30 de março, de 2021 | 15:49

O homem que via o futuro

Daniel Medeiros *

“O futuro, quando se torna presente, ilumina os espectros daqueles que se anteciparam e alertaram e que, quase sempre, foram desacreditados”

Pouco depois do incêndio do Reichstag, ele conseguiu autorização para embarcar em um voo com Goebbels e Hitler. Conversou com o Ministro da Propaganda e reparou como Hitler estudava obsessivamente um mapa europeu. Ouvindo a conversa entre os dois, ficou claro para ele que Hitler não seria apenas um ventríloquo dos interesses dos grandes empresários alemães. O chanceler tinha um delírio pessoal para erguer, um projeto de grandezas e profundidades nunca imaginado: o Reich de mil anos. Doze anos depois, quando deu um tiro na cabeça, a paisagem era outra. Mas isso nós já sabemos e agora nos perguntamos como ninguém tentou evitá-lo antes. Pois é: o passado, que era o futuro naquele ano de 1933, naquele voo, passou pelos olhos do jovem jornalista de 27 anos, Gareth Jones. Mas quando ele alertou a todos, ninguém acreditou nele. O delírio parecia ser seu e não do senhor Hitler. Afinal, como duvidar de um homem que prometia salvar a economia da Alemanha?

No mesmo ano, ele foi para Moscou e conseguiu, fugindo da vigilância soviética, visitar os campos coletivizados na Ucrânia. De lá vinham os grãos que o governo trocava por libras e dólares para financiar a sua indústria. Stalin fazia uma propaganda imensa do sucesso da revolução e buscava aproximar-se do Ocidente, oferecendo oportunidades de negócios para a transformação de um país servil em moderna nação. Mas o que Gareth viu, longe da Moscou da propaganda, foi miséria, fome, mortes. A coletivização forçada promovida por Stalin transformou milhões de pessoas em escravas de um projeto de Revolução Industrial à curto prazo, com um custo maior do que a Inglaterra levou quase um século para promover. Mas Stalin tinha pressa. E, como o ditador mesmo costumava dizer: “uma morte é uma tragédia; um milhão de mortes, uma estatística”.

Mais uma vez, Gareth denunciou e buscou mostrar ao mundo que o que acontecia na URSS era terrível e não podia ser apoiado por ninguém. Mas, outra vez, quase ninguém se importou com o que ele disse. Pelo contrário, os EUA do senhor Roosevelt reconheceram diplomaticamente a URSS e mandaram para lá seus ávidos empreendedores, em busca de recuperarem o dinheiro perdido pela depressão do pós 1929. O mesmo ocorreu com a Alemanha. Quem se importava com aqueles discursos exagerados, com aquelas promessas macabras, com as ameaças aos judeus, ciganos, eslavos, homossexuais, pessoas com deficiência? A economia ia bem, a Alemanha seria grande outra vez. Hitler era só um falastrão. Se ele saísse do prumo, bastava tirá-lo do poder.

Gareth morreu em 1935, assassinado, provavelmente, por ordens de Moscou, durante uma reportagem na Mongólia. Morreu antes de a visão do presente que ele tentou difundir - como o homem que deixa a caverna e depois retorna porque acha que precisa compartilhar o que viu com os outros homens acorrentados pela rotina das sombras projetadas na parede - tornasse-se evidente para todos. Mas era tarde. Sempre é tarde.

O futuro, quando se torna presente, ilumina os espectros daqueles que se anteciparam e alertaram e que, quase sempre, foram desacreditados. É uma sina, a de estarmos mergulhados pelo presente que escolhemos ter e rejeitarmos visões perturbadoras como se fossem impossíveis. Até que se tornam a paisagem ao redor de todos nós.
Ainda hoje, o Holodomor, nome que expressa o Shoah ucraniano nos anos de 1932 e 1933, é pouco conhecido e ainda contestado por muitos. É que há muitos tempos presentes que são tão doces de se imaginar viver que não aceitamos a ideia de que eles nunca foram assim em tempo algum. E insistimos em citá-los, nostalgicamente, como se estivéssemos sob o efeito de uma droga alucinógena.

É como lembrar dos anos setenta no Brasil como um período de paz e prosperidade. É como, provavelmente, em algum momento do futuro, muitos dirão que vivemos, nesses dias de penumbra e tristeza, um tempo de ordem e de progresso. E, mais uma vez, serão as pessoas como Gareth que nos lembrarão o que o presente realmente foi, quando já for um passado distante e impossível de salvar.

* Doutor em Educação Histórica e professor no Curso Positivo. [email protected]
@profdanielmedeiros
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Comentários

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Tião Aranha

01 de abril, 2021 | 18:18

“Já ouvi contar a história deste jornalista visionário diversas vezes, que, apesar da tenra idade , tinha uma visão futurista incomum; condescendencia das pessoas no geral é a maior causa do malfadado progresso geralmente envolto na propaganda falsa dos meios de comunicação de massa pois todos querem ficar sempre ao lado de quem está no poder, contanto que esteja levando algum tipo de vantagem.”

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