05 de abril, de 2022 | 13:57

De comunicação, apuros e cheiro de mãe...

Nena de Castro *

A geração de hoje, afeita à Internet, ao smartphone que transmite imediatamente o que acontece pelo mundo, não pode sequer imaginar a importância dos Correios e Telégrafos antigamente. Ah, receber uma carta era um frisson, elas traziam notícias de parentes e amigos distantes e juras de amor de enamorados que viviam longe um do outro. Em “O amor nos tempos do cólera, Gabriel José García Márquez conta como o apaixonado Florentino Arizo, graças a uma rede de telegrafistas, ficou sabendo exatamente para onde o pai de sua amada Fermina Dazo a levara numa fuga desordenada, andando de trem, à cavalo, a pé pelo interior da Colômbia até a casa dos seus parentes. Então, os da minha geração sabem do que falo. E certas histórias parecem ter saído dos livros, novelas ou cinema, embora, na verdade, tenham ocorrido na vida das pessoas que nos rodeiam e que ficam, às vezes, à mercê de outras pessoas.

Pois bem, a nossa heroína nasceu num arraial chamado Areado de Lajinha. Apelidada Mariquita, a menina vivia com os pais e as duas irmãs menores, vez que os irmãos adultos já tinham se casado. Quando tinha 7 anos, sua mãe viajou para o Rio de Janeiro com a finalidade de visitar a filha que morava na Cidade então Maravilhosa. Ia levar também uma moça das redondezas que pretendia trabalhar no Rio e que a princípio, ficaria na casa da filha. Tudo organizado com capricho, a mãe deixou a casa com café torrado, sabão, roupas limpas. Ia ficar fora 8 dias e queria facilitar a vida do marido que trabalhava na lavoura. A mãe partiu de trem com a amiga, os 8 dias se passaram, depois quinze, trinta, sessenta dias e nada de notícias. O caos se instalou na casa, a menininha teve que cozinhar, para que tivessem o que comer ao voltar da escola que ficava a dois quilômetros andados a pé, levando a irmã mais nova que não podia ficar sozinha.

Comiam o grude frio e ela tentava cuidar da casa. O pai não sabia o que fazer, não entendia a causa do abandono pela esposa e pedia socorro para as comadres para cuidar das meninas. Mariquita chorava muito ao lavar as vasilhas na mina, ao tentar lavar as roupas... Quando fez 6 meses da ausência, uma das comadres se ofereceu para morar com o cumpadre e criar as filhas. O pai de Mariquita não aceitou, dizendo que não podia assumir tal compromisso, pois não sabia se a esposa estava viva ou morta.

Chamou então menina e juntos, com muita dificuldade, escreveram uma carta para a irmã do Rio, pedindo notícias; subescritaram o envelope e ela foi “à rua”, ou seja, ao centro do arraial, colocar a carta no Correio. Rezou, pediu a Deus que a carta chegasse e pudessem ter notícias.

Já não tinham roupa pra vestir, ela não sabia fazer sabão nem cuidar da casa, chorava muito e ainda tinha que consolar as irmãs. A saudade da mãe cortava seu coração...

Algumas semanas depois, levaram um susto com a mãe chegando. Eles não podiam acreditar: a mãe estava muito magra, mas sorria e chorava abraçando as filhas e o marido. Ocorre que, na viagem de ida, o trem descarrilou e tombou quase chegando ao Rio. Algumas pessoas morreram, outras ficaram gravemente feridas, dentre elas a mãe e a companheira de viagem. O resultado foi um traumatismo no crânio (19 pontos) e a clavícula quebrada. Fora para o hospital, passara por cirurgias e teve que se submeter a fisioterapia. Ficara desacordada muitos dias, a filha que a esperava ficou sabendo do acidente e a localizou, escrevendo imediatamente para a família. Só que enviava a carta para a casa dos sogros dela que moravam no vilarejo, pois onde a família de Mariquita vivia, o Correio não chegava. O desgraçado do sogro não entregou a carta e nem as outras que a irmã enviava toda semana, contando o tratamento da mãe. Quando Mariquita viu a mãe, seus olhos brilharam de alegria...foi uma festa. Em meio a tantos beijos e abraços, perguntas e respostas, a verdade veio à tona, souberam do acidente, da quase morte e das cartas que nunca chegaram. O pai queria matar o sogro da filha. Sabia que ele era mau e egoísta, mas nunca imaginou que fizesse algo parecido. A mãe conseguiu dissuadi-lo da ideia, dizendo que estava ali, viva e feliz e não valia a pena estragar sua vida e de todos, matando o desinfeliz.

Mariquita guarda na lembrança, até hoje o olhar carinhoso da mãe, que foi logo fazer o almoço preparando um frango caipira para a família. Para a menina, nada mais tinha importância diante daquele cenário divino: todos juntos novamente. Pensou que tudo afinal voltara ao lugar. Ela se lembra até hoje do perfume maravilhoso no ar.
Pois se não sabem- afirma ela - mãe tem cheiro. Cheiro de carinho, ternura, cuidados e sobretudo amor. Pois é, às vezes penso que o grande Gabo contaria essa história! Quem sabe?

Obs: Essa é uma história vivida e contada por Maria Cunha dos Santos, 68 anos, casada, mãe de quatro filhos, moradora do bairro Bethânia, em Ipatinga e faz parte do projeto Idoso – Uma História Vivida e Contada, da Associação Cuidado Humano, rua Cairo, 188, bairro Bethânia – Ipatinga. Acesse o site cuidadohumano.org.br./mídia/e-book ou no Instagram: cuidadohumano. Au revoir.

* Escritora e encantadora de histórias

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Comentários

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Tião Aranha

05 de abril, 2022 | 21:34

“Bonita história de vida. De luta e de esperança. Só através da leitura conseguimos entrar no universo da imaginação. No nosso e das pessoas, dos acontecimentos psicológicos contracenando com os reais. Risos.”

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