08 de maio, de 2022 | 11:00

Seis anos como ''mãe pâncreas''

Flávia Mosimann *

Existe um ditado popular que fala que “ser mãe é ter um coração batendo fora do peito pra sempre”. Para nós, mães-pâncreas, além do coração extra, temos também um pâncreas preguiçoso que precisa de uma ajudinha.

O termo curioso é utilizado para se referir às mulheres que, além de lidar com os desafios da maternidade, também precisam desempenhar a função do órgão por seus filhos com diabetes tipo 1. Essa doença crônica é geralmente diagnosticada na infância ou adolescência e ocorre quando o pâncreas não produz insulina suficiente, o que exige um tratamento com uso diário de insulina e/ou outros medicamentos para controlar a glicose no sangue.

E foi assim que explicamos ao Christian, em seus recém completados 6 anos, o que era a doença: “você tem um pâncreas preguiçoso que precisa de uma energia extra pra funcionar direitinho”.

“Eu tô doente, mãe?”, perguntou ele.
“Não, filho. Comendo direitinho, praticando esportes e tomando a “energia extra”, fica tudo bem!”, respondi.

Confesso que receber a notícia não foi fácil. Há um processo natural de negação, de não entender bem o porquê de aquilo estar acontecendo. Nesse momento, a ajuda dos profissionais de saúde foi fundamental.

Tivemos o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar composta por enfermeira especialista, psicóloga, nutricionista e uma médica, que nos auxiliaram demais, especialmente, no momento em que recebi o diagnóstico do meu filho.

Desde então, lá se vão quase 6 anos como mãe-pâncreas. Percebi que parte dessa energia extra que ele precisava não viria somente da insulina, mas, essencialmente, dos cuidados e monitoramento constantes que são necessários para que ele possa viver, crescer e se desenvolver como qualquer outra criança de sua idade.

Isso faz toda a diferença quando a gente vai encarar o diabetes, quando a criança vai, e também como iremos passar isso para criança. Medir a glicemia, trocar sensores, calcular carboidrato, se sentir culpada quando dá tudo errado, se sentir a Mulher-Maravilha quando dá tudo certo, definir doses, acordar de madrugada, se sentir cansada, não demonstrar que está cansada...

Mas, sobretudo, ser mãe. E apenas mãe. Olhar para o Christian e vê-lo além do pâncreas, além dos gráficos. Fazer de tudo para poder ver aquele sorriso gostoso após uma aplicação de insulina. Conversar sobre as corridas de kart enquanto trocamos os sensores, e ensinar e aprender com ele.

É indescritível a sensação de vê-lo crescer com autonomia e decidindo comigo que doses aplicar. Observar que, aos poucos, assim como todos os filhos, ele vai precisando um pouquinho menos da mamãe.

O importante é que o Christian sabe que tem responsabilidades e que acaba sendo inspiração para outras pessoas. Ele é uma espécie de embaixador infanto-juvenil para os cuidados com diabetes nesta fase que é crucial para definir como será a saúde como adultos no futuro. Isso o ajuda a mostrar como uma criança supera seus desafios e não coloca limites nos seus sonhos apesar do diabetes, e ainda levanta uma questão importante: você pode realizar tudo e, acima de tudo, tem apoio e suporte para correr atrás de seus sonhos.

Criamos nossos filhos para o mundo, mas mantemos por perto aquele docinho em caso de hipoglicemia.

* Mãe de Christian Mosimann, piloto de kart patrocinado pela Novo Nordisk, atual campeão na categoria Cadete e embaixador do esporte pela Sociedade Brasileira de Diabetes. Christian tem diabetes tipo 1

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