23 de novembro, de 2021 | 13:27

Avacalhando um grande escritor e uns e outros...

Nena de Castro *

Filho do “Coroné Antônio Bento”, que gostava de piano em suas festas, Jorge José João Bento resolveu deixar a vida de solteiro. Afinal, já tinha 22 anos e era costume os rapazes nessa idade já serem chefes de família naquela época.

Então examinou as possibilidades, fez uni duni tê e terminou dizendo : “mamãe mandou casar quessa aqui, mas como sou teimoso, escolho essa daqui”. (afinal, o pai dela tinha muitas terras e gado).

Escolhida a noiva, comprou as alianças por um conto de réis e como não temia “os idos de março” foi com o pai e a mãe pedir a mão da moça. Seu Lino, o pai da donzela ficou muito contente e disse sim, que concedia a mão da filha, mas que ele por favor levasse a moça inteira, pois não a queria desmembrada. Trataram então o casamento pra daí a três meses, no mês de maio.

Lina ficou contente em ter sido pedida pelo filho do coroné. Ele era um partidaço e ela aos 17, estava passando da época de casar. Sua mãe tinha casado aos 14, com noivo escolhido pelos pais; esse era o destino das mulheres, passar da guarda do pai para o jugo do marido e se tivesse, sorte, ficar viúva e rica aos 35, mudar para a Corte e participar de convescotes, saraus e bailaricos, sassaricando um pouco, afinal, ninguém é de aço, ara!

Lina era bonita, uma morena de olhos profundos como o mar e quem olhasse essas profundezas perdia a trapobana e se estrumbicava! Mas ela ainda não sabia de seu poder de sedução e era pura como um anjo.

Casamento celebrado, festança com muito frango frito, tutu, arroz, leitoa assada, macarrão, churrasco de cinco bois e 10 capados gordinhos assados na coivara... Muitas beberagens, a “Antárctica mandou umas 30 caixas de brahmas”, vinho de jurubeba, vinho de padre e é claro, cachaça das boas!

O bolo, confeitado por Dona Inês, cheio de esferas prateadas que quebravam os dentes, com o indefectível casal de noivos por cima, tinha três andares e foi um sucesso, ao lado do pé de moleque, dodileite, arroz doce, canjica grossa, doces de laranja cristalizada, de mamão em lapa e doce de figo...

Terminado a festa, os noivos se retiraram para o quarto nupcial, enquanto a mãe da noiva chorava. Jorge João José se recusou a mostrar o lençol manchado de sangue pela janela dizendo que isso só ficava bem em filme da máfia italiana.

Então os noivos foram morar na casa que o coroné mandara fazer, do lado sul da fazenda onde corria um regato remansoso...

Só que as terras e o casarão próximos foram comprados por José Pablo Escobar, um cara até bão, mas cuja casa vivia cheia de jagunços armados vigiando uma plantação verdinha que rebrilhava ao sol.

O vizinho fez amizade com o novel casal e passou a visitá-los para jogar gamão, buraco e dama.

Jorge José João percebeu os olhares de Lina e do vizinho e uma pulguinha começou a incomodar seus pensamentos. Quando Pablito nasceu, ele ficava olhando pro menino, achando que ele tinha as orelhas iguais às de dom Pablo.

Um dia, cheio de suspeitas levou ao cartório a esposa, que na verdade fora registrada como Maria Capitolina e, armado com um bolo de dinheiro, exigiu que o nome fosse trocado por Lina como já era conhecida, porque depois iam observar que a esposa era “uma cigana de olhos oblíquos de ressaca” e passariam a chamá-la de Capitu. Sem contar a chatice de virar personagem de discussão perene, perguntando se ela havia ido com dom Pablo Escobar pra trás da moita de bananeira!

Seu Assis, um mulato morador do Cosme Velho que gostava de brincar com letras, coçou a barba, chamou a esposa dona Carolina e mandou avisar “IÁIÁ GARCIA” que o Romantismo acabara e ele agora seria mais Realista que o rei. “HELENA” chiou, mas seu Assis não quis conversa e falou a célebre frase: “ao vencedor as mandiocas”, pois batata estava pelos olhos da cara! Revoltado, recolheu-se ao casarão com o ALIENISTA para um tratamento de beleza, cuidando de avisar ao psicanalista que não ia tomar irvectina nem cloroquina, pois já tinha sido vacinado. E que ao sair, ia mandar internar uma tal de Bugra de Castro que ousava mangar de sua escrita! E nada mais digo, a não ser perdão, Machado de Assis, pelas gracinhas! Perdão também a Vicente Mateus, o folclórico presidente do Coríntias, aos compositores Luiz Vanderley e João do Vale, autores de “Coroné Antonio Bento” e ainda a Luis Antonio, O. Magalhães e Zé Maria, de “Sassaricando”. Pra Pablo Escobar num peço desculpas, não. Queridos cinco leitores, me perdoem também: Fui tentar montar um painel da atual política brasileira em relação às eleições e maluqueci! Deu nisso...

* Advogada, escritora e Encantadora de Histórias

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Comentários

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Tião Aranha

23 de novembro, 2021 | 20:35

“Bom texto, o problema todo é que uma urna de eleição não é um tribunal. Risos.”

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