08 de março, de 2022 | 14:11
Sugestões da velha Murucututu...
Nena de Castro *
U rru rru urru rru...Deitada debaixo da minha cama, a velha Murucututu me acorda com seu canto sombrio. O pé sujo, de longas unhas recurvadas, traça círculos no ar. Já contei pra vocês, que de dia ela é um tipo de harpia, uma corujona cinzenta e de noite transforma-se em gente aparecendo para atormentar alguns desinfelizes, tirando sarro de certas situações criados por nossos ínclitos representantes no senado, câmara e outros que tais, sem contar as mancaditas e mancadonas de uns e outros do Palácio do Planalto... A velha não perdoa, voa pra toda banda, sabe de tudo e gosta de me amolar. Se não fosse pelo carinho que tem pelas crianças, eu já a teria mandado pra tonga da mironga, ela me lembra a GER, minha atrevida sabiá que consegui desterrar de novo pro Butão, mas que não demora a voltar, com essa maldita guerra. Pensa se a sabiá volta e encontra MURUCUTUTU por aqui, vai ser um furdunço tal que quem vai pro Butão sou eu. E fico por lá, afinal, é onde vive o povo mais feliz do mundo, coisa comprovada...Então, ela começou a esculhambar gregos, troianos, russos e americanos e seus parceiros, dizendo que só podia dar merda com esses líderes loucos e seus planos expansionistas que arrebentam com tudo e todos, sem contar o dedo coçando no botão do arsenal atômico, afeee! Contudo, com a visão das crianças ucranianas chorando, famílias separadas, mortes e explosões, Muruca emudeceu, perdeu a graça e nem quer mais virar coruja e voar, fica deitada, rodando o dedão do pé e ruminando como os homens podem ser tão imbecis. Fiquei com dó da velhinha e sem querer entrar no mérito (aliás, demérito) dessa guerra desgraçada, que com certeza já está nos atingindo e no mundo todo haverá terríveis consequências, propus fazermos uma lista de coisas pra desencanar e não maluquecer de vez...
Ai, fizemos uma listagem com opções para a gente se ocupar: a bem da verdade, tive que convencer a Muruca que caçar onça, avoar” pelo céu sem ter asas, pegar surucucu com as mãos pra assar e brincar de mulé-dama” não podia ficar na lista, não. Então, aí vai:
I -Orar. Converse muito com Deus, faça seus pedidos; eu leio um salmo todos os dias e me ajuda muito.
II - Plante flores, trepadeiras, cebolinha, salsa e cuide delas; afofar a terra, regar e cuidar é uma terapia e tanto! Nem precisa comprar sementes, aproveite as do pimentão, da abóbora, do mamão, peça mudas, furte uns galhinhos de vez em quando para fazer estaquia e se você for presa, morro negando a sugestão, claro. (Atenção, neca de destruir jardins públicos ou particulares, é só um galhinho e pronto)!
III - Invente moda na cozinha, faça bolos e pudins diferentes, saladas malucas, arroz com bofe” (rs, arroz cozido com as frussuras” do porco, cortadinhas, fígado, pulmão, bucho tudo lavado com água e limão e cozido com muito alho e urucum socado no pilão). Parece meio bárbaro, mas é uma diliça! (TIO ORÉLIO BUARQUE grafa FRESSURAS em seu dicionário).
IV- Faça tempero, misture tudo que tiver de ervas com alho e sal e pimenta bata no liquidificador, coloque em vidros e presenteie as amigas.
V - Atualmente, dedico-me ao fabrico de sorvete. Há inúmeras receitas no YOU TUBE, já fiz de coco, de chocolate, de limão, bato só no liquidificador e ponho pra gelar, hoje vou fazer de morango outro de abacaxi. Sem contar o monte de sabores que ainda falta experimentar. Engorda? Sim. Então vocêc vai pra academia, levanta um peso por mim, conversa coisa boa, ri, e volta pra casa animada.
VI -Ouvir música da sua preferência, tirando o maridão da poltrona pra dançar Besame Mucho”. Ou Rock and Roll”, bebê!
VII - Leia Poesia, poemas nos ajudam a exorcizar os sentimentos ruins, há uma clínica psiquiátrica de uma Universidade famosa nos Estados Unidos, que usa a leitura diária de textos poéticos como tática de tratamento e com bons resultados. Ah, uns livrinhos de suspense tombém” ajudam a relaxar. Ou leia os Clássicos se preferir. Vale também costurar, bordar, fazer tricô...
VIII -E sobretudo, não deixe de ajudar a quem precisa, isso faz um bem tremendo, traz luz pra vida de quem ajuda, a gente volta pra casa com a cabeça cheia de estrelinhas verdes, daquelas chamadas Esperança...
E nada mais digo, a não ser que senti muito a perda de Dona Bizuca, a eterna mestra de Ipatinga, autora da letra do hino de nossa cidade. Não pude ir ao sepultamento pois todos os esporões dos dois pés inflamaram e estou em tratamento com injeções e fisioterapia. Mas em espírito, beijei as mãos da grande dama e mestra de muitos ipatinguenses, que transformou tantas vidas com seu trabalho de educadora exemplar! Um beijo pra toda a família, com o carinho da Bugra. Z Au Revoir.
* Escritora e encantadora de histórias
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