10 de maio, de 2022 | 13:47

Tempos de indignação

Gaudêncio Torquato *

Belisco-me, como sempre faço, quando me deparo com uma informação difícil de ser internalizada pelo sistema cognitivo. O beliscão é para saber se estou acordado. Será verdade o que leio ou o que ouço? De tão absurdo o fato registrado não é facilmente assimilável.

Exemplos inundam os espaços midiáticos: números de mortos que passam a habitar os cemitérios da covid-19; ordem para a polícia atirar nas pernas de pessoas antirracistas que participam de eventos; mortes de adultos e crianças em uma guerra insana, que joga o poderio de uma potência militar contra um país soberano que vê seu território invadido; estupro de uma menina Yanomami, cometido por garimpeiros; o perdão concedido a um deputado após ter sido condenado pela mais Alta Corte do país e o latifúndio informativo-midiático produzido pelo caso, etc.

Os tempos são tensos e plenos de mentiras, falsas versões, expressões estapafúrdias. Um vereador de São Paulo, em conversa, solta essa para o colega não lavar calçada, pois “é coisa de preto”. O presidente da República garante que a “graça” concedida ao seu amigo e parceiro, deputado Daniel Silveira, apaga todas as condenações feitas pelo STF, inclusive a inelegibilidade do parlamentar. O ex-presidente dos EUA, Donald Trump, indaga em forma de sugestão à um policial que comandava um destacamento numa manifestação antirracista: 'Você não pode simplesmente atirar neles? Atira nas pernas deles ou alguma coisa assim'.

Que tempos! Tempos que o professor Samuel P. Huntington já descrevia em Choque de Civilizações, de 1996: “Quebra da lei e da ordem, Estados fracassados e anarquia crescente, onda global de criminalidade, máfias transnacionais e cartéis de drogas, declínio na confiança e na solidariedade social, violência étnica, religiosa e civilizacional e a lei do revólver”. É o paradigma do caos.

O que estaria ocorrendo com a “banalização do mal”, fenômeno narrado por Hannah Arendt ao explicar a crueldade do extermínio de 6 milhões de judeus por ordem do mais sanguinário perfil da contemporaneidade, Adolf Hitler? O mal reaparece nesses tempos de carências e turbulências, de forma avassaladora em expressões e atos de governantes, nas formas de agir de contingentes políticos, nas guerras modernas que devastam Nações e locupletam cemitérios, banindo as luzes da harmonia social.

“O mal reaparece nesses tempos
de carências e turbulências, de
forma avassaladora em expressões
e atos de governantes”


O fato é que todos esses fatos, analisados sob a régua do bom senso, estão a indicar que o planeta retrocede em sua caminhada civilizatória. Até imaginamos a cena descrita por Ortega y Gasset ao flagrar o bigodudo Nietzsche dando seu grito nos Alpes suíços: “eu vejo subir a preamar do niilismo”. Os niilistas de hoje estendem uma “imensa cortina sobre a realidade para não encará-la”.

No caso do Brasil, a mistificação emerge nas versões estrambóticas de governantes e atores políticos. Veja-se o desfile do “Eu” no episódio envolvendo o deputado Daniel Silveira. A sequência de episódios tem como origem a condenação do parlamentar pela Suprema Corte e a decisão imediata do presidente da República de lhe conceder indulto. Uma prerrogativa presidencial, urge reconhecer, mas reservada aos tempos natalinos e usada de forma coletiva.

De lá para cá, o Brasil passou a enaltecer “egos” de uns e outros. Ora, onde está o país que vê seu PIB encolher? Onde está a discussão sobre a mais alta inflação após quase duas décadas? Por que estamos liderando no mundo os índices de devastação de florestas? Por que não somos mais um exemplo de país gerador de energia limpa? Matar um indígena gerava, antigamente, ampla repercussão nacional e internacional. Hoje, é coisa (???) corriqueira.

A invasão de terras indígenas torna-se algo banal. O estupro e a morte de uma criança de 12 anos não mais impactam. Os garimpeiros continuam a desafiar a lei, invadindo e incendiando aldeias e disseminando drogas e álcool para cooptar os indígenas. As promessas de controle e investigação por parte das forças policiais e do MP parecem lorotas.

Pessoas de bem se revoltam e reagem com suas emoções. Infelizmente, nossas energias não são suficientes para amplificar a reação em cadeia que os ilícitos exigem. A indignação assoma com força, mas fenecem ante o ciclo perverso que espalha seus eixos por toda a parte. Ainda mais nesses tempos de polarização atitudinal e discursiva, quando as alas se agrupam para aplaudir ídolos e apupar adversários. A esperança é que a indignação social faça uma visita à alma brasileira, eliminando as camadas de insensibilidade que teimam em por viseira sobre os nossos olhos.


* Jornalista, escritor, professor titular da USP e consultor político [email protected]
www.observatoriopolitico.org

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Comentários

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Tião Aranha

12 de maio, 2022 | 17:19

“Mais importante do que criticar é tentar entender a gravidade dos fatos. E se puder apresentar solução, melhor ainda. A presidente do maior partido da Oposição falou nos quatro cantos, um dia depois da eleição, que o Bolsonaro não teria sequer sossego para governar - sem ser atormentado. A promessa dela fora cumprida. Será que merecem voltar de novo?! Não podemos nos esquecer nunca que a classe trabalhadora foi traida por uma falsa Esquerda que quando esteve no poder se alinhou a políticos corruptos e empresários corruptos com o propósito de extorquir os cofres públicos. Será que o Petrolao, Mensalão foi tudo mentira?”

Gildázio Garcia Vitor

11 de maio, 2022 | 10:06

“Sr. Tião Aranha, aprecio muito os seus comentários e, na maioria das vezes, concordo com o seu ponto de vista. Mas afirmar que "não deram tempo ao Bolsonaro para governar", é um certo exagero. Ele não governa porque não quer ou não tem habilidade e competência para exercer o cargo. Para mim são as duas coisas.”

Tião Aranha

10 de maio, 2022 | 20:37

“O que está faltando é um projeto político sadio com uma maior participação direta da sociedade. Depois dos sessenta anos de idade a gente perde todas as abstrações desse mundo cão. O que a maioria das pessoas almeja são dias melhores. Sonho vem de sono. Quando um jovem sonha ele se arremete a sua fase de criança. Logo, eu estou muito velho para sonhar. Os movimentos sociais só mudam com outros movimentos sociais. Os partidos políticos e os governantes estão com excesso de poder, isso gera a falta de eficácia administrativa. Não deram tempo ao Bolsonaro para governar. O Estado precisa mudar sem impor normas. Risos.”

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