06 de outubro, de 2021 | 07:17

Suspeita de espionagem na Cemig pauta depoimento na CPI quinta-feira

Deputados interrogam, nesta quinta (7), representante legal da empresa que teria espionado funcionários da estatal e até deputados

Com informações da Ascom ALMG
Reprodução
Empresa de capital misto, em 2020 - ano em que negócios foram duramente impactados pela pandemia covid-19 - a Cemig fechou o ano com lucro líquido de R$ 2,86 bilhões. Empresa de capital misto, em 2020 - ano em que negócios foram duramente impactados pela pandemia covid-19 - a Cemig fechou o ano com lucro líquido de R$ 2,86 bilhões.

Nesta quinta-feira (7), os deputados que integram a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) que apura denúncias de irregularidades na Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) interrogam, a partir das 14 horas, no Auditório José Alencar, a representante legal da Kroll Associates Brasil, Fernanda Barroso Carneiro.

Criada para investigar possíveis irregularidades na gestão e o uso político da empresa concessionária do serviço de energia elétrica, a CPI da Cemig quer saber da depoente, que será ouvida na condição de testemunha, a real dimensão da devassa conduzida pela empresa de investigações corporativas que teria atingido desde funcionários terceirizados e altos executivos da companhia energética, incluindo seus familiares de até segundo grau, até parlamentares que integram a comissão.

A rede de intrigas recentemente ganhou as páginas de jornais com a revelação de partes do plano de trabalho que a Kroll teria enviado à Cemig para uma suposta apuração independente sobre denúncias de corrupção na estatal mineira.

Na mira da investigação estariam dados de servidores e seus familiares relativos a, por exemplo, redes sociais, cargos públicos, filiação partidária, doações políticas, contratos com entidades públicas, pendências com a Receita federal e até mesmo dívidas.

Em seu site, a empresa diz fornecer a expertise necessária em consultoria investigativa para solucionar conflitos por meio de análise crítica e descoberta de fatos. Contudo, apesar de ser componente importante da atuação da empresa de investigações, a discrição não parece ser o forte da Kroll, lembrada frequentemente na imprensa em vários episódios de intrigas sobretudo na capital federal, envolvendo autoridades, outras personalidades, concorrências públicas, CPIs e até mesmo a Operação Lava Jato.

Capital aberto

A Cemig atua na geração, transmissão, distribuição e comercialização de energia elétrica, além de gás. É uma empresa pública de capital aberto, ou seja, o governo de Minas Gerais é o principal acionista e controlador, mas os seus lucros são divididos também com donos de ações negociadas nas bolsas de valores, do Brasil e do exterior. Em 2020 - ano em que negócios foram duramente impactados pela pandemia covid-19 - a companhia fechou o ano com lucro líquido de R$ 2,86 bilhões.
Guilherme Bergamini ALMG
Zé Reis (deputado estadual Pode/MG), Atila Pimenta Coelho Machado (advogado), Marcelo Flores de Moura (representante da Empresa IBM Brasil - Indústria Máquinas e Serviços Ltda), Cássio Soares (deputado estadual PSD/MG), Sávio Souza Cruz (deputado estadual MDB/MG), Beatriz Cerqueira (deputada estadual PT/MG), Professor Cleiton (deputado estadual PSB/MGZé Reis (deputado estadual Pode/MG), Atila Pimenta Coelho Machado (advogado), Marcelo Flores de Moura (representante da Empresa IBM Brasil - Indústria Máquinas e Serviços Ltda), Cássio Soares (deputado estadual PSD/MG), Sávio Souza Cruz (deputado estadual MDB/MG), Beatriz Cerqueira (deputada estadual PT/MG), Professor Cleiton (deputado estadual PSB/MG

Tensão

O clima de terror instaurado pela atual direção entre os funcionários da Cemig que se opõem a um possível processo de desmanche da companhia, o que em última instância seria útil ao processo de privatização, bandeira defendida pelo governador Romeu Zema, foi denunciado por sindicalistas na semana passada, em depoimento na CPI da Cemig. Além de episódios de assédio moral, eles relataram a apreensão pela atuação da Kroll, o que poderia amparar retaliações.

Outro temor já apontado pelos deputados nas reuniões da CPI está relacionado a um gradativo processo de desestabilização da credibilidade da empresa junto ao mercado. Uma das principais empresas de energia do País, que disputa espaço em um setor acirrado da economia e tem até ações listadas na Bolsa de Nova Iorque (EUA), a Cemig pode ser diretamente impactada por qualquer vazamento de informações sensíveis.

