17 de fevereiro, de 2022 | 14:04

As aventuras de Bolsonaro

Márcio Coimbra *

Bolsonaro orienta sua política externa pela mesma visão primária que aplica na política nacional. Os resultados são erros, desacertos e isolamento. O episódio mais recente está na inoportuna viagem à Rússia em meio a uma crise internacional. Não será o último. De lá, a comitiva segue para Budapeste, epicentro de um populismo autoritário que aos poucos perde força, mas ainda encontra eco em alguns lugares do mundo.

O oportunismo eleitoral fala mais forte do que as oportunidades de negócios entre as duas nações. O objetivo desta viagem está mais dentro do Brasil do que fora. Bolsonaro busca registros de reconhecimento internacional para sua tentativa de reeleição e também para mobilizar sua tropa populista no rumo de assegurar uma vaga no segundo turno presidencial. Um movimento que diminui o tamanho da presidência do país.

Mais do que isso, a presença de Bolsonaro na Rússia neste momento torna a situação do Brasil ainda mais delicada na esfera internacional. Moscou busca tutelar seu antigo satélite da época soviética, a Ucrânia, que deseja integrar a OTAN e a União Europeia. O Brasil, entretanto, é um aliado preferencial extra-OTAN dos Estados Unidos e estamos em fase de ratificação do acordo Mercosul-União Europeia. Adentrar neste imbróglio diplomático pode fazer nosso país perder de todos os lados.

É preciso pensar de forma estratégica. O Brasil acaba de dar mais um passo na direção da OCDE e uma aproximação com a Rússia somente deixa nosso país mais longe de alcançar este objetivo. A opinião vem do próprio governo. Segundo Paulo Guedes, “a agenda (na Rússia) é uma fria e um gol contra o projeto do Planalto de entrar na OCDE”. Como vemos, além de inoportuna, a visita é também indesejada por parte do governo.

“Bolsonaro busca registros
de reconhecimento internacional
para sua tentativa de reeleição”


Na verdade, esta viagem é mais um capítulo do modo Bolsonaro de governar. Orienta-se pela base radical, despreza os interesses do Brasil e pensa, acima de tudo e de todos, em seu projeto de reeleição. Talvez esteja vivendo seu derradeiro passeio internacional antes de entregar a presidência ao sucessor, um giro por nações classificadas por ele de conservadoras, mas que na verdade são apenas versões mais bem-acabadas de uma nova vertente de um populismo autocrático que ele admira.

Do ponto de vista comercial, os resultados devem ser pífios. Sem um plano estruturado e de longo prazo e sem escritórios comerciais que forneçam apoio aos empreendedores brasileiros, qualquer movimento ficará perdido no tempo. No período que dirigi a Apex, desenhamos uma ousada estratégia de presença na Ásia Central e no Leste Europeu. Mais uma iniciativa que deve estar perdida entre outros planos e novas gestões. Fato é, se não pensarmos em longo prazo, não serão viagens presidenciais que funcionarão para solucionar nossos problemas.

Estamos diante de uma viagem que nada mais é do que um capítulo antecipado de um processo eleitoral que já começou. Uma jornada que pode trazer muitos problemas em outras frentes onde precisamos avançar. Infelizmente Bolsonaro deixa o país a reboque de suas aventuras, enquanto precisamos de forma urgente resgatar nossa economia. Uma viagem inadequada, inoportuna e indesejada que passa longe de nossas prioridades, necessidades e realidade como nação.

* Presidente da Fundação da Liberdade Econômica, cientista Político e mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal

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Comentários

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Gildázio Garcia Vítor

18 de fevereiro, 2022 | 13:24

“Acho a política externa do governo um desastre, mas não concordo com o autor do artigo. O Presidente recebeu o convite do governo da Rússia, que é um importante parceiro comercial do Brasil, além de ser um dos que compõem os Brics. Portanto, não podia declinar do convite para não causar um mal-estar diplomático.”

Tião Aranha

17 de fevereiro, 2022 | 21:36

“A forma padrão do gerenciamento da coisa pública tem que estar sedimentado em experiências já vividas. Caso contrário é jogar o país ao atraso.”

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