07 de outubro, de 2021 | 15:14

JMB e o uivo dos lobos

Hiltomar Martins Oliveira *

Nos últimos meses deste ano, o presidente JMB viu despencar acentuadamente a sua preferência nas pesquisas pré-eleitorais com vista às eleições de 2022. Vários fatores podem ser indicados como causa dessa vertiginosa queda: em primeiro lugar, os fatos revelados pela CPI da covid-19 tornaram público o descalabro na administração federal, notadamente no Ministério da Saúde, onde não se pode negar mais a existência de amplo esquema de corrupção. Em segundo lugar, a deterioração dos indicadores econômicos, as variações nas projeções do crescimento do PIB, o retorno da inflação, agora persistente. Em terceiro lugar, o desemprego crescente, agora em níveis estratosféricos. Em quarto lugar, o aumento da fome no país. Em quinto lugar, uma crise anunciada de energia combinada com escassez de água, na pior seca dos últimos cem anos. Em sexto lugar, a insistência do presidente em não governar e alimentar uma crise institucional sem precedentes na história do país.

O desgaste da imagem do presidente é visível e ele recorre, cada vez mais, à sua verborragia insana e desconectada da realidade nacional, buscando deslocar o foco dos problemas nacionais para uma falsa crise que procura alimentar noite e dia.

JMB promove – e participa ativamente – de uma nova modalidade de campanha pré-eleitoral, criada por ele, as chamadas “motociatas”, nas quais, no fim, não faltam palanques e discursos inflamados de apoiadores. Entretanto, JMB não consegue deter a marcha descendente de sua preferência junto ao eleitorado e seu principal adversário só faz aumentar a sua vantagem.

No mês de julho, pressionado pela iminência da abertura de um processo de impeachment, publicamente anunciado por líderes no Congresso Nacional, JMB rendeu-se ao grupo político denominado “Centrão”, entregando ao Partido Progressista (PP), a chefia da Casa Civil do Poder Executivo.

O episódio foi interpretado por analistas políticos e por muitos atores representativos na política nacional, como uma vergonhosa capitulação, pois, na campanha eleitoral de 2018, JMB havia prometido que governaria com “um jeito novo de fazer política”, pois a “velha política do toma lá, dá cá, não teria vez no seu governo”.

O entendimento é que o preço dessa capitulação será muito alto e chegará um momento em que se tornará impagável a fatura. Então, certamente como já aconteceu outras vezes, o “Centrão” abandonará o barco do governo levando inclusive os remos...

“O país se tornou refém
de um grupo político
sequioso de poder e sem
pudor, que usa da mentira
e da dissimulação para
ocultar seus verdadeiros interesses”


Mas JMB tem se revelado um ator político perspicaz, um sobrevivente na arte de permanecer no poder, mesmo não apresentando realizações concretas. Não se pode menosprezar o fato de que, no ano passado, ele tenha conseguido emplacar seus dois candidatos à presidência das casas do Congresso Nacional: Arthur Lira para a Câmara dos Deputados e Rodrigo Pacheco, para o Senado Federal. Há alguns meses, na votação da questão do voto impresso, embora derrotado, conseguiu marcar posição que também uma eventual abertura de um processo de impeachment não iria à frente, porque a maioria absoluta não seria alcançada. Isso representou uma demonstração de força, de que tem condições de equilibrar o jogo político, apesar dos intensos ataques que tem sofrido.

Enquanto isso, o presidente da Câmara dos Deputados faz a defesa do presidente, ora com bravatas tais como as declarações de que “continuo com o dedo no botão amarelo [do impeachment]” e de que “medidas amargas poderão ser ministradas”; no entanto, continua assentado sobre mais de 130 pedidos de impeachment protocolados na Casa (um triste recorde nos anais da nossa história política) e segue tentando, a toque de caixa, a aprovação da pauta de propostas reformadoras do governo. A seu turno, o presidente do Senado, no seu estilo bem mineiro, ponderado, de poucas palavras e de raras manifestações públicas, tem preferido as notas de advertência e as conversas conciliadoras e, até pouco tempo, continuava a dar andamento na votação dos projetos de reforma enviados ao Congresso pela Câmara dos Deputados.

Recentemente, mudou sua postura e, nos bastidores do poder, há quem aposte que ele já sonha em subir a rampa do Palácio do Planalto em janeiro de 2023.

Dessa forma, o país se tornou refém de um grupo político sequioso de poder e sem pudor, que usa da mentira e da dissimulação para ocultar seus verdadeiros interesses: tirar o máximo proveito da situação política delicada do Presidente da República e, depois de arrecadado o butim do assalto ao erário público, retirará seu apoio quando se convencer da inviabilidade de reeleição do presidente JMB. O “modus operandi” é conhecido, pois já aconteceu no último mandato de Dilma Rousseff, em 2016.

