19 de novembro, de 2021 | 13:54

Ide-vos todos para a clínica

Meire Rose Cassini *

Depressão, síndrome do pânico, ansiedade... Se você pensa com frequência nesses ou em outros transtornos de ordem mental e associa algum deles à sua rotina, saiba que não está sozinho. Muito pelo contrário. Os brasileiros lideram o ranking dos povos que mais se preocupam com a saúde mental, numa lista com 30 países.

A pesquisa foi divulgada em outubro pelo Instituto Ipsos, empresa sediada na França que realiza estudos e inteligência de mercado em todo o mundo. Os dados mostram que 75% da nossa população pensam nisso com uma frequência considerável. O Brasil é seguido pela África do Sul (73%), pela Colômbia (71%) e pelo Peru (68%). Na ponta de baixo, China (26%), Coreia do Sul (31%), Rússia (33%) e Alemanha (39%) são os países que apresentam menor índice de preocupação com a saúde mental. Estes estão muito aquém da média global de 53%.

Para chegar a essa conclusão, a pesquisa entrevistou mais de 21 mil pessoas, das quais cerca de mil eram brasileiras. Mas, tivesse ouvido toda a população, provavelmente esse cenário pouco mudaria. Isso porque já existem mais dados que comprovam não apenas que o brasileiro se preocupa como também é vítima de muitos dos transtornos mentais.

A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) já vem demonstrando, desde o início da pandemia de covid-19, causada pelo coronavírus, que essas doenças vêm se intensificando na população. No ano passado, só entre os meses de agosto e novembro, houve um crescimento de 82% no número de novos casos, de acordo com a ABP. Outro dado relevante: 70% dos pacientes que já haviam recebido alta do tratamento tiveram de voltar às clínicas durante o tempo de quarentena.

"Ao menos é possível aplaudir,
se é que assim se pode dizer,
a consciência de que a saúde
mental é um problema grave"


É quase que inevitável associar a realidade socioeconômica dos países com suas respectivas posições no ranking do Instituto Ipsos. E, de fato, muitos dos profissionais que lidam diretamente com pessoas que apresentam a saúde mental debilitada observam que os motivos residem na perda do emprego ou na diminuição da renda, no comprometimento do tempo dedicado ao lazer e no maior tempo dentro de casa. O brasileiro, em especial, que tem a expansividade como marca registrada, viu seus círculos sociais abreviarem-se de tal maneira que o afetaram psicologicamente.

Não que outros povos não tenham sentido esses problemas. Mas os efeitos sociais parecem sucumbir menos aos impactos financeiros quando se tem uma segurança governamental por trás, levando a crer que os problemas são meramente passageiros. Se não há explicações óbvias demais para explicar cada caso entre nossa população, ao menos é possível aplaudir, se é que assim se pode dizer, a consciência de que a saúde mental é um problema grave.

Isso já é suficiente, e este é o grande mérito dos brasileiros no estudo do Ipsos, para constatar que temos problemas sérios a resolver e que estamos bastante cientes e preocupados com esse diagnóstico. Portanto, ide-vos todos para a clínica!

* Psicóloga e gestora do Serviço de Psicologia do Hospital Felício Rocho

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Comentários

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Tião Aranha

19 de novembro, 2021 | 18:45

“A questão é saber se as clínicas estão preparadas pra receber número tão grande de pacientes.”

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