“Dos grandes contratos celebrados pela Cemig com movimentações extremamente irregulares, um deles era o da IBM e o outro é esse da Kroll. Precisamos entender melhor esse contrato com a Kroll, como essa empresa entrou na vida da Cemig e, consequentemente, na vida dos mineiros, servindo a quais objetivos e com quais interesses”, afirma a deputada Beatriz Cerqueira (PT).

Já publicado:
Contratação do presidente da Cemig é alvo de CPI na ALMG

Intimidação para garantir contratos suspeitos

A Kroll foi citada ainda no início dos trabalhos da CPI da Cemig, em agosto, pelo vice-presidente da comissão, deputado Professor Cleiton (PSB), primeiro signatário do requerimento que deu origem à investigação. O parlamentar acusa a empresa de tentar espioná-lo para intimidar sua atuação no caso. Segundo o deputado, uma perícia teria confirmado que seu telefone celular foi grampeado.

A Kroll nega esta ação e já acionou o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) em busca de esclarecimentos. Mas, no caso da Cemig, um de seus funcionários foi flagrado pelo sistema de vigilância eletrônica da estatal extraindo dados dos computadores da Diretoria de Regulação e Jurídica, após o horário de expediente, acompanhado da assessora desta diretoria, Virginia Kirchmeyer Vieira.

Em depoimento prestado à CPI, a assessora confirmou sua participação no episódio de “arapongagem”, ao ser confrontada com a existência de uma gravação obtida pelo suposto alvo desta trama, Daniel Polignano Godoy, ex-titular da Gerência de Direito Administrativo da Cemig.

O episódio teria ocorrido na virada do dia 3 para 4 de dezembro do ano passado, quando Daniel, ainda no exercício do cargo, teria tido seu computador invadido e arquivos copiados pela Kroll. Na época, a empresa não tinha ainda sequer um contrato firmado que garantisse a confidencialidade das informações obtidas, conforme informou à CPI da Cemig o ex-executivo espionado.
Auditório José Alencar Gomes da Silva, na ALMG tem abrigado as reuniões da CPI da CemigAuditório José Alencar Gomes da Silva, na ALMG tem abrigado as reuniões da CPI da Cemig

Pareceres

Uma das linhas de investigação seguida pelos deputados é de que, na mira da espionagem, estariam sobretudo funcionários antigos da Cemig que se opunham à flexibilização dos mecanismos de controle que impediriam a assinatura de contratos bilionários sem licitação.

Entre eles estaria Daniel, que chefiava o setor responsável pela emissão de pareceres jurídicos prévios nessas contratações, que passaram a ser relegados a segundo plano na atual gestão do diretor-presidente Reynaldo Passanezi Filho.

Em seu depoimento, Daniel revelou que, por decisão da diretoria executiva e do Conselho de Administração da Cemig, os pareceres jurídicos justificando a “inexigibilidade de licitação” passaram a ser emitidos posteriormente à celebração de contratos. Uma das empresas contratadas dessa maneira foi justamente a Kroll.

Convalidação - A prática conhecida como “convalidação” é a regularização de contratações depois dos serviços contratados já terem sido executados, expediente que deveria ser utilizado somente em situações emergenciais.

O ex-gerente de Direito Administrativo foi demitido do cargo em fevereiro deste ano pelo diretor jurídico Eduardo Soares, sob o argumento de “ter visões diferentes de como a Cemig deveria funcionar”.

Nota - A Kroll informou, por meio de nota, que o escopo do trabalho contratado pela Cemig é limitado à condução de investigação corporativa sobre denúncias de atos de corrupção, que também são objeto de averiguação do Ministério Público do Estado de Minas Gerais.

Sobre a coleta forense realizada nos equipamentos da Cemig, reitera que teve acesso somente aos arquivos e computadores corporativos, de propriedade da Cemig, que contratou e anuiu com o plano de trabalho apresentado pela Kroll, feito com base nos ofícios encaminhados pelo MP-MG.

Diz, ainda, que coleta forense fora do horário de trabalho segue as boas práticas de investigações anticorrupção listadas pelo Tribunal de Contas da União e pelo Departamento de Justiça estadunidense, entre outros órgãos.
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