01 de junho, de 2021 | 14:10

Adão de Faria está (quase) morto

Vinícius Siman *

Adão de Faria, deus supremo da performance e do teatro deste Vale do Aço criou monstros, e está sendo por eles engolido (e digerido). À forma que Aristóteles superou Platão que superou Sócrates, vejo que as pessoas que eu sempre encontrei na cobertura de Adão, em noites de performance, algumas assistindo, outras atuando, estão superando a grandiosidade do mestre. A exemplo cito dois: Camile Gracian e Gustavo Nascimento.

De Gustavo tenho a dizer que é já, definitivamente, o mais importante cineasta de nossa região, sem ignorar a relevância histórica — e também artística — de Sávio Tarso, mas Gustavo anda reinando portentoso na cena cinematográfica. Seus curtas-metragens, seus experimentos e sua verve artística são impecáveis, duma estilística nova e absurdamente necessária. Observe, por exemplo, a riqueza de “Dengo”, “Deixe Deus com seu mundo” e um dos mais belos experimentos que já vi, em questão de fotografia e significado, “Isto não é um juliet”. Ambos se encontram no canal do Youtube do ator e cineasta.

De Camile Gracian, ah! Sempre a chamei Fernanda Montenegro do Vale do Aço nos coquetéis da vida, mas hoje faço questão de chamá-la apenas Camile Gracian, a apoteose em mulher, esse gozo, essa estatura, essa alma nua. Com que riqueza e nobreza Camile atua no curta-metragem “Reticências”, com texto seu, direção de Gessé Rosa e produção de ninguém mais, ninguém menos que ele, o onipresente Gustavo Nascimento.

Camile me fez chorar em várias cenas, mas sobretudo em uma que uma pluma cai levemente, ao som dum noturno de Chopin, enquanto fala de amizades que vêm e vão. A fotografia, a pele negra de Camile vestida em amarelo manga, a pluma se derramando no ar em câmera lenta, tudo isso é mais bonito que qualquer poema que eu tenha capacidade de escrever em toda a minha vida.

Essa é, sem dúvida, das imagens mais grandiosas que levarei comigo ao túmulo. Temo ter uma psicose e sonhar noites a fio com essa cena, imaginando a beleza de Camile, sua sensibilidade, seu dulçor agudo. Quantas personalidades respeitadas vi citadas de forma irônica, quanta desconstrução de pensamentos unânimes, quanta observância de Camile em apontar cirúrgica e poeticamente tudo isso.

Não é a primeira vez que Camile me fez chorar, mas é, sem dúvida, a mais bela das vezes em que chorei na minha vida.

* Escritor, poeta, crítico literário e diretor de teatro 
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