06 de abril, de 2022 | 14:06

Tempo excessivo nas mídias virtuais pode prejudicar sociabilidade

Valéria Barbieri *

O Brasil ficou em terceiro lugar na lista de países que mais consumiram tempo nas mídias sociais em 2021. Os dados são de um levantamento divulgado pelas empresas WeAreSocial e Hootsuite e mostram que o brasileiro gastou, em média, cerca de 3 horas e 42 minutos por dia navegando pelas redes sociais no ano passado.

O tempo gasto nas redes sociais, quando exagerado, pode causar intoxicação social, com desestímulos, sensações de exclusão e desânimo com a própria vida, evidenciados pelo excesso de comparações e falta de experiências reais.

Várias pesquisas associaram o uso das mídias sociais a problemas como ansiedade e depressão mas, há outras repercussões que podem vir junto ou não com esses problemas, como preocupações em relação à autoestima, insatisfação com aparência física, sentimentos de inutilidade, diminuição das interações off-line e uma certa displicência com os códigos morais que o anonimato propicia.

Alguns desses problemas, pelo uso excessivo das mídias sociais, podem ser causados por adversidades existentes anteriores ao consumo. As pesquisas ainda não chegaram a compreender exatamente como essa relação ocorre. Algumas teorias defendem que as fragilidades anteriores do indivíduo levariam ao uso exagerado das redes sociais, não o contrário.

Nesse cenário, é possível afirmar que exista uma relação entre o uso das redes sociais e os impactos psicológicos negativos sobre o usuário, mas não é possível afirmar que uma pessoa específica vá desenvolver essas repercussões, portanto, é importante um olhar singular para cada indivíduo.

“O consumo constante e exagerado
das mídias sociais potencializa
comparações tóxicas e sentimentos
de inveja, inferioridade,
exclusão e fracasso”


Pessoas que possuem uma maior tendência a se compararem com as outras acabam tendo uma auto percepção mais empobrecida, potencializada pelo uso constante das redes sociais. Valéria explica que essa tendência à comparação, associada ao uso intenso das redes, desperta no indivíduo sentimentos de inveja, inferioridade, exclusão e fracasso.
Nesse contexto, a professora conta que foi criado um acrônimo na língua inglesa para determinar o sentimento de estar perdendo alguma coisa, uma inquietação constante de que os outros estão tendo experiências gratificantes e a pessoa não, chamado de Fomo (Fear of Missing Out, ou Medo de Ficar de Fora), que se tornou motivo de estudos e pesquisas.

Vida offline e experiências reais como proteção às redes sociais

Valéria conta que já existem pesquisas que evidenciaram fatores de proteção contra os sintomas negativos decorrentes do consumo das redes sociais. Atividades off-line, oportunidades com amigos e parentes fora da internet, manter relações de proximidade e ter objetivos e propósitos reais são algumas das posturas que protegem o usuário.

É necessário cuidar para que as pessoas não se distanciem de valores fundamentais e se percam de si, diz a professora. A insatisfação com a vida real leva o indivíduo a se refugiar nas redes sociais, provocando mais insatisfação e criando um círculo vicioso. Valéria explica que a felicidade está nas coisas simples, que dão propósito à nossa vida e estabelecem relações positivas e de reciprocidade, favorecendo o otimismo e a esperança.

*Professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP.

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