maria da Penha, Maria Elisa e Luana Samara Viana, que moram no Centro de Ipaba. Elas foram a um supermercado no Centro de Ipatinga e falaram sobre o momento econômico familiar. “Não dá pra fazer muito com o dinheiro, é preciso equilibrar. Por exemplo, não dá pra fazer feijoada sempre. Se num mês levo algo supérfluo, no outro não compro. Quem tem criança sofre um pouco mais nessa conta, porque menino quer tudo, iogurte, um biscoito, mas não dá. Para os aposentados também é complicado, porque a renda não muda. Está difícil para todo mundo, as coisas custam mais do que a gente recebe”, avaliam as três.
A reportagem também ouviu o relato de uma moradora do bairro Veneza II, de Ipatinga, que estava no mesmo supermercado. Ela preferiu não se identificar, mas concordou que o empobrecimento é real. “Comprar qualquer coisa tem sido desafiador. Você abastece o carro e não vê o ponteiro do combustível subir quase nada, vai ao açougue e fica pasmo com o preço cobrado num tantinho de carne. E a gente fica como? Refém disso tudo, porque não dá para deixar de consumir, o que pode ser feito é deixar os luxos de lado e sobreviver”, aponta.
RecordeO consultor especializado em desenvolvimento regional, geógrafo e colaborador do Diário do Aço, William Passos, lembra que a inflação oficial dos alimentos, que é o IPCA, medido pelo IBGE, foi de 13,47% nos últimos 12 meses, a maior desde 1996, ainda nos primeiros anos do Plano Real, no Governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
O gás de botijão aumentou 32,34%. O gás encanado, 35,21%. A energia elétrica residencial subiu 20,25% e o custo médio com a manutenção de uma residência no Brasil, 13,44%. Em relação aos custos com transportes, o óleo diesel, que influencia no preço do frete, aumentou 53,58%, pressionando para cima os preços dos produtos vendidos nos supermercados, no hortifrúti, no açougue, nas lojas de material elétrico e de construção.
A gasolina foi reajustada em 31,22%. O etanol, em 42,11%. E o gás veicular, em 45,18%. O brasileiro empobreceu, não apenas nos últimos 12 meses, mas também nos últimos 4 anos. “No governo Bolsonaro, o salário mínimo perdeu poder de compra pela primeira vez, desde maio de 1994. Isso significa que os preços sobem, mas o salário do trabalhador não sobe junto. Consequentemente, o dinheiro perde poder de compra, vale cada vez menos, e o brasileiro empobrece. Não é falsa a sensação de que à medida que o tempo vai passando, o dinheiro consegue comprar cada vez menos. Não é só uma sensação. Isso é verdade”, atesta.