08 de maio, de 2022 | 12:00

Feliz Dia das Mães!

William Passos *

Cada vez mais tinha menos apetite. Dei febre. Uma vizinha sugeriu ir ao pronto-socorro. O médico disse não ser nada. Apenas um resfriado. Voltei para casa. Piorei. Menos de 24 horas depois retornei ao mesmo pronto-socorro. Exame de raio X. Derrame pleural: água na pleura, como se diz. Pneumonia estafilocócica com pouco mais de 90 dias de nascido. Seis meses de internação. UTI. Drenagem. Dois litros de transfusão sanguínea. O primeiro Natal e o primeiro Ano Novo num leito hospitalar. Eu parecia só piorar. “O que está ao nosso alcance, estamos fazendo. Se a senhora tem religião, peça a Deus por ele” - disse o médico responsável. Minha mãe, apenas 24 anos, ajoelhava-se ao lado do meu leito: “se for da Vossa vontade, peço então que o leve. Não aguento mais vê-lo sofrer”. Dias depois respondi ao tratamento. Apenas 5% de chances de sobrevida. Melhora progressiva. Alta hospitalar. Minha mãe retornou para casa com 40 quilos a menos e 6 meses de noites mal dormidas.

“A doação de si, principalmente nas grandes dificuldades, preenche totalmente o nosso coração, tão acostumado a ser o centro do mundo”, escreveu Isabel, uma amiga de São Paulo, ao relatar recentemente os desafios da maternidade com o seu pequeno Rafael.

"Poucos falam na confusão hormonal, na angústia que é passar, de repente, para o papel de mãe; no nó no peito que se forma quando achamos que não vamos conseguir, que não vamos estar à altura. Poucos nos dizem que é aterrador o momento em que percebemos que agora é para sempre e não há volta a dar. E querem saber outra coisa que ninguém nos conta? A hora em que voltamos para casa com um bebé nos braços é estranha, tão estranha que, às vezes, parece que estamos a viver tudo fora do corpo", discorreu Carmem Garcia, enfermeira portuguesa e escritora de crônicas sobre a maternidade.

“Qual mãe que ama, no decurso
de suas noites mal dormidas,
não se considera a mulher
mais feliz do mundo?”


Pessoalmente, muito mais que o impulso sexual, creio que a maternidade seja a maior força da natureza. Qual mãe que ama, no decurso de suas noites mal dormidas, não se considera a mulher mais feliz do mundo? E qual mulher, no momento em que amamenta seu bebê, não gostaria que a Terra parasse de orbitar o Sol? Creio também que a maternidade seja uma forma de alcançar a imortalidade, não apenas pelos instantes que tornam a passagem do tempo insignificante, mas pela transmissão genética, dos gestos, trejeitos, ensinamentos, palavras e formas de entonação da voz. Por isso, quando concebe um rebento, uma mãe é concebida junto, mas quando deixa este mundo, uma mãe nunca parte completamente.

A maternidade enriquece a natureza. Confere outro patamar de beleza, dignidade e nobreza ao gênero humano. Os órfãos de mãe sabem muito a falta que o amor materno faz. “Rezo para que jamais minha boca pare de dizer que a amo porque o abraço da minha mãe me acalenta sempre que minhas histórias de amor acabam”, escreveu Luz Amparo Guzman, irmão de um amigo colombiano que fiz no Facebook, sobre uma foto frente a frente com a própria mãe, num dos mais belos depoimentos em língua espanhola que já li.

De certa forma, nossas mães são espelhos de nós mesmos. Refletem o que fomos, o que somos e o que seremos no futuro, mesmo quando lutamos para sermos diferentes. E para ser mãe não é preciso gerar com o útero: a maternidade nasce na profundidade mais sacramental do coração de uma mulher.

A todas as mães (e madrinhas), um domingo muito agradável, ao lado dos filhos da barriga e do coração! Bem-aventurados os nascidos de mulher!


* Geógrafo, doutorando pelo IPPUR/UFRJ e colaborador do Jornal Diário do Aço. Email: [email protected]

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Comentários

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Gildázio Garcia Vitor

09 de maio, 2022 | 21:35

“Que texto lindo! Parabéns!”

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