Diante dessas constatações, forçoso concluir que o destino de JMB na Presidência da República está selado: não haverá a deflagração de um processo de impeachment por enquanto, mas será deixado desidratando no pavoroso panorama econômico que se anuncia, em um ano eleitoral com inflação em alta, desemprego recorde, fome, crise hídrica e energética, baixos investimentos externos no país, fuga de capitais, contas públicas fora de controle, aumento da violência urbana e rural, pressões externas sobre o controle do meio-ambiente etc.

JMB está consciente dessa inevitável fatalidade (tome-se como exemplo a emblemática declaração dada no final do mês de agosto: “só me restam três coisas [sobre o meu destino]: ser preso, ser morto ou vencer”), pois, afinal, ele é dotado de um feeling político do qual não se pode desdenhar ou subestimar – o que comumente costumam fazer seus adversários. Para tanto, adota uma estratégia de sobrevivência, que é a de alterar o entendimento da realidade pelo público, com a disseminação intermitente de fatos falsos ou distorcidos e a publicação contínua de falas desconexas e ameaçadoras, em discursos, em “lives”, no “tweeter”, em transmissões de rádios ou de TVs, além da extensa rede midiática de “fake News”, coordenada pelos seus adeptos. E, alimentando a crise, mantém o foco nos ataques ao STF e principalmente em dois de seus ministros – Roberto Barroso e Alexandre de Morais.

“Só duas coisas não têm
limites: a estupidez humana
e o universo. Quanto ao universo,
tenho dúvidas” (Albert Einstein)


JMB chegou ao extremo de propagar a notícia de que no dia sete de setembro tomaria uma decisão “dura” contra os “excessos do STF” e conclamou a população [leia-se: seus fiéis seguidores] a participar das manifestações que estavam sendo organizadas em seu apoio. Mas, no fim do dia sete de setembro, nada do que havia previsto acontecera (pois JMB nunca disse em detalhes qual seria a sua decisão e o modo como ela seria tomada!). Por fim, um dia depois, diante do fiasco da “golpeada”, protagonizou um pedido de desculpas aos ministros do STF que, seguramente, será considerada, no futuro, um ato de uma grande comédia política, para desespero de seus apoiadores. Na sexta-feira, voltou a atacar o STF, embora de forma mais branda, em tom moderado irreconhecível quando comparado ao seu comportamento antes do sete de setembro. Apesar disso, segue mantendo a fidelidade de um núcleo de apoio bolsonarista cativo (estimativas de analistas políticos estimam em torno de mais ou menos 15% do eleitorado) e, ao mesmo tempo, realiza duas proezas dignas de nota: aumenta a confusão entre os seus adversários e potencializa o medo no eleitorado em geral. Trata-se da aplicação da conhecida expressão tão usada por JMB: “esticar a corda” e “dobrar a aposta”. Dizem os biólogos que os lobos têm um notável instinto de sobrevivência e, embora vivam em pequenas matilhas, adotam um estilo próprio de comunicação que lhes permitem não apenas emitir gritos de socorro, quando estiverem perdidos, como também obter o reconhecimento e apoio de outros companheiros do grupo, numa disputa de poder. Ademais, são extremamente apegados à família e seus filhotes desfrutam de uma contínua proteção mesmo quando já estão aptos a viver sozinhos. Hoje, sabe-se que, além disso, os lobos uivam não somente para despertar o medo nas suas presas e confirmar que estão à espreita para caçar, delimitando seu território e levando a desorientação e o medo às suas presas, mas para identificar aqueles membros do próprio grupo que lhes são mais afins e fiéis.

Neste momento, o Brasil vive em um momento político delicado, carregado de nuvens escuras e muitas sombras, e nessas há lobos uivando, divididos em grupos, cada um no seu padrão próprio de comunicação, em diferentes graus de raiva e de ameaças. Quanto mais se intensificam os uivos, mais vão se preparando para o desfecho final, que ninguém sabe quando virá. Pensar que o pior não pode acontecer é comportar-se como as ovelhas do rebanho, que creem na simples presença do pastor por perto como suficiente para afugentar a alcateia lupina. Os lobos não têm medo quando decidem partir para o ataque às suas vítimas. Nas sociedades organizadas em forma de Estado, não há Carta Política que suporte por tanto tempo as tensões geradas por uma corda esticada que não conhece limites, pois, no fim, ela arrebentará: não do lado mais fraco, mas do lado que tiver mais medo do outro.

* Advogado, escritor e professor de Ciência Política e Teoria Geral do Estado, membro do Instituto dos Advogados de Minas Gerais -IAMG

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