04 de janeiro, de 2022 | 14:27

Dona esperança...

Nena de Castro *

A professora se chamava Esperança. Era jovial e enfrentava a vida e suas vicissitudes com fé. Para ela, os dias serviam para lutar e ensinar, desânimo nem lhe passava pela cabeça. Sua arma principal era o sorriso, ria de nada e de tudo, era um misto de energia, generosidade e fé. E com essa metralhadora giratória de amor, ia ensinando, quebrando barreiras e prestando um serviço inestimável às crianças com necessidades especiais ou apenas com traumas de aprendizagem. Um dia, fazia as unhas com sua manicure Zileide e esta começou a chorar. E ouviu a razão: o filho já tinha 17 anos, frequentara escolas até os 13 e nunca aprendera a ler. Ficava no fundo da sala, era bem-comportado e no final do ano, era aprovado. Complexado, traumatizado, não tinha amigos, não falava com garotas, embora fosse muito bonito. A turma do tráfico, ansiosa por adotá-lo, o tratava muito bem, o que deixava Zileide apavorada. Dona Esperança se interessou pelo caso. Marcou um horário e ficou esperando o adolescente enquanto assistia uma série de na TV. Ainda não sabia bem qual estratégia usar para vencer a barreira. Pediu inspiração a Deus e se preparou. O rapaz pedira que a aula fosse bem à tardinha, para não encontrar outros alunos; fazia o mototáxi parar mais adiante, caminhava apressado e de cabeça baixa.

Ela abriu o controle do portão, pediu que entrasse e sentasse no enorme sofá a seu lado. Assentado, muito sem graça, o jovem ficou sem saber o que fazer. A mestra lhe disse sem olhá-lo: estou assistindo a uma série, veja! E ficaram os dois vendo o filme, até que venceu o horário. O mototáxi chegou, ela disse “pode ir”, e ele se foi... Em casa, disse pra mãe: “aquela mulher é doida, não me ensinou nada, fiquei lá assistindo filme. Não volto lá”! “Vai sim, meu filho”, responde a mãe. E mentiu: “paguei o mototáxi adiantado por duas semanas, ele não devolve, vou perder esse dinheiro?”

Segunda aula: o menino entrou, foi convidado a sentar e ficou vendo o filme. A professora o dispensou 15 minutos antes, dizendo que a aula terminara.

Terceira aula: após o fim do episódio, a TV foi desligada. Ao ser dispensado, o menino se queixou: “pensei que ia me ensinar a ler e a senhora não faz nada!”.

Ah, você quer aprender? Há alguma coisa que lhe interesse?

“Pode me contar alguma coisa sobre a Maçonaria? Acho o nome bonito. E ouvi dizer que é uma sociedade secreta, coisa bacana, cheia de mistério” - disse o menino, animado. A professora se levantou, pegou o pincel e escreveu em letras bem grandes no papel branco:

“MAÇONARIA” - “SECRETA”. O aluno olhou bem as palavras, ainda um mistério para ele.

“Assim se escrevem as palavras que você gosta. Aula encerrada”.

Quarta aula: uma pesquisa feita por ambos no computador, ela lia pra ele tudo sobre a maçonaria, ele fazia perguntas; ela anotava as palavras de que ele gostava.

Bem só digo que daí a pouco tempo, o adolescente lia e escrevia usando as letras das palavras prediletas! Quando já estava confiante, lendo corretamente, Dona Esperança o matriculou numa escola noturna e o rapaz deslanchou! Hoje, já adulto, trabalha em um supermercado e está muito feliz, tem amigos, namora...

Bendigo a todas as mestras que levam esperança para seus alunos, ajudando-os a quebrar estigmas, a saltar mais alto, alçar voo... E nada mais digo...

* Escritora e encantadora de histórias

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Comentários

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Javé - do Outro Lado do Mundo

04 de janeiro, 2022 | 19:54

“Sem discrepância, mudando o ambiente de aprendizagem e ensinar a partir daquilo que o aluno mais gosta de ouvir. Na prática funciona. Risos.”

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