10 de maio, de 2022 | 13:46

A maldição...

Nena de Castro *

Tentou sair, mas suas pernas não lhe obedeceram. Encostou-se à parede, trêmulo e cansado. Não entendia o que se passava, queria correr, fugir para longe. Apavorado, engoliu em seco, fechou os olhos e tentou pensar. O que acontecera com ele? Lembrou-se vagamente de um vulto de mulher, a bebida e depois a escuridão.

A cabeça doía, a confusão o deixava cada vez mais aflito; deixou-se escorregar e sentou no chão. Escondeu o rosto com as mãos. Ouviu o ganido do cão lá fora. Por quanto tempo estivera desacordado?

Não sabia, nada fazia sentido. Arrastou-se até o banheiro e mergulhou a cabeça sob a torneira da pia. Havia um inchaço nela. A água fria o ajudou a se sentir um pouco melhor. Voltou ao quarto e se assentou na cama. Viu a garrafa de vinho, as taças sobre a mesinha, o abajur virado.

Seu paletó estava sobre a cadeira, assim como a carteira e os óculos. Nada parecia ter sido mexido, o dinheiro continuava intacto. Aí deu por falta do estojo que continha a pulseira que daria à bela Madeleine naquela noite. Iam jantar juntos, era aniversário da moça, pensou no quanto ela estaria preocupada com ele. Pedira a um joalheiro de confiança que polisse a peça de puro ouro que trouxera do Egito, na última viagem.

Lembrou-se do local onde o comprara, do vendedor com um “fez” na cabeça, vestido com uma túnica velha e esfarrapada. E lembrou-se também do outro egípcio que sacudia a cabeça com desaprovação e dizia: sagrado, maldição, morte! Ouvira dizer que ladrões assaltavam as tumbas dos faraós e nobres, em busca de objetos que vendiam por preços absurdos. No entanto, naquela pequena loja, igual a tantas outras no mercado, preferiu crer que estava comprando algo antigo, mas não sagrado.

Pagou e saiu, não era homem para crer em crendices e lendas, voou tranquilo para sua casa em Londres e retomou o trabalho e sua vida normal.

E agora estava ali, atordoado, tentando organizar as ideias. Não conseguiu achar o celular. A cabeça ainda doía, ele se sentia mal, afinal o que acontecera?

Então lembrou-se de uma mulher linda, ao lado de um homem moreno. Eles haviam entrado em sua casa. O homem apontava uma arma em sua direção e lhe disse para ficar quieto. A moça, num sensual vestido vermelho com fendas que mostravam as pernas bem torneadas, pegou as taças, o vinho e serviu. A pancada na cabeça fez com que visse estrelas. Desmaiou.

Agora percebia os sinais acontecidos naqueles dias. Por duas vezes tivera a sensação de estar sendo seguido. Mas depois chegara à conclusão de que estava imaginando coisas. E seguira com sua rotina de advogado brilhante. Clientes, audiências, acordos...

Abriu a gaveta em busca de um comprimido, tomou um gole de água, pegou o paletó, colocou os óculos e desceu a escada que levava a sala à entrada da casa. Abriu a porta e saiu para o jardim: seu cão estava ferido e agonizava. Atordoado, voltou à sala, entrou no living, acendeu a luz e gritou de horror, ao avistar o corpo de Madeleine envolto em sangue.

* Escritora e encantadora de histórias

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Comentários

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Tião Aranha

10 de maio, 2022 | 21:15

“Pelo visto, o protagonista da cena do galo na cabeça precisa se aprofundar realmente daquilo que lhe está dando problema; afinal, o único ser capaz de antever com antecedência uma fatalidade é uma mãe. Somente ela. Risos.”